Bubble

26/03/2007 | Categoria: Críticas

Steven Soderbergh faz com não-atores um pequeno filme incômodo que desafia o modo de distribuição clássica do cinema

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O cineasta Steven Soderbergh tem lutado, durante toda a carreira, para equilibrar filmes comerciais (com cérebro) e projetos experimentais que desafiem o conceito clássico de cinema. “Bubble” (EUA, 2005), produção de US$ 1,4 milhão que usa exclusivamente atores não-profissionais, é o mais bem-sucedido desses ousados projetos paralelos. Embora documente uma história banal de modo relaxado e espontâneo, quase como se fosse o rascunho não-terminado de um longa-metragem, “Bubble” chama mais a atenção pela inovadora estratégia de lançamento. Com intervalo de apenas quatro dias, o longa-metragem foi jogado nos cinemas, na TV a cabo e em DVD, nos Estados Unidos.

A explicação de Soderbergh para esse lançamento comercialmente suicida é simples. O diretor de sucessos como “Onze Homens e um Segredo” acredita que a estrutura clássica de distribuição de filmes (o filme é exibido nos cinema, sai em DVD e vai para televisão, em intervalos regulares de alguns meses) está sendo desafiada pela tecnologia. Soderbergh aposta que essa estrutura clássica cairá, dentro de alguns anos. Para ele, os estúdios terão que capitular e permitir que o público escolha o suporte (TV, DVD ou cinema) em que deseja assistir ao filme desde o primeiro minuto em que for lançado. “Bubble” nasceu da vontade de fazer uma experiência barata que lhe permitisse observar o comportamento dos espectadores, diante da possibilidade de escolher o modo como assistir ao filme.

Para conduzir a experiência, Soderbergh resolveu filmar uma história de operários levando vidas banais em uma cidade industrial qualquer dos EUA. Escolheu o município de Belpre, Ohio. Fez entrevistas com a população local e escolheu o elenco a partir dessas conversas. A idéia era escalar um elenco amador formado por pessoas normais, que tivessem vidas parecidas com a de seus personagens. O trio principal é exatamente assim. Nenhum tinha trabalhado como ator antes – uma garota era atendente de lanchonete, a outra cabeleireira e o rapaz, entregador de pizzas. Com isso, Soderbergh queria que os atores trouxessem para dentro do filme o background dos seus personagens. Ele queria que a realidade dessas pessoas fosse parecida com a ficção.

A técnica é uma radicalização do que o brasileiro Fernando Meirelles fez em “Cidade de Deus”, buscando nas favelas uma turma de não-atores que fosse capaz de agregar alguma experiência real à ficção contida no roteiro. Desde os expoentes do neo-realismo italiano dos anos 1940, como Roberto Rossellini, o cinema tem se utilizado dessa mão-de-obra não-profissional, sempre perseguindo a autenticidade e o senso de urgência da realidade que atores caros, vivendo em mansões chiques, não conseguiriam transmitir inteiramente. Em “Bubble”, o resultado final é muito bom, embora o filme em si seja objeto de alguma controvérsia.

Um dos charmes de “Bubble” é que o filme, aparentemente, não tem história. A primeira metade se dedica a apresentar os três personagens principais, todos operários de uma fábrica de bonecos. Martha (Debbie Doebereiner) é uma senhora gorda de 40 e poucos anos, que cuida do pai paralítico e tem um carro. Kyle (Dustin James Ashley), de 20 e poucos anos, mora com a mãe, é quieto e tem um segundo emprego, o que não lhe deixa tempo para sair ou namorar. Os dois são bons amigos, a despeito da diferença de idade. Martha dá carona ao rapaz até a fábrica, todos os dias, e os dois conversam sobre trivialidades no intervalo do almoço.

A chegada de Rose (Misty Dawn Wilkins), uma garota da idade de Kyle que mora com uma filha de dois anos e também possui um segundo emprego, não altera o ambiente de trabalho dentro da fábrica, mas ela se infiltra no círculo dos dois amigos, fazendo amizade com ambos e se juntando a eles durante as pausas para bater papo. Até o meio do filme, nada acontece. Ou melhor, nada parece acontecer. Quando acontece, a platéia se dá conta que estava vendo a banalidade lentamente se transformando em tragédia. Isso dá uma possível interpretação para o título do filme (em tradução literal, “Bolha”). A lógica é que um acontecimento que perturba a normalidade vai se formando lenta e imperceptivelmente, mas só é notado quando algo extraordinário acontece e a “bolha” explode.

Soderbergh filma tudo com estética de documentário. As tomadas são sempre estáticas, sem movimentos de câmera. A trilha sonora não passa de uma melodia minimalista tocada desleixadamente por um violonista solitário. Os diálogos soam convincentes em sua rotina monótona e exasperante porque foram criados de improviso pelos atores. O roteiro original de Coleman Hough apenas apontava as situações dramáticas, mas não indicava as falas que cada um deveria recitar. Na hora de filmar, Soderbergh só dizia aos atores como cada cena deveria terminar. O resto saía da cabeça deles, na hora.

“Bubble” foi feito em vídeo digital de alta definição (HD), com a câmera operada pelo próprio Soderbergh (o cineasta assina a fotografia de todos os filmes que dirige, sob o pseudônimo de Peter Andrews). Filme-cabeça? Talvez. O despojamento total e a monotonia da ação dá ao todo um tom bem naturalista, que persegue – e captura – o ritmo de vida real, algo sempre muito bom de ver em filme norte-americano. Mas o ritmo sonolento não deve agradar ao público normal, já que é lento demais para o padrão Multiplex.

Em termos sociais, “Bubble” é um depoimento assustador sobre a vida do norte-americano médio, que o filme observa com pessimismo agudo. Os três protagonistas são pessoas comuns, sem atrativos, presos em rotinas estafantes que não deixam tempo livre ou qualquer esperança de mudança. Sem apelar para brincadeiras metalingüísticas (“Full Frontal”) ou verborragia (“sexo, mentiras e videotape”), Steven Soderbergh fez um pequeno filme incômodo. Vale observar, ainda, que é possível decifrar um significado oculto no título; nesse caso, “Bubble” seria o primeiro representante da “bolha” que, no futuro, pode vir a destruir o esquema de distribuição clássica de filmes a que estamos acostumados.

O DVD norte-americano é cheio de extras. São dois comentários em áudio (o primeiro com Soderbergh sendo entrevistado pelo cineasta Mark Romanek, de “O Suspeito da Rua Arlington”; o segundo com os três principais atores). Há um final alternativo (6 minutos), uma entrevista em vídeo com Soderbergh (10 minutos) e um pequeno documentário que enfoca os atores e a roteirista Coleman Hough (11 minutos). Além disso, os vídeos das três entrevistas feitas com o trio principal, como parte da seleção do elenco, também estão no disco. Já no Brasil, o DVD da Paris Filmes traz só o longa, com imagem em letterbox (tarjas negras ao redor) e áudio Dolby Digital 2.0.

– Bubble (EUA, 2006)
Direção: Steven Soderbergh
Elenco: Debbie Doebereiner, Dustin James Ashley, Misty Dawn Wilkins, K. Smith
Duração: 73 minutos

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