Buffalo Bill

28/02/2007 | Categoria: Críticas

Iconoclasta como sempre, Robert Altman destrói mitos sobre um dos pioneiros do Velho Oeste

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Robert Altman tornou-se um dos diretores de cinema mais admirados em Hollywood após o sucesso massivo (especialmente entre os críticos) de “Nashville”, em 1975. Mesmo assim, e apesar de quase sempre conseguir imprimir nos trabalhos que comandava o estilo relaxado que se baseava mais no coletivo do que no individual, ainda não era considerado exatamente um autor, no sentido exato do termo. Altman não conseguia criar nada do zero. “Buffalo Bill” (Buffalo Bill and the Indians, EUA, 1976) não foi uma exceção. Ele embarcou no projeto quando este já estava em andamento, e mais uma vez conseguiu dar a ele a cara de Robert Altman, fazendo um filme satírico, despojado e iconoclasta.

Aliás, iconoclasta é a palavra exata que define “Buffalo Bill”. A rigor, o filme se concentra na idéia de destruir, pedaço a pedaço, o heroísmo inerente ao personagem principal, um dos maiores mitos do Velho Oeste. A lenda dizia que o caçador branco, corajoso e idealista, havia eliminado os bandos de selvagens malvados que habitavam a terra, abrindo caminho para o soerguimento da nação mais poderosa do mundo. Altman não estava interessado na lenda, mas em uma narrativa ficcional que se aproximasse do homem que Bill realmente tinha sido. De fato, o filme se encaixava perfeitamente na moda dos westerns revisionistas (ou seja, que retornavam à mitologia do Velho Oeste para contar novamente, agora de modo mais realista e menos enfeitado, os episódios clássicos da época), popular entre os grandes estúdios em meados dos anos 1970.

Antes de Altman entrar no barco conduzido pelo ator Paul Newman, então uma das grandes estrelas da indústria do cinema, “Buffalo Bill” seria uma comédia que reuniria todo o time responsável por um grande sucesso anterior, “Butch Cassidy e Sundance Kid” (1969). No entanto, o cineasta George Roy Hill acabou desistindo, e Robert Redford tinha outras idéias em mente. Newman tomou a frente do barco e convidou Altman para a direção, dando-lhe carta branca. O diretor já tinha experiência com faroestes revisionistas – o maravilhoso “Jogos e Trapaças”, de 1971, recontava com naturalismo inédito a difícil vida na fronteira – e embarcou na idéia com alegria.

A idéia original era simples: jogar fora o mito inverídico que havia sido construído sobre Buffalo Bill, dotando o personagem das mesmas características que tinha na vida real. O filme retrata Bill como um fanfarrão mentiroso, alcoólatra e com mania de grandeza. Como o caçador havia virado lenda cruzando os Estados Unidos, na década de 1880, com um circo itinerante que simulava no palco os “grandes feitos” realizados por ele anos antes, Altman logo viu a oportunidade de trabalhar da maneira que mais sabia. Esmerando-se em reconstituir a atmosfera dos bastidores daquele circo, cheia de intrigas e picuinhas, ele decidiu reunir um grande elenco e apostar no improviso. Assim foi feito.

“Buffalo Bill” é um filme de Robert Altman, com todas as letras. O cineasta não tem pena do personagem histórico, pintando-o como um sujeito egoísta que tomava porres homéricos mas que, ciente da importância da imagem pública, jamais era visto bebendo em público. Sua vasta cabeleira era uma peruca, e Bill nutria um interesse especial por mulheres que sabiam cantar óperas, sendo no entanto um camarada trapalhão no trato com o sexo oposto. Enquanto se encastelava nos bastidores, munidos de garrafas de uísque, seus assistentes travam uma luta surda e encarniçada por poder. A chegada do grande chefe Touro Sentado, para participar de alguns espetáculos, torna as coisas ainda mais complicadas.

O filme é uma delícia, mas ao contrário de “Nashville” e “Jogos e Trapaças”, foi um fracasso retumbante de público e crítica – talvez os espectadores da época ainda não estivessem preparados para ver um mito tão poderoso das origens do país, como Buffalo Bill, ser pisoteado em praça pública. No exterior, o longa-metragem não foi mal, chegando a ganhar o prestigiado Urso de Ouro no Festival de Berlim (um dos três maiores do mundo) de 1976. Mesmo assim, até hoje permanece como uma das obras mais obscuras da carreira do diretor. É irregular, mas vale a pena.

O DVD brasileiro, da Califórnia Filmes, tem qualidade fraca. Não há extras, a imagem não está no melhor formato (widescreen letterboxed, com tarjas negras a emoldurando) e o áudio é só razoável (Dolby Digital 2.0).

– Buffalo Bill (Buffalo Bill and the Indians, EUA, 1976)
Direção: Robert Altman
Elenco: Paul Newman, Geraldine Chaplin, Will Sampson, Harvey Keitel
Duração: 123 minutos

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