Bullitt

01/08/2005 | Categoria: Críticas

Policial cheio de tensão é eficiente, cru e contém uma das grandes cenas de perseguição do cinema

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Filmes policiais simples, brutais e honestos, como “Bullitt” (EUA, 1968), são, infelizmente, artigo raro em uma Hollywood que aprendeu a abusar de cortes rápidos e tramas repetitivas para conquistar platéias formadas por adolescentes acostumados a uma dieta cinematográfica pobre. Não se trata de uma obra-prima, mas de um thriller eficiente, que sustenta quase duas horas de tensão apoiando-se em uma trama direta, sem frescuras, feita sob medida para explorar o carisma do astro Steve McQueen.

McQueen interpreta o detetive Frank Bullitt, tenente da força policial de San Francisco (EUA) que recebe a incumbência de proteger a testemunha-chave de um inquérito contra a Máfia. Durante a madrugada, a despeito dos esforços de Bullitt, a testemunha é assassinada por matadores profissionais. Os criminosos, porém, não sabem que Johnny Ross (Pat Renella) está morto; pensam que a testemunha ficou apenas ferida durante o atentado. Bullitt aproveita o fato para tentar montar uma armadilha capaz de capturar outros criminosos.

O roteiro de Alan Trustman e Harry Kleiner é bem construído, com base em diálogos curtos e incisivos. Observe, por exemplo, a cena em que o promotor Walter Chalmers (Robert Vaughn) elogia o médico responsável pelo atendimento de emergência a Ross. Logo depois, ele se dirige à enfermeira-chefe e avisa que vai mandar um cirurgião mais experiente. Não percebe que o plantonista está logo atrás, ouvindo tudo, assim como Bullitt. Assim, quando o tenente pede ajuda ao médico para enganar o promotor, não precisa pedir uma segunda vez, e é atendido de pronto. Poucas palavras, muita ação.

Toda a parte técnica de “Bullitt” é excelente. A fotografia de William Fraker mergulha em sombras (note como o rosto do matador está imerso na escuridão) e usa, com certa discrição, as imagens tremidas de uma câmera na mão, dando um aspecto cru ao longa-metragem. O recurso era pouco utilizado em 1968. Fraker também capricha nos ângulos exóticos, em especial na célebre seqüência de 11 minutos em que o tenente Bullitt persegue dois mafiosos, de carro, pelas ladeiras de San Francisco. Esta é a cena mais famosa do filme de Peter Yates; fala-se que nunca mais Hollywood conseguiu reproduzir uma perseguição de carro com tanto realismo. A cena, montada com longos takes por Frank Keller (que ganhou o Oscar por ela), reproduz brilhantemente a furiosa tensão de uma corrida de carros.

A tensão, aliás, é um dos grandes trunfos de “Bullitt”; até mesmo o rosto de Steve McQueen, vincado por rugas, é tenso até o final, que conta com uma reviravolta bem tramada e pouco previsível. O filme fez grande sucesso na época do lançamento nos cinemas e influenciou decisivamente o gênero de ação nos anos 1970, principalmente no ótimo “Operação França”, que viria a faturar o Oscar de melhor filme três anos depois.

A edição especial de “Bullitt” é um lançamento da Warner. O disco é duplo. No primeiro DVD, o filme (com imagem na proporção original, widescreen anamórfica, e som Dolby Digital 2.0) vem acompanhado de comentário em áudio com o diretor Peter Yates e trailer. Já o disco 2 é, por si só, um programaço para cinéfilos, pois contém nada menos do que dois documentários em longa-metragem.

O primeiro (87 minutos) contém uma biografia incrementada do astro Steve McQueen. Recheada com depoimentos de amigos, colegas, diretores, ex-namoradas e com edição caprichada, o filme, feito para o canal de TV a cabo Turner Classics, traça um perfil bem completo do lendário ator.

O segundo documentário, intitulado “Cutting Edge” (100 minutos), foi feito em 2004 e é ainda melhor: trata-se de uma aula completa de montagem de filmes, com um resumo completo da evolução histórica dessa função, inúmeros exemplos de truques de edição e dezenas de depoimentos de feras, de Walter Murch (“Apocalypse Now”) até Quentin Tarantino, Steven Spielberg e Martin Scorsese, que dispensam comentários. Quem deseja aprender sobre edição de filmes tem aqui um prato cheio, e pode comprar o disco sem medo, mesmo que não goste de “Bullitt”, já que a produção de Peter Yates ocupa não mais do que 40 segundos.

Um curto documentário de bastidores (10 minutos), feito em 1968, completa o segundo DVD do pacote. Todo o material extra vem com legendas em português.

– Bullitt (EUA, 1968)
Direção: Peter Yates
Elenco: Steve McQueen, Robert Vaughn, Jacqueline Bisset, Robert Duvall
Duração: 114 minutos

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