Busca Frenética

07/07/2008 | Categoria: Críticas

Polanski filma Paris com precisão e investe em thriller na linha de Hitchcock, com a presença luxuosa de Harrison Ford

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O enredo parece roubado de um filme de Alfred Hitchcock. Um pacato médico norte-americano (Harrison Ford), visitando Paris pela segunda vez e sem saber uma única palavra de francês, precisa lidar com o misterioso desaparecimento da mulher (Betty Buckley), logo depois de darem entrada no hotel de luxo onde ficariam hospedados para um congresso internacional. A polícia e Embaixada dos EUA no país não lhe dão muita atenção, e ele se vê sozinho na desesperada tentativa de encontrar a esposa. A atmosfera de tensão e desespero, que envolve com firmeza a narrativa, é uma das maiores virtudes de “Busca Frenética” (Frantic, EUA/França, 1988), thriller pouco lembrado que carrega a assinatura elegante do diretor polonês Roman Polanski.

Na época original da produção, Polanski enfrentava muita dificuldade para filmar. Proibido de entrar nos Estados Unidos desde a década anterior, após ter sido condenado judicialmente de drogar e estuprar uma garota menor de idade, o cineasta estava exilado na França e não vinha sendo chamado para trabalhar em grandes produções. Para piorar, tinha feito uma aventura marítima (“Piratas”), levemente cômica, que fora fracasso absoluto de crítica e público. A volta por cima veio com a ajuda do ator Harrison Ford, então no auge da popularidade, que topou o desafio de interpretar uma variação do herói típico de Hitchcock: um homem inocente, ingênuo até, que precisa lidar sozinho com uma grave situação dramática, em um território que não conhece e num lugar em que não compreende o que os outros falam.

A boa interpretação de Ford, imbuída de uma gravidade desesperada, dá peso emocional ao drama do protagonista. A mulher de Polanski, Emmanuelle Seigner, estréia no cinema com o principal papel feminino, de uma jovem francesa cuja mala, trocada pela da esposa do médico no aeroporto de Paris, pode ser o motivo do sumiço. Dona de um nariz empinado e da arrogância típica dos jovens rebeldes, Seigner faz o contraponto ideal à tenacidade estóica do bravo doutor. A química entre os dois é excelente, e funciona especialmente nas seqüências mais agitadas, como o momento em que os dois saltam por telhados parisienses para conseguir recuperar um objeto de importância crucial para a trama.

Polanski brinda o espectador com algumas cenas brilhantes. A mais bem construída delas é a longa tomada sem cortes do momento em que a mulher do médico desaparece. O diretor polonês mostra a ocasião através de um ângulo inusitado. A câmera fica situada dentro do chuveiro do quarto de hotel. Vemos o homem tomando banho e, em segundo plano, vislumbramos breves fragmentos de ações aparentemente secundárias – a mulher atendendo o telefone, balbuciando algumas palavras (que não entendemos por causa do barulho da água do banho), colocando rapidamente um vestido e saindo de nosso campo de visão. A ausência de cortes e a longa duração agregam ainda mais tensão à seqüência, aliada ao fato de que não vemos nada especialmente relevante. Sabemos que algo aconteceu (e, portanto, sabemos mais do que o médico), mas não sabemos o quê. A curiosidade nos impele a ir em frente. É o momento definitivo em que “Busca Frenética” fisga o espectador.

Curiosamente, o título (tanto o nacional quanto o original, cuja tradução seria “Frenético”) não descreve com precisão o ritmo do longa-metragem. Há bem poucas seqüências de ação pura. À moda de Hitchcock, Polanski gasta a maior parte do tempo com conversas em que os personagens tentam raciocinar e montar o quebra-cabeças, enquanto se movem de um lugar para outro – pense em uma versão francesa de “O Homem que Sabia Demais” e terá uma boa idéia do andamento da trama. É um filme elegante, bem interpretado, bem filmado (o charme das ruas de Paris e a luz meio difusa, como se filtrada através de orvalho, são captados com bastante precisão) e com um ótimo tema musical, a cargo do italiano Ennio Morricone. Se não chega a ser um grande trabalho, faz jus ao nome do homem que o assina.

A edição nacional em DVD não é das melhores. Além de não conter qualquer extra (como, aliás, as versões importadas), peca por mutilar as laterais da imagem (4:3, ou 1.33:1). A qualidade do áudio (Dolby Digital 5.1) é boa.

– Busca Frenética (Frantic, EUA/França, 1988)
Direção: Roman Polanski
Elenco: Harrison Ford, Emmanuelle Seigner, Betty Buckley, John Mahoney
Duração: 120 minutos

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