Bússola de Ouro, A

07/05/2008 | Categoria: Críticas

CGI, criaturas mágicas, crianças vivendo aventuras fantásticas: o mesmo de sempre em narrativa confusa e apressada

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Se um homem do futuro aparecesse em Hollywood por volta da virada do milênio, dizendo que os filmes de fantasia teriam um revival de grandes proporções dali a alguns anos, provavelmente seria recebidos com risadas de escárnio. O sucesso avassalador das séries fantásticas “O senhor dos Anéis” e “Harry Potter”, contudo, arremessou as ambições dos executivos de grandes estúdios na direção de épicos escapistas de índole infanto-juvenil, que eles evitaram por muitos anos. “A Bússola de Ouro” (The Golden Compass, EUA/Reino Unido, 2007) surge dentro deste contexto. Trata-se de um filhote bastardo deste filão, repetindo a mesma receita dos antecessores: visual opulento gerado por computador (CGI), criaturas fantásticas, crianças protagonistas e temas arquetípicos da cultura norte-americana, como a luta do Bem contra o Mal e a importância da liberdade de expressão.

O filme, dirigido por Chris Weitz (“Um Grande Garoto”), foi baseado em uma das muitas séries literárias fantásticas escritas no rastro do sucesso da obra de J.R.R. Tolkien. Os romances de Philip Pullman, porém, tiveram que passar por modificações radicais, já que o autor é ateu e faz um ataque frontal à religião (especialmente a Igreja Católica) na saga. Por causa do público conservador dos Estados Unidos, todas as referências religiosas foram banidas durante o estágio de pré-produção, que tomou mais de cinco anos do estúdio New Line Cinema, o mesmo que produziu a série dirigida por Peter Jackson. O filme custou US$ 180 milhões, mas as medidas preventivas não evitaram o fracasso. Em quatro semanas de exibição nos EUA, a obra arrecadou apenas US$ 48 milhões.

Parte deste fracasso pode ser debitado à constante troca de roteiristas e diretores na fase de pré-produção. Muita gente trabalhou no projeto, antes que ele aterrisasse no colo de Weitz, cineasta-operário sem experiência com efeitos digitais. Mas o problema principal não vem daí. A maior falha da produção é a falta de explicações detalhadas sobre as intrincadas regras de funcionamento do universo fantástico onde a ação dramática se passa. Para manter a duração curta, inferior às duas horas de projeção, a adaptação de Chris Weitz prefere dispensar as explicações, se concentrando nas aventuras de Lyra Belacqua (Dakota Blue Richards), a protagonista de 12 anos da história. O resultado é uma narrativa apressada e confusa, em que a platéia tem dificuldade de compreender qual a função de cada personagem e artefato mágico dentro da trama.

A pequena Belacqua é uma órfã criada na universidade de Oxford de uma dimensão paralela, um lugar onde as almas tomam a forma de pequenos animais (chamados “demônios”) que andam sempre junto a seus donos. Lyra não sabe, mas os líderes da universidade desconfiam que ela seja a criança citada em uma antiga profecia, como a única humana no planeta capaz de entender as respostas dadas pela Bússola de Ouro, um artefato mágico disputado por humanos bons e maus. Na jornada que empreende em busca do tutor desaparecido Lord Asriel (Daniel Craig), a menina lida com ciganos, bruxas e ursos polares falantes, enquanto tenta refinar o dom especial de ler a Bússola. O filme parece não se importar em explicar porque diabos este objeto fantástico é importante. Um monte de outras perguntas menos importantes fica sem resposta.

Curiosamente, “A Bússola de Ouro” possui mais semelhanças com “As Crônicas de Nárnia” do que com as demais séries fantásticas do cinema. Diverge, porém, no subtexto (“Nárnia” é essencialmente uma metáfora cristã) e sobretudo na atmosfera, bem mais sombria – perceba a grande quantidade de cenas que se passam em ambientes escuros, com a maior parte da ação acontecendo durante a noite. O elenco, infelizmente, não corresponde: Daniel Craig e Eva Green têm só duas cenas cada um, e Nicole Kidman não irradia a pompa maléfica que sua personagem – a sinistra Marisa Coulter, líder do exército do mal, chamado de Magistério – deveria ter. O melhor do filme, como de hábito, está no trabalho dos artistas gráficos, sobretudo na criação dos altivos ursos polares (há uma briga entre dois desses animais, violenta e espetacular) e nas belas paisagens em CGI que se pode ver durante os passeios de zepelim.

O lançamento da Playarte inclui o filme, com qualidade boa de imagem (widescreen letterboxed) e áudio (Dolby Digital 5.1), acompanhado de dois featurettes de bastidores.

– A Bússola de Ouro (The Golden Compass, EUA/Reino Unido, 2007)
Direção: Chris Weitz
Elenco: Dakota Blue Richards, Nicole Kidman, Daniel Craig, Eva Green
Duração: 113 minutos

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