Caçador de Pipas, O

20/05/2008 | Categoria: Críticas

Melodrama abusa de clichês e usa visual de cartão postal na tentativa de lançar um olhar mais humano ao Oriente Médio

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

A onda esmagadora de anti-americanismo que tomou conta do planeta após o atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 pode ter sido indiferente para a parcela mais conservadora da população dos Estados Unidos, mas muita gente por lá sentiu o golpe. A indústria de entretenimento (leia-se Hollywood), que tradicionalmente emprega muitos estrangeiros e liberais, passou a se esforçar para mudar essa imagem negativa, investindo em muitos longas-metragens que lançam ao Oriente Médio um olhar mais humano e compreensivo. É dentro deste contexto que se encaixa “O Caçador de Pipas” (The Kite Runner, EUA, 2007), legítimo sucessor de “Babel”, do mexicano Alejandro González Iñárrritu, provavelmente o exemplo mais conhecido dentro do gênero.

A produção do filme está cercada de nomes respeitáveis. Para começar, trata-se de uma adaptação do best seller homônimo do afegão Khaled Hosseini. O livro narra, em tom épico e melodramático, a odisséia de uma criança atormentada pela culpa. Como pano de fundo, as radicais transformações que assolaram o país oriental, desde a invasão russa em 1979 até a dominação do regime radical do Talibã em meados dos anos 1990. O roteiro foi escrito pelo respeitado romancista David Benioff (que fez o texto do ótimo “A Última Noite”, de Spike Lee). Na direção está Marc Forster, conhecido pela versatilidade de quem faz comédia (“Mais Estranho que a Ficção”), suspense (“A Passagem”) e drama (“Em Busca da Terra do Nunca”) com a mesma desenvoltura. Em suma, um projeto que traz carimbada a palavra “Oscar” por todos os lados.

O resultado final é um “world movie” lacrimoso, um melodrama de visual suntuoso cuja narrativa mergulha em clichês sem nenhum pudor. Mais do que criar um estudo sobre a culpa – o grande tema da história, a força que move o personagem principal –, o filme está mais interessado em fazer uma tentativa quase desesperada de entender a cultura tribal que predomina no Oriente Médio, atribuindo grande importância na trama às rivalidades sangrentas entre etnias que estão na raiz da situação política caótica da região. Infelizmente, o mergulho empreendido na cultura afegão é raso e superficial. O olhar lançado ao país é o olhar de um turista, algo que fica explícito no visual de cartão postal, deveras semelhante ao trabalho de Sebastião Salgado, que tenta encontrar beleza e exotismo no meio da pobreza.

A história é narrada em flashback por Amir (Khalid Abdalla na fase adulta, Zekeria Ebrahimi quando criança). Filho de um rico comerciante local, ele vive em exílio na Califórnia desde menino, quando foi obrigado a fugir do Afeganistão após a invasão das tropas soviéticas, em 1979. Tendo que retornar por conta da doença do melhor amigo de seu pai (Homayoun Ershadi), Amir precisa encarar um velho trauma: o fato de ter presenciado uma agressão sexual contra o filho do caseiro (Ahmad Khan Mahmidzada) sem ter feito nada para ajudar. Marc Forster buscou inspiração nos grandes épicos de David Lean (especialmente “Dr. Jivago”), compondo uma verdadeira sinfonia visual, mas esquecendo de dar consistência e complexidade ao drama do protagonista.

Não há dúvida de que “O Caçador de Pipas” é bem feito. Forster se esmera na reconstituição das estradas poeirentas do Afeganistão (os sets foram construídos na China), e capricha nas transições elegantes entre as cenas, algo que já tinha destacado em “A Passagem”. Preste atenção, por exemplo, na mais longa elipse da obra, um corte seco e elegante que avança 10 anos na narrativa, entre a fuga do Afeganistão e o estabelecimento da família nos EUA. O plano escuro de um caminhão velho e sujo, avançando na escuridão rumo ao Paquistão, se transforma numa bela tomada do reluzente metrô californiano, brilhando à luz do sol, em um movimento contínuo e cheio de graça que enfatiza a longa passagem do tempo.

De que adianta a beleza, porém, quando ela não serve à narrativa? É o caso aqui. Infelizmente, o roteiro de David Benioff é esquemático, apoiando-se excessivamente em clichês, de forma que qualquer espectador com certa bagagem cinematográfica consegue antecipar com grande antecedência os rumos da história. Um exemplo: num filme banal, o único evento que poderia suceder um casamento é um funeral, e é exatamente o que acontece aqui. Além disso, a cena-chave do filme – um longo diálogo entre Amir e o velho amigo do pai (Shaun Toub) – acontece pouco depois da metade da projeção, e ainda que a qualidade do texto recitado pelos atores seja inquestionável, não é preciso ser cartomante ou adivinho para antecipar o final já a partir dali.

O melhor momento de “O Caçador de Pipas” está no primeiro ato, que se concentra nas memórias de infância de Amir. Premiado com os melhores desempenhos do elenco, oferecidos pelas duas crianças, o trecho contém incríveis seqüências de brigas de papagaio, um passatempo quase extinto que oferece uma metáfora visual brilhante para o clima de descontração e liberdade que um dia houve no Afeganistão. Além de fotografar com presteza as manobras complicadas dos brinquedos infantis, Marc Forster consegue capturar toda a excitação e o senso de competição das crianças, tanto na condução das pipas quanto na correria desabalada para encontrar o brinquedo perdedor, cuja linha é cortada (devo dizer que brinquei muito de pipa na minha infância, em Olinda, e portanto é possível que as cenas em questão tenham me tocado mais profundamente por razões pessoais).

Outro ponto elogiável está na decisão inteligente de preservar a maior parte dos diálogos no dialeto original falado no Afeganistão. Não há nenhuma tentativa canhestra de “americanizar” a trama, como aconteceu em outro título importante da mesma safra, “O Amor nos Tempos do Cólera”. Por outro lado, tal acerto não é suficiente para transformar “O Caçador de Pipas” em algo mais do que um melodrama correto, bem filmado, mas pouco inspirado. Ainda assim, este é o tipo de filme que tem um público cativo, embora não represente o cinema corajoso, arrojado e desafiador que se poderia esperar de uma das poucas produções ocidentais a tentar olhar o Oriente Médio sem preconceitos.

O DVD simples, da Paramount, traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Há documentário e comentário em áudio do diretor.

– O Caçador de Pipas (The Kite Runner, EUA, 2007)
Direção: Marc Forster
Elenco: Khalid Abdalla, Atossa Leoni, Shaun Toub, Homayoun Ershadi
Duração: 122 minutos

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