Caçador, O

14/08/2010 | Categoria: Críticas

Estréia de diretor sul-coreano desafia convenções de gênero de forma surpreendente e sacode os filmes de serial killers de cabeça para baixo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Qual misterioso ingrediente existe na água bebida pelos cineastas oriundos da Coréia do Sul? Sim, só pode ser essa a explicação para a subversão em massa dos filmes de gênero promovida pelos diretores de cinema deste país asiáticos. Afinal de contas, não se trata de apenas um ou dois profissionais usando essa técnica para fazer ótimos filmes que usam todo o repertório de códigos e convenções de gênero fílmico para embaralhar a cabeça do espectador e deixá-lo completamente à deriva diante do filme, sem saber o que esperar da próxima cena. “O Caçador” (Chugyeogja, Coréia do Sul, 2008) faz isso de maneira brilhante, sacudindo os filmes de serial killers de cabeça para baixo.

De fato, há toda uma geração de bons cineastas em ação na Coréia do Sul que milita no chamado cinema de gênero. Os mais conhecidos e talentosos são Park Chan-Wook (“Oldboy”) e Bong Joon-Ho (“O Hospedeiro”), mas existe outro tanto possuidor do mesmo talento e da mesma disposição para quebrar regras de narrativa clássica. “O Caçador” é a estréia cinematográfica de Na Hong-Jin, mas nem de longe parece uma estréia. O filme exibe a segurança e a confiança de um diretor veterano, ao manipular deliberadamente todo um vasto repertório de códigos narrativos relacionados ao gênero em que se inscreve e subvertê-los um a um, direcionando com maestria as reações da platéia até levá-la a um estado de absoluta perplexidade. A partir de certo ponto do filme, o espectador simplesmente não sabe mais o que esperar dele.

O herói de “O Caçador”, por exemplo, está longe de merecer essa classificação. Joong-Ho (Kim Yun-Seok) é um ex-policial e cafetão que explora e humilha garotas jovens de origem humilde, chegando ao ponto de mandar uma delas, mãe de uma criança que está ardendo de febre, atender a um misterioso cliente no meio da noite. Meio sem querer, Joong-Ho acaba relacionando este cliente ao sumiço de duas outras prostitutas, que ele pensa terem sido revendidas para outro cafetão após a intermediação desse cliente não-identificado. O que ele não sabe é que o nada afável Young-Min (Ha Jung-woo) é, na verdade, um assassino em série que mata usando um martelo e enterra os corpos no jardim de uma mansão encravada num bairro chique de Seul, pontuado por ladeiras e escadarias íngremes.

OK, esta sinopse já dá uma boa idéia do filme que você verá: um cafetão investigando um assassino que tem em mãos uma prostituta. A dança da morte que se estabelece entre três personagens tão incomuns já seria, num filme comum, uma sacudidela suficiente no sistema de convenções de um filme policial – afinal, para acionar a empatia da platéia, a lógica narrativa manda que os personagens tenham qualidades humanas que os tornem simpáticos, algo que Joong-Ho está longe de ser. Acontece que “O Caçador” está bem distante de ser um filme comum, e o que se segue é um desfile de inúmeras convenções do filme de serial killer, que Na Hong-Jin faz questão de exibir para em seguida destruir, ampliando a cada nova cena o ponto de interrogação que se instala na cabeça do espectador.

Ainda no primeiro ato, por exemplo, perseguidor e assassino se encontram, sem que o primeiro tenha a mínima idéia de que está diante do segundo. Esta longa seqüência, um primor de suspense construído com sutileza, senso impecável de modulação do tempo fílmico, realismo (quando eles começam a correr, observe como ficam ofegantes) e humor negro, deixaria Hitchcock orgulhoso. Além disso, é um dos momentos em que o desafio aberto às convenções de gênero faz a platéia reagir com desconfiança. Num filme normal de serial killer, o criminoso e o detetive só se encontrariam no final. E essa é só uma das inúmeras guinadas surpreendentes que a narrativa dá ao longo do caminho, deixando o espectador mais ou menos do mesmo jeito que o cafetão metido a detetive, em certo momento da trama: parado no meio da chuva, sem saber para que lado ir.

Esse desafio às expectativas, obviamente, é uma das maiores qualidade de “O Caçador”. Numa época em que os roteiros são formatados como se seguissem linearmente os ensinamentos de algum manual de narrativa (boa parte deles seguem mesmo), um longa-metragem de enredo tão surpreendente acaba soando como uma lufada de ar fresco. Além disso, o novato Na Hong-Jin se mostra igualmente habilidoso nos aspectos técnicos. Fotografia e direção de arte, por exemplo, se casam magistralmente para criar uma atmosfera claustrofóbica, usando a iluminação artificial e a geografia urbana das ruas e corredores apertados para ampliar a sensação de desconforto da platéia.

O desenho de som reforça com criatividade o senso de atividade urbana permanente, a representação gráfica da violência equilibra-se perfeitamente com o clima funesto, e a montagem usa a câmera lenta numa seqüência-chave para conseguir um efeito arrasador de angústia e desorientação. Para completar, as atuações de todo o elenco beiram a perfeição, com destaque absoluto para o genial Kim Yun-Seok, que na pele do cafetão desesperado consegue ser histericamente engraçado e terrivelmente ameaçador, tudo ao mesmo tempo.

De qualquer forma, não deixa de ser essencial reafirmar a idéia de que a desconstrução crítica do filme de gênero é um elo de ligação fundamental entre os diretores sul-coreanos contemporâneos, o que faz da cinematografia do país asiático uma das mais interessantes da atualidade, para quem gosta de cinema popular. Na Hong-Jin demonstra ser um diretor do mesmo calibre de Park Chan-Wook e Bong Joon-Ho, que vêm renovando gêneros como o thriller policial e o filme de monstros de maneira brilhante e original. Além disso, o trio ainda compartilha de outra característica: a capacidade de criar finais surpreendentes, originais e impactantes, que permanecem na memória muito tempo depois que o filme acaba. Muito, muito bom.

– O Caçador (Chugyeogja, Coréia do Sul, 2008)
Direção: Na Hong-Jin
Elenco: Kim Yun-Seok, Ha Jung-Woo, Seo Yeong-Hie, Jun In-Gi, Park Hyo-Ju
Duração: 125 minutos

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