Caçadores de Mentes

09/11/2005 | Categoria: Críticas

Perseguição a serial killer em ilha deserta é repleta de clichês e bons momentos apenas ocasionais

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★½☆☆☆

Um hiato de dois anos entre as gravações de um filme e seu lançamento nos cinemas costuma ser mau sinal, mesmo que o projeto em questão seja promissor. Em geral, qualquer obra submetida a mudanças durante tanto tempo acaba se tornando um filme irregular e problemático. A tese se confirma em “Caçadores de Mentes” (Mindhunters, EUA, 2004), peripécia cinematográfica cometida pelo fraco cineasta Renny Harlin durante o primeiro semestre de 2002 que só viu a luz dos cinemas em abril de 2004 (e só apareceu em DVD no segundo semestre do ano seguinte).

“Caçadores de Mentes” é um filme de serial killer destinado ao público jovem. A grosso modo, ele poderia ser descrito como uma versão juvenil do já clássico filme de Jonathan Demme, “O Silêncio dos Inocentes”, só que tomando emprestada a premissa central de um conhecido romance de Agatha Christie, “O Caso dos Dez Negrinhos”. Este último, por sua vez, já havia rendido um bom thriller em 2003, chamado “Identidade”. O longa-metragem de Renny Harlin é inferior, embora tenha um ou outro bom momento ocasional.

O filme abre com um prólogo que abusa de clichês. Dois agentes novatos do FBI, Sara (Kathryn Morris) e JD (Christian Slater), estão fazendo buscas em casas abandonadas para encontrar um assassino de garotas. Eles o acham, entram em confronto, são baleados – e então descobrimos que tudo não passava de um teste comandado pelo veterano Jake Harris (Val Kilmer). Ele está treinando uma turma de sete novos agentes.

O teste final da turma vai se passar em uma ilha deserta, local de testes da Marinha, onde deverão capturar um serial killer fictício (se você não havia feito a conexão com “O Silêncio dos Inocentes” até aqui, tente lembrar da profissão da personagem de Jodie Foster e da tarefa que lhe é imputada). No local, eles descobrem que existe um assassino de verdade eliminando integrantes do grupo. O teste então vira, para os futuros agentes, uma investigação frenética e uma tentativa desesperada de se manterem vivos.

O maior acerto de “Caçadores de Mentes” é a locação da ilha. O lugar funciona como uma pequena cidade, com hotel, escola, lanchonetes e postos de gasolina, tudo de verdade. Só que é habitado por manequins, devidamente vestidos como humanos, o que dá à ilha uma sensação macabra de isolamento e morte. Outra boa idéia, resultando na melhor cena do filme, é a eliminação do primeiro integrante do grupo. A cena é realmente surpreendente, não apenas pela maneira como acontece, mas sobretudo pela identidade do morto.

Infelizmente, as virtudes da película não vão muito além disso. As armadilhas montadas pelo assassino são engenhosas, mas extremamente implausíveis. Além disso, os problemas de roteiro são incontáveis, o que gera um grande número de furos e situações inexplicáveis. Ao deixar claro que o assassino é um dos integrantes do grupo, por exemplo, o filme cria uma dificuldade para ele, que é arranjar tempo para ficar sozinho e montar as armadilhas (de fato, ele tem a primeira noite e um momento de desmaio coletivo para fazer isso, mas certamente esse intervalo não seria suficiente para tantos e tão engenhosos golpes).

Do ponto de vista do desenvolvimento de personagens, a psicologia é rasa e simplista demais, ao contrário do que acontecia, por exemplo, em “O Silêncio dos Inocentes”. Levando em consideração que os sete agentes são descritos como a elite de uma turma especializada em montar perfis psicológicos de criminosos, isso é um tremendo furo. A certo ponto, o grupo praticamente condena um dos integrantes porque ele teve uma irmã assassinada brutalmente. Esse é um dos piores clichês de filmes que envolvem psicopatas de identidade desconhecida, uma besteira que nenhum verdadeiro agente engoliria.

É possível que o maior problema tenha sido criado pelo verdadeiro comitê de roteiristas contratados para burilar a trama. Nada menos do que cinco pessoas estiveram envolvidas com o texto, em momentos diferentes. O resultado é que o filme se torna uma trama burocrática e artificial, saltando de clichê em clichê (o que inclui, obviamente, um par de reviravoltas no final) sem jamais passar a impressão de que a situação poderia estar de fato ocorrendo na vida real.

Apenas para efeito de comparação, um outro thriller de suspense jovem lançado na mesma época, “Jogos Mortais”, também trabalhava a ação de um criminoso de identidade desconhecida que montava verdadeiras armadilhas para suas vítimas. Os dois longas-metragens compartilham o visual escuro e decrépito (diretamente importado de filmes como “Seven”), a trilha sonora barulhenta e a edição cheia de cortes bruscos. A diferença é que “Jogos Mortais” tinha muita tensão, resultado de um roteiro mais bem-cuidado. Uma lição a ser aprendida pelos produtores de “Caçadores de Mentes”.

O DVD contém o filme no enquadramento original (widescreen anamórfico 1.85:1) e com som de boa qualidade (Dolby Digital 5.1). Entre os extras, um comentário em áudio do diretor e três featurettes, somando 14 minutos de bastidores.

– Caçadores de Mentes (Mindhunters, EUA, 2004)
Direção: Renny Harlin
Elenco: LL Cool J, Val Kilmer, Christian Slater, Patricia Velazquez
Duração: minutos

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