Caché

11/12/2006 | Categoria: Críticas

Michael Haneke provoca sensação constante de desorientação no espectador em thriller subversivo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

A primeira cena de “Caché” (França/Áustria/Alemanha/Itália, 2005) ilustra bem o aspecto do arrojado filme de Michael Haneke que mais chama a atenção da platéia. Trata-se de um longo plano estático de uma residência de classe alta, mostrada à distância, durante cinco minutos, sem cortes. Na metade da tomada, a imagem é congelada, rebobinada e depois avançada em alta velocidade, enquanto ouvimos duas pessoas que não aparecem na tela discutindo sobre ela. Só então descobrimos que não estamos vendo o filme em si, mas sim o filme dentro do filme – uma fita de vídeo que o casal de protagonistas de “Caché” assiste, na sua TV de plasma de alta definição.

O conteúdo da fita é tão prosaico e trivial quanto assustador, pelo menos para o casal George (Daniel Auteuil) e Anne Laurent (Juliette Binoche), burgueses cultos que vivem confortavelmente com o filho adolescente Pierrot (Lester Makedonsky). A casa mostrada na fita é o lugar onde eles vivem. O tape, deixado na porta da mansão dentro de uma sacola plástica, demonstra aos dois que alguém está vigiando a família (nesse sentido, o tema de “Caché” lembra um pouco o do alemão “Edukators”). Não há nenhuma pista de quem, como ou por que a vigilância está acontecendo. As fitas continuam a chegar regularmente, às vezes acompanhadas de desenhos infantis de aparência ameaçadora. Os acontecimentos perturbam severamente o tranqüilo, quase monótono, cotidiano da família.

Boa parte da tensão experimentada pela platéia ao assistir a “Caché” tem relação direta com o modo usado por Haneke para captar as imagens. O diretor austríaco filmou em vídeo digital de alta definição, dando preferência a planos estáticos, de meia distância. Além disso, utilizou a mesma técnica para registrar as imagens das fitas de vídeo gravadas pelo misterioso espião dos Laurent. Desse modo, todas as vezes que uma tomada dessas aparece na tela – e quem conhece a obra de Michael Haneke sabe que ele gosta muito desse tipo de tomada –, a platéia fica sem saber se a cena faz parte do filme ou se é o filme dentro do filme. Ou seja, a ação mostrada tanto pode ser o presente como o passado gravado pelo criminoso. A sensação de desorientação permanece durante toda a duração de “Caché” e é diretamente responsável pela atmosfera tensa que permeia todo o filme.

Provocar essa confusão na cabeça do espectador é claramente uma atitude intencional do diretor; a simples decisão de filmar o conteúdo das fitas da vigilância dos Laurent com a mesma tecnologia do resto do filme é um aspecto que diferencia imediatamente a obra de Haneke do cinema mainstream. Qualquer thriller de suspense que partisse da mesma idéia inicial – engenhosa e muito inteligente, tanto que Hollywood já fala em refilmá-la – com certeza faria diferente, criando “fitas” com aparência granulada que permitisse ao espectador diferenciar instantaneamente o que era o filme e o que era gravação do espião. Haneke, contudo, é conhecido por gostar de enredos abertos, que permitem várias linhas de interpretação e deixam inúmeras lacunas a serem preenchidas pelo espectador. Certamente ele não iria desperdiçar essa oportunidade de confundir, ao invés de explicar.

A estratégia, por si só, já pode levar a uma reflexão interessante a respeito da confusão entre ficção e realidade, entre a vida como ela é a as narrativas sobre essa mesma vida. Mas é bom não perder de vista a história que está sendo contada, pois há muito o que ruminar sobre ela. Á medida que o mistério vai sendo desfeito, por exemplo, começa-se a perceber que o misterioso espião parece conhecer bem o passado de George; talvez ele tenha um motivo pessoal para estar ameaçando os Laurent daquele modo. A narrativa segue então rumos inesperados, e oferece uma leitura crítica muito original e interessante sobre um tema que muito tem preocupado a classe média intelectual européia, de onde vêm a maior parte dos cineastas da região: a conflituosa e tumultuada relação entre os grupos raciais dominantes e as minorias étnicas oriundas de países colonizados por europeus.

Quem já visitou ou tem alguma familiaridade com os países do continente europeu vai compreender melhor essa tensão social que ressoa fortemente em “Caché”. A grosso modo, pode-se dizer que cada grande potência européia tem, dentro de si, uma população minoritária formada por descendentes ou imigrantes de países do Terceiro Mundo que foram colonizados por aquela nação específica. Na Inglaterra são os indianos e paquistaneses; na Alemanha, os turcos; na França, os argelinos, e assim por diante. Essas minorias funcionam em cada país como os negros no Brasil: vivem disfarçadamente segregados em classes sociais mais baixas e com menos escolaridade, vítimas de preconceito velado pelos brancos dominantes.

Uma das leituras possíveis para “Caché” é de que George seja uma alegoria para a França, pelo menos na maneira hesitante e confusa como se relaciona com seu passado. Do ponto de vista do thriller, vale ressaltar que Haneke o dirige com eficiência impecável, recorrendo a aspectos técnicos quase imperceptíveis para injetar tensão na trama. O diretor recusa o uso de música, compondo a banda sonora apenas com diálogos e sons ambientes. Dessa forma, ele dribla uma das principais funções da música nos filmes, que é preparar a platéia para o que vem a seguir.

Para entender o raciocínio, tome como exemplo um filme de terror. Se o volume da música começa a aumentar, instintivamente você espera tomar um susto – nesse caso, a trilha sonora antecipou algo que seria mostrando instantes depois. Mas “Caché” não tem música, e o espectador fica sem referências para antecipar aquilo que acontecerá a seguir. Isso faz com que, inconscientemente, comecemos a procurar esses dados dentro do código de imagens construído pelo próprio filme. Tendo completo domínio técnico do que acontece, Haneke nos nega essa antecipação; uma das principais referências possíveis – o uso de tecnologias diferentes para captar imagens do filme e das fitas gravadas pelo espião – é sistematicamente recusada pelo diretor. O resultado disso é tensão, pois jamais conseguimos prever o que vai acontecer a seguir.

O espectador que estiver procurando um thriller clássico sobre a busca a um criminoso de identidade desconhecida corre o risco de achar “Caché” decepcionante. O cineasta austríaco, como tradicionalmente faz, despreza as regras do gênero escolhido para subvertê-lo, desconstruí-lo e então remontá-lo segundo sua própria lógica. Isso fica evidente, em “Caché”, durante uma inesperada seqüência de violência gráfica que põe o filme ao lado de “Violência Gratuita” (1997) como um dos títulos mais perturbadores da filmografia de Haneke. Muito bom.

PS: Preste bastante atenção à última tomada do filme, mais um daqueles planos estáticos de meia distância que pode ser, ou não, uma fita. É possível que ele ajude, se bem observado, a esclarecer algumas perguntas que ficaram no ar.

O DVD da Califórnia Filmes não tem extras, mas tem boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1).

– Caché (França/Áustria/Alemanha/Itália, 2005)
Direção: Michael Haneke
Elenco: Daniel Auteuil, Juliette Binoche, Maurice Benachou, Annie Girardot
Duração: 117 minutos

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