Cada um Vive Como Quer

17/08/2006 | Categoria: Críticas

Magnífico estudo de personagem de Bob Rafelson tem diversas cenas memoráveis

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

A seqüência de abertura de “Cada um Vive Como Quer” (Five Easy Pieces, EUA, 1970) contém um truque cinematográfico imperceptível para muita gente. A cena resume o duro dia de trabalho de um operário num campo de petróleo, acompanhada de uma canção romântica cuja letra trata de dificuldades conjugais. Um espectador inteligente vai intuir que essa combinação está anunciando uma história sobre casamento em crise. É isso que Bob Rafelson, o diretor, quer que a gente pense. Na verdade, trata-se de uma das muitas armadilhas que esconde o magnífico estudo de personagem que o filme vai se tornar.

Quando o operário chega em casa, ao final dos créditos, a câmera o recebe dentro de casa. Ele abre a porta e, finalmente, a imagem revela, no canto esquerdo, uma vitrola funcionando. Aí está o truque: na verdade a canção não ilustra o tema do filme, apenas está sendo escutada por um personagem. A visão da vitrola derruba aquilo que estamos tentando intuir sobre o filme. Esse estilo traiçoeiro, que impossibilita a platéia de antecipar o que está por vir, é uma das marcas registradas de Rafelson, e uma das maiores qualidades do longa-metragem.

Roger Ebert, o maior crítico de cinema dos Estados Unidos, define o filme de Bob Rafelson como “o primeiro filme do estilo Sundance”. É uma excelente definição. Sim, estamos diante de um dos pioneiros dos pequenos e argutos dramas existenciais sobre gente comum, filmes que definem aquilo que o público chama de “cinema independente”. Em 1970 não se fazia filmes assim, que simplesmente recortavam uma fatia da vida de alguém e exibiam na tela. “Cada um Vive Como Quer” é um retrato impecável de um homem esmagado pelo peso de uma tradição familiar da qual deseja se livrar de qualquer maneira. Um homem que tenta se livrar de seu passado varrendo-o para baixo do tapete.

Este homem é Bob Dupea (Jack Nicholson). Ele trabalha como operário de um campo de petróleo, flexionando os músculos e se sujando de óleo durante oito horas por dia, bebendo cerveja e jogando boliche à noite. Dupea vive com Rayette (Karen Black), uma garçonete local que o venera como um deus. Rayette é simplória e intelectualmente limitada, mas possui um sorriso encantador e não se importa de dar duro todos os dias sem qualquer perspectiva de melhorar de vida. Ela só quer ser feliz com o homem que ama. Ocorre que Dupea não pode ser feliz; está sempre ocupado, tentando se livrar do passado. Por isso, não consegue se fixar em nada nem ninguém. Ele não pára de se mover de um interesse momentâneo a outro.

O filme acompanha um desses movimentos, quando Bob recebe a notícia de que o pai está doente, perto da morte, e é persuadido a ir visitá-lo em casa. Isso significa reencontrar toda a família, algo que ele vem evitando radicalmente há muitos anos. Para Dupea, a fonte da infelicidade de sua vida está lá, na velha casa de madeira pintada de branco construída na zona rural de Washington. Parte de “Cada um Vive Como Quer” é um road movie, e a outra parte é um filme sobre confrontos familiares que nunca se manifestam por meio de diálogos, mas sim através das ações dos personagens – todos ricos e interessantes, mesmo os menores, como a caroneira que reclama do lixo nas estradas americanas.

O filme tem um ritmo tranqüilo, um pouco melancólico, e não pende nunca para o melodrama. O visual simples, granulado e de tons terrosos, sublinha a sensação de que estamos vendo uma vida trivial, mas rica, se desenrolar diante de nossos olhos. Há um monte de grandes cenas: o momento totalmente inesperado em que Dupea toca piano num caminhão de mudanças (outro ótimo exemplo de como vamos conhecendo o personagem aos poucos, e não recebemos todas as informações sobre ele nos primeiros 10 minutos, como ocorre normalmente); um monólogo emocionante dele com o pai moribundo; o flerte com a cunhada, quando ele finalmente revela (a ela e a nós) quem realmente é.

A seqüência mais lembrada pelos espectadores é aquela em que Dupea confronta uma garçonete, numa lanchonete à beira de uma estrada. Por causa de uma mera porção extra de torradas, ele dirige à mulher – uma burocrata empedernida que segue as regras sem jamais pensar em quebrá-las – insultos inteligentes e vira, automaticamente, uma espécie de herói para todo mundo que algum dia já quis mandar os burocratas às favas. No entanto, provavelmente a cena mais inteligente, mais rica de significados e mais brilhante de todo o filme é a seqüência final, absolutamente imprevisível e até um pouco surreal. Ela encerra um filme genial, que possui como poucos uma capacidade inesgotável de surpreender.

O DVD nacional é da Columbia. Não há extras, e o filme comparece em duas versões, uma em cada lado do disco. A banda sonora é a mesma (Dolby Digital 2.0), mas a imagem está em dois formatos diferente: widescreen 1.85:1 anamórfica e fullscreen 4:3. Escolha a primeira e vá em frente.

– Cada um Vive Como Quer (Five Easy Pieces, EUA, 1970)
Direção: Bob Rafelson
Elenco: Jack Nicholson, Karen Black, Billy Green Bush, Fannie Flagg
Duração: 98 minutos

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