Cães de Aluguel

01/01/2004 | Categoria: Críticas

Estilo, diálogos afiados, violência exagerada e referência pop marcam estréia de Quentin Tarantino

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Os filmes do cineasta norte-americano mais influente da década de 1990 nunca deram público no Brasil. Essa é a única explicação para entender porque a trinca de películas produzidas por Quentin Tarantino demoraram tanto a chegar ao mercado nacional de DVDs. O pior é que “Pulp Fiction” e “Jackie Brown”, as duas obras mais paparicadas, foram lançadas em edições vagabundas, com imagens mutiladas e sem documentários suplementares. A estréia cinematográfica do diretor, “Cães de Aluguel” (Reservoir Dogs, EUA, 1992), aparece agora para desfazer essa injustiça, com uma edição bastante caprichada.

O mais interessante é que o filme está sendo lançado por uma distribuidora pequena, conhecida por lançar filmes com baixa qualidade de imagem. A Flashstar, porém, redime os pecados dessa vez. “Cães de Aluguel” tem a imagem com o corte original, em widescreen (as tarjas pretas que mantêm a imagem como planejada pelo diretor de fotografia), e uma trilha de áudio remasterizada espetacular, em DTS.

Os suplementos incluem 52 minutos de entrevistas, todas editadas em forma de mini-documentários dinâmicos (as melhores enfocam Tarantino, o produtor Lawrence Bender e o ator Tim Roth). Há ainda doze minutos de cenas cortadas. Todo o material tem legendas em português.

Nada disso valeria a pena, claro, se o filme não fosse bom. Pois “Cães de Aluguel” é muito mais do que simplesmente bom. Trata-se da estréia mais importante dos últimos anos (uma promessa até aqui plenamente satisfeita). O filme realiza uma síntese perfeita do que significa “cinema” para a geração Tarantino: um coquetel inusitado de influências díspares, que mistura filme de gânsgters, quadrinhos, seriados de TV, romances policiais baratos e filmes de arte clássicos.

À base de muito humor, violência estilizada e cultura pop, “Cães de Aluguel” exibe referências que vão das películas asiáticas de ação (a idéia do roteiro veio de uma delas) à câmera corajosa de Jean-Luc Godard, das comédias de detetive (pense na série “Pantera Cor-de-rosa”, de Blake Edwards) à violência crua de Sam Peckinpah, do tratamento realista do submundo do crime de Francis Ford Coppola aos estilizados e bem humorados faroestes italianos de Sergio Leone.

Muito já se escreveu sobre o racismo nos textos de Tarantino. É interessante perceber que, ao construir as falas dos personagens com gírias, o diretor realmente reproduz alguns desses estereótipos. Tarantino não tem medo de ser politicamente incorreto e seus personagens falam barbaridades que podem chocar os mais ingênuos.

Por outro lado, o uso generoso de músicas black na trilha sonora (elemento ampliado em “Pulp Fiction” e mais ainda em “Jackie Brown”, ambos com protagonistas negros) comprova que a maior característica do cineasta é beber das mais variadas fontes, sem fazer distinções qualitativas do tipo alta cultura/cultura de massa. Tarantino é capaz de jogar Truffaut e John Woo no liquidificador e transformar isso em filme.

Essa mistura de gêneros é um elemento fundamental para entender o cinema de Tarantino. Ele não passou por faculdades; a vasta cultura fílmica que possui veio dos tempos em que trabalhava como balconista de videolocadora. Dessa forma intuitiva, o diretor foi capaz de introduzir cultura pop com naturalidade inédita no cinema mainstream de Hollywood.

Ele deu início a um novo olhar sobre as vicissitudes urbanas dos EUA, um olhar capaz de tratar de temas sérios (violência urbana, tráfico de drogas) com humor e espírito crítico. Fez escola e influenciou dezenas de novatos. “Cães de Aluguel” é uma pérola fundamental para se entender o que aconteceu com o cinema ianque de ação, nos anos 90.

Sim, a trama: seis homens apelidados com nomes de cores (Pink, Orange, White, Blue, Blonde e Brown) são contratados por um mafioso para roubar uma joalheria. O plano dá errado por causa de um traidor no grupo. Essa história prosaica é contada à base de reviravoltas cronológicas inusitadas, conduzidas com pulso firme pelo diretor novato.

O roteiro é brilhante e os diálogos, deliciosos (repare, por exemplo, a seqüência de abertura numa lanchonete, em que os bandidos “lêem” os significados ocultos das músicas de Madonna). Tarantino diz, na entrevista, que “Cães de Aluguel” deveria estar na prateleira de comédias das locadoras. Errado. Deveria estar na seção de clássicos, isso sim.

– Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, EUA, 1992)
Direção: Quentin Tarantino
Elenco: Harvey Keitel, Tim Roth, Michael Madsen, Steve Buscemi
Duração: 120 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


2 comentários
Comente! »