Caiu do Céu

21/03/2006 | Categoria: Críticas

Danny Boyle dirige uma fábula infantil pós-moderna sobre um menino e um saco de dinheiro

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Aparentemente, a obra do cineasta inglês Danny Boyle é bastante diversificada, a ponto de os filmes que ele faz não parecerem guardar semelhanças temáticas entre si. No âmago, porém, eles compartilham de muita coisa em comum. A principal delas é a temática principal: a cobiça. Nesse sentido, “Caiu do Céu” (Millions, EUA/Inglaterra, 2004) é um legítimo representante da obra do diretor do cultuado “Trainspotting”. O filme é uma fábula infantil pós-moderna sobre um menino e um saco de dinheiro. Apresenta, com o visual ensolarado e hipercololorido que é parte fundamental dos filmes dele, um novo estudo do tema favorito de Boyle. A novidade é que a cobiça é vista através dos olhos de uma criança.

Do milionário e fracassado “A Praia” até o independente e claustrofóbico “Cova Rasa”, Boyle quase sempre se dedicou a analisar até onde pode ir o apego do ser humano ao dinheiro e aos bens materiais. O tom sempre variou bastante, do cinismo de “Transpotting” ao pessimismo de “Cova Rasa”, passando pela leveza de “Por Uma Vida Menos Ordinária”. Com o pequeno e singelo “Caiu do Céu”, chegou a hora de o diretor analisar a cobiça sob um ângulo otimista e redentor. Mas a cobiça só é o tema principal aparentemente, pois o verdadeiro foco é a perda de uma pessoa querida, um subtema que recebe alguns comentários sutis durante quase toda a duração do longa-metragem produzido em 2004, mas emerge com força no final.

O filme é narrado por um menino chamado Damian (Alex Etel). O rapazinho, junto com o irmão mais velho Anthony (Lewis McGibbons) e o pai Ronnie (James Nesbitt), acaba de se mudar para uma nova cidade. A família tenta superar a perda da matriarca. Damian ainda está numa faixa etária em que vê o mundo com pureza, sem o menor traço de maldade. Assim, quando uma sacola abarrotada de dinheiro cai em cima da casinha de papelão onde Damian passa as tardes, a atitude do garoto é dar tudo aos pobres. O problema, ele logo percebe, é que encontrar pobres na Inglaterra do início do século XXI não é algo muito fácil.

Danny Boyle filma tudo com o já conhecido estilo pop que o consagrou. A fotografia é esfuziante, ensolarada e hipercolorida, especialmente nas cenas de exteriores, que utilizam com abundância cores saturadas como amarelo e vermelho. Boyle é um estilista e deixa isso evidente ao utilizar grande quantidade de efeitos gráficos (quando as crianças se falam por celular, por exemplo, uma seta vai sendo desenhada na tela, com uma caneta-piloto, para mostrar ao público onde estão os dois meninos) e efeitos especiais bem colocados. Uma das melhores tomadas percorre a casa de Damian com a câmera apontado de baixo para cima, em um ângulo reto.

A grande sacada de Boyle é a construção do personagem de Damian. O menino é fascinado por santos católicos. Em seus devaneios diários, ele se vê conversando com São Pedro, São Nicolau e muitos outros. Todos os santos são apresentados na iconografia cristã que os brasileiros conhecem muito bem: auréolas, batas, sandálias de dedo. São José empurra um burrinho de madeira, Santa Gertrudes fuma cigarros com visível prazer (“no céu, tudo é permitido”). As conversas com os santos são a fonte principal do humor do longa-metragem. A cena em que São Pedro dá uma explicação particular para o milagre da multiplicação dos pães e peixes de Cristo é uma das melhores do filme.

Em uma visão apressada, pode parecer que a Danny Boyle filma com o foco mal ajustado, mas uma olhada mais atenta revela que ele sempre esteve interessado em dissecar o mecanismo pelo qual as pessoas enfrentam e superam o trauma da perda familiar. O pequeno Damian, sempre que “encontra” algum santo, pergunta pela mãe. O menino tem certeza de que a mão era uma santa – algo que bate perfeitamente com a visão de uma criança pequena sobre a própria genitora. Damian, aliás, é a pureza em pessoa. Seus planos para usar a bolada recém-adquirida variam entre o ingênuo e o pueril, sempre com a melhor das intenções.

Anthony, por outro lado, é mais crescido, mais cético e mais ambicioso. É ele quem convence Damian a não contar sobre a sacola de dinheiro para o pai; também evita que o pequeno entregue a grana para o primeiro sujeito pobre que encontrar. Sem querer, também cria um problema que complica ainda mais a já difícil situação: é que a bolada é formada por milhares de notas de libras esterlinas, e precisa ser gasta (ou trocada em bancos) dentro de três dias. Em 72 horas, a moeda inglesa será convertida para o Euro, o que deixará o dinheiro sem nenhum valor. Em outras palavras, os pirralhos precisam gastar tudo em três dias. Problemão, hein?

A verdade é que existe um lugar para “Caiu do Céu” na obra de Boyle, e ele é bastante incomum. O filme parece uma soma de “Cova Rasa” (toda a trama gira em torno de uma sacola de dinheiro disputada por grupos de pessoas) com “Por Uma Vida Mais Ordinária” (o tom leve e farsesco, e a mitologia/culpa cristã), justamente os dois filmes situados nos pólos opostos da obra do cineasta. A comparação permite ilustrar melhor o problema de “Caiu do Céu”: por trás da aparente despretensão, existe uma ambição – conciliar dois produtos aparentemente inconciliáveis – que não é pequena. O final, em clima onírico-infantil, expõe particularmente essa fragilidade. É um defeito, mas não atrapalha as virtudes dessa fábula.

O DVD brasileiro do filme é fraco. Foi lançado pela PlayArte e tem a imagem com enquadramento cortado nas laterais (1.33:1, tela cheia), além de trilha de áudio apenas regular (Dolby Digital 2.0). Não há extras no disco.

– Caiu do Céu (Millions, EUA/Inglaterra, 2004)
Direção: Danny Boyle
Elenco: Alex Etel, Lewis McGibbon, James Nesbitt, Daisy Donovan
Duração: 97 minutos

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