Caixa, A

28/06/2010 | Categoria: Críticas

Filme mais acessível de Richard Kelly volta a brincar com elementos bizarros e viagens no tempo, rendendo um thriller fantástico interessante, mas que não chega a empolgar

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

É difícil entender exatamente por que razão o cineasta Richard Kelly chega ao terceiro longa-metragem sem emplacar um único sucesso de público. Seus filmes têm tramas intrigantes, recheadas de elementos exóticos e imprevisíveis, são habitados por personagens que compartilham características de personalidade com largas porções do público (em teoria, deveriam provocar empatia facilmente), e visitam temas que costumam gerar grande interesse, como viagens no tempo. “A Caixa” (The Box, EUA, 2009) repete essas características e ganha, ainda, atores famosos e uma trama linear, o que torna este seu filme mais acessível.

Apesar disso, “A Caixa” se tornou um fracasso mediano de público e crítica, faturando apenas US$ 14 milhões, ou menos da metade do orçamento (US$ 30 milhões) necessário para realizá-lo. Tampouco a crítica recebeu o filme com elogios, embora tenha reservado ao longa-metragem uma recepção bem mais agradável do que o filme anterior dele, “Southland Tales” (2009), que ficou mais de três anos na geladeira depois de uma desastrosa passagem pelo Festival de Cannes.

De certa forma, foi uma recepção correta, já que o enredo rende um thriller interessante, mas que não chega a empolgar. “A Caixa” parte de uma premissa fantástica, retirada de um velho conto do especialista em roteiros bizarros Richard Matheson, e que já havia aparecido num antigo episódio do seriado “Além da Imaginação”: um misterioso executivo (Frank Langella) surge de repente e sem aviso na vida de um jovem casal de classe média com dificuldades financeiras (Cameron Diaz e James Marsden), munido de uma caixa com um proeminente botão vermelho. Ele avisa ao casal que trata-se de uma experiência científica. Se eles apertarem o botão, ganharão um milhão de dólares instantaneamente, mas alguma pessoa que eles não conhecem morrerá por causa disso.

Baseado nessa premissa fantástica, Kelly construiu um roteiro original, onde manteve o tema central – um estudo da moral humana – e encontrou abrigo para os tradicionais elementos exóticos, misturando tecnologia, espiritualismo e viagens no tempo. Este último é elemento fortemente presente em toda a obra de Kelly, especialmente em “Southland Tales” e na estréia cult do diretor, “Donnie Darko” (2001), ainda seu melhor e mais famoso filme.

No que se refere à maneira de filmar, “A Caixa” consiste num perfeito exemplo do estilo do jovem diretor nascido em 1975, e que mescla elementos clássicos e contemporâneos. Sua câmera não pára de se mover quase nunca, mas evita o chacoalhar incômodo que vem se tornando cada vez mais popular; está sempre numa Steadicam ou em trilhos. Kelly dá grande destaque à música pop em suas trilhas sonoras – neste caso, ao invés de escolher um punhado de clássicos dos anos 1980, ele contou com a colaboração dos integrantes da banda Arcade Fire – e exibe uma obsessão cristalina por composições visuais perfeitamente simétricas.

Esta última característica é central para uma análise do estilo de Kelly. A maior parte dos diretores evita esse tipo de composição pictórica porque elas podem se tornar facilmente entediantes ou achatadas, sem profundidade, mas nos filmes dele isso não ocorre. Entre os raros diretores com o mesmo gosto, se destacam os irmãos Joel e Ethan Coen (sobretudo em seus primeiros filmes) e principalmente Stanley Kubrick, com quem Richard Kelly já foi comparado – obviamente, num rasgo de exagero megalômano dos críticos que o fizeram.

Tudo isso serve a uma história potencialmente interessante. Nesse sentido, não apenas a premissa é digna de atenção, mas o desenrolar da trama mantém o interesse, levando o espectador através de uma rede de pequenas coincidências e elementos bizarros – como a ausência de metade do rosto do personagem de Frank Langella, cuja caracterização cavernosa dá arrepios, e a simétrica ausência dos dedos dos pés de Cameron Diaz – que vão, pouco a pouco, se acumulando e convergindo para um final sólido que arremata muitas das pontas soltas. Se é verdade que a história de “A Caixa” poderia ter rendido um pequeno clássico do fantástico e não o fez, também é verdade que o longa-metragem prende a atenção e carrega a imaginação do espectador por muitos minutos após a sessão. Vale a pena.

O DVD lançado pela Imagem Filmes, simples, não apresenta extras. O filme aparece com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– A Caixa (The Box, EUA, 2009)
Direção: Richard Kelly
Elenco: James Marsden, Cameron Diaz, Frank Langella, Gillian Jacobs
Duração: 119 minutos

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