Caixeiro-Viajante

02/07/2008 | Categoria: Críticas

Documentário dos irmãos Maysles é um dos mais dramáticos e duros retratos da banda podre do sonho americano

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Marco fundamental do estilo chamado “cinema-verdade”, em que os documentaristas procuram registrar uma realidade interferindo nela o mínimo possível, “Caixeiro-Viajante” (Salesmen, EUA, 1968) correu risco de não ser exibido em salas comerciais. Na época em que foi concebido, nos Estados Unidos, nem mesmo os cinemas alternativas se atreviam a exibir documentários. Havia um forte tabu sobre o tema. Os irmãos Albert e David Maysles, responsáveis pela direção, tiveram que alugar uma sala de bairro em Nova York para poder passar o filme. Graças à reação entusiástica da crítica local, esse circuito microscópico pôde ser expandido um pouco – o suficiente para que o filme pudesse construir a reputação de um dos mais dramáticos e duros retratos da banda podre do sonho americano.

Até que se atreveram a produzir “Caixeiro-Viajante”, os irmãos Maysles se dedicavam a fazer documentários em curta-metragem, em geral enfocando ídolos da juventude. Eles haviam documentado a turnê de estréia dos Beatles nos EUA, bem como a fase mais polêmica da carreira de Bob Dylan. Decidiram, ao conceber a idéia de “Caixeiro-Viajante”, dar um passo ambicioso e produzir um longa-metragem. A idéia parecia um tremendo tiro no pé. Via de regra, as platéias norte-americanas não aceitavam bem a idéia de assistir a documentários em salas de projeção. O gênero até encontrava espaço na televisão, mas não nos cinemas. A condução do projeto exigiu tenacidade de Albert e David, dois jovens intelectuais que, ao contrário da maioria dos estudantes de cinema que criariam a bem-sucedida geração New Hollywood (Coppola, Scorsese, Spielberg), não tinham nenhum interesse em fazer ficção.

O conceito foi bem simples, e consistiu em acompanhar o cotidiano de quatro amigos, todos vendedores de Bíblias, durante dois meses de trabalho. As câmeras e gravadores portáteis que começavam a chegar ao mercado, na época, facilitaram o trabalho, permitindo que a equipe fosse composta apenas pelos dois irmãos – Albert cuidava da imagem, e David do som. Os dois foram a campo sem um roteiro pré-estabelecido. A idéia era simplesmente acompanhar as visitas dos caixeiros-viajantes aos clientes, em geral famílias religiosas sem muitas posses, que haviam deixado os nomes na Igreja para a qual o quarteto trabalhava. Os diretores sabiam que haveria elementos de tensão e humor durante as tentativas de vender Bíblias. Haveria, portanto, drama – o estofo básico de qualquer grande filme. Eles foram capazes de documentar um retrato seco e pungente deste drama.

O resultado alcançado está entre os grandes momentos do cinema de documentário. Na busca particular pelas benesses do sonho americano, os caixeiros-viajantes trafegam no limite do desespero. Eles precisam vender para poder sobreviver. Precisam convencer pessoas humildes a comprar coisas caras que elas não precisam. Para isso, usam de todas as artimanhas possíveis. Às vezes são afáveis e bem-humorados, outras vezes agressivos e insistentes. Eles elogiam, sorriem, escorregam daqui, mentem um tiquinho dali. Estão sempre sob pressão para atingir uma cota alta de vendas – o filme documenta uma reunião de caixeiros, em que os chefes do negócio põe a faca no pescoço dos vendedores. Aos poucos, o filme fecha o foco em um deles: Paul Brennen, um velho descendente de irlandeses que está à beira de um colapso nervoso. Já faz um longo tempo que ele não consegue atingir a meta de vendas, e o mau-humor já tomou conta. O desabafo cheio de rancor que ele faz diante das câmeras, dentro do carro, é um dos muitos grandes momentos do filme.

“Caixeiro-Viajante” pôs os nomes de Albert e David Maysles no panteão dos grandes diretores norte-americanos. Logo em seguida, eles registraram a polêmica turnê de 1969 dos Rolling Stones pelos EUA, criando outro longa-metragem antológico (“Gimme Shelter”, em que as câmeras capturaram a morte de um fã durante o lendário concerto em Altamont), e consolidaram uma reputação de cineastas talentosos e de vanguarda. São, além disso, profundamente éticos, como prova a própria carreira, em que jamais se desviaram do propósito de registrar fatos sem interferir neles. A decisão de pôr o nome da montadora Charlotte Zwerin ao lado dos deles próprios, como co-diretora de “Caixeiro-Viajante”, também comprova essa conduta moral impecável. Coisa rara no meio cinematográfico, aliás.

A bem cuidada edição nacional, da Videofilmes, agrega alguns extras valiosos ao filme, que tem ótima qualidade de imagem (1.33:1, tela cheia) e som (Dolby Digital 1.0). Há comentário em áudio de Albert Maysles, uma entrevista concedida à TV da época com os dois diretores (52 minutos) e outra, em vídeo, feita em Nova York pelo cineasta João Moreira Salles com Albert (52 minutos), ambas muito detalhadas e com legendas em português. Um libreto com textos introdutórios acompanha a embalagem elegante.

– Caixeiro-Viajante (Salesmen, EUA, 1968)
Direção: Albert e David Maysles e Charlotte Zwerin
Documentário
Duração: 91 minutos

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