California Dreaming

28/06/2007 | Categoria: Críticas

Filme inacabado de Cristian Nemescu é pitoresco e delicioso panorama da vida no interior da Romênia contemporânea

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Em 1999, enquanto a OTAN bombardeava a antiga Iugoslávia, um burocrata provocou um episódio curioso na vizinha Romênia. O homem, chefe de uma estação de trens num pequeno vilarejo romeno, impediu a passagem de um trem contendo equipamento militar que seria usado na guerra de Kosovo. O carregamento secreto, estrategicamente importante, estava autorizado pelo governo do país, mas viajava sem documentação oficial. Ficou parado no meio do nada, por dias a fio, enquanto generais e ministros se descabelavam, sem conseguir convencer o chefe da estação a liberar a passagem. O incidente real, que não interferiu nos rumos da guerra, ganhou tintas ficcionais e se transformou em “California Dreamin’” (Nesfarsit, Romênia, 2007), um pitoresco e delicioso panorama da vida no interior da Romênia contemporânea.

O longa-metragem, legítimo representante da produção dos jovens diretores romenos que chama a atenção dos cinéfilos com boas participações no Festival de Cannes, acabaria se transformando no canto de cisne do jovem cineasta Cristian Nemescu. Enquanto trabalhava na montagem, Nemescu faleceu em um acidente de carro, em 2006. Tinha só 26 anos. Pouco antes de morrer, contudo, tinha concluído o primeiro corte do trabalho. Sentindo que tinham um belo material em mãos, os produtores inscreveram o filme inacabado em Cannes, onde ele venceu o prêmio principal da mostra paralela Um Certain Regard e atraiu os olhares d o mundo para si. Vale agradecer à equipe de produção pela ousadia, e aos jurados de Cannes pela coragem de premiar um trabalho incompleto. “California Dreamin’” é excelente, e não merecia mesmo ser enterrado junto com o diretor.

Usando humor com um toque levemente surreal, e muita sensibilidade humanista para captar e levar à tela os diferentes dramas de cada personagem, Nemescu montou um painel leve e diversificado sobre uma infinidade de temas, tentando não se concentrar em nada específico. O filme inclui comentários sobre muitos assuntos, indo da escala íntima (a difícil relação entre pais e filhos, o amor adolescente, a vida longe dos centros culturais do mundo) aos temas mais panorâmicos (a globalização, a ambivalência dos europeus em relação aos EUA, a burocracia/corrupção em países do Terceiro Mundo, os traumas da II Guerra Mundial nos territórios do Leste europeu).

O maior mérito do diretor é ligar tantos temas distintos com naturalidade, de maneira bem despojada. Nemescu faz isso dando pouca ou nenhuma atenção aos temas em si, mas se concentrando nos desejos e impulsos de cada personagem. O embate entre o impaciente capitão Jones (Armand Assante, excelente), norte-americano que chefia o comboio, e o teimoso Doiaru (Razvan Vasilescu, excepcional), chefe da estação, simboliza perfeitamente os ressentimentos que os habitantes locais nutrem pelos Estados Unidos. Uma narrativa paralela sobre a infância de Doiaru na II Guerra Mundial complementa perfeitamente este tópico (“Esperamos tanto que vocês chegassem antes dos russos, e vocês só chegam agora!”), mas o filme não força a barra para se transformar em libelo político. Se foco é firmemente humanista.

A situação acima carrega ainda uma ironia: é que Doiaru, viúvo, possui uma filha adolescente chamada Monica (Maria Dinulescu, linda e talentosa). Como toda garota de sua idade, ela despreza o pai e é viciada em cultura pop, apesar de não falar inglês. Monica vê na chegada do trem a possibilidade excitante de escapar da rotina modorrenta e conhecer um mundo totalmente novo. Ela não é a única; todas as jovens de lugar estão excitadas pela presença de soldados norte-americanos (o que deixa os rapazes locais totalmente enciumados). Os trabalhadores da fábrica local enxergam na ocasião a oportunidade de fazer uma greve com conseqüências sérias, e até o prefeito da cidadezinha imagina uma maneira de aproveitar o acontecimento inusitado em favor do lugar. O que ninguém percebe é que o capitão só pensa em uma maneira de sair logo do meio do nada.

Há um toque surreal na narrativa, que tem alguma relação com o trabalho do bósnio Emir Kusturica (“Undergound” – Mentiras de Guerra”), mas Nemescu mantém os pés firmemente fincados no chão, sem delírios oníricos de nenhuma espécie. O olhar que dirige ao povo romeno é vívido, colorido e carinhoso, mas sem qualquer traço de comiseração, algo que fica óbvio a partir do próprio retrato do turrão Doiaru, um protagonista incomum. Se a reação natural que ele desperta na platéia é de simpatia, pois afinal encarna um Davi lutando contra Golias, o roteiro (do próprio diretor) trata de deixar este retrato mais complexo, enfatizando o lado ruim do chefe da estação – a situação econômica precária do vilarejo é resultado direto das práticas corruptas do funcionário estatal, um sujeito preguiçoso e egoísta.

A estética não opta pelo minimalismo de “A Morte do Sr. Lazarescu” (2005), mas é clara a predileção por tomadas longas, editadas fora da regra geral do cinema comercial – ao invés do tradicional plano/contraplano, a câmera tem a curiosidade de um diretor estreante, freqüentemente acompanhando diálogos como um espectador assiste a uma partida de tênis: olhando de um lado a outro, sem interrupções. A técnica se encaixa bem na narrativa porque mantém um fluxo constante de informação e, aliada ao humor sutil e certeiro (maravilhoso o trecho musical com o Drácula cafetão, e também a sensacional seqüência da festa de aniversário da aldeia), garante que a narrativa jamais se torne confusa ou enfadonha. Por fim, a conclusão parece um tanto abrupta, mas funciona muito bem no sentido de dar à presença dos norte-americanos naquela região distante um sentido histórico apropriado, como uma cutucada político-ideológica de enorme sutileza. Um belo filme.

– California Dreamin’ (Nesfarsit, Romênia, 2007)
Direção: Cristian Nemescu
Elenco: Armand Assante, Razvan Vasilescu, Maria Dinulescu, Jamie Elman
Duração: 155 minutos

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