Caminho Sem Volta

14/03/2008 | Categoria: Críticas

Segundo trabalho de James Gray é um belo retrato em negativo de “Os Donos da Noite”, que ele faria sete anos depois

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

James Gray é uma personalidade rara na indústria cinematográfica norte-americana. Graças ao sucesso de uma estréia independente de admirável consistência (“Fuga para Odessa”, de 1994), ele conseguiu prestígio suficiente para desenvolver carreira como cineasta. Apesar disso, jamais aceitou servir como diretor de aluguel, daqueles que conduzem projetos impessoais para grandes estúdios. Todos os filmes que carregam a assinatura de James Gray saem da cabeça dele, têm roteiro escrito por ele e são produzidos exatamente da maneira que deseja. Ninguém – nem mesmo medalhões como Martin Scorsese – trabalha por lá com tamanho grau de independência e liberdade. Só por tal atitude, está aí um sujeito cuja obra merece uma espiada atenta.

A postura autoral, contudo, tem seu preço. Como nunca se sujeitou a criar roteiros de índole mais comercial, Gray precisa penar muito para conseguir o financiamento necessário para desenvolver projetos. Daí ter desenvolvido uma carreira bissexta (fez apenas três longas-metragens em 14 anos) e ser obrigado a dar aulas em universidades para se sustentar. Talvez ele nem mesmo tivesse dado continuidade à carreira de diretor, se não houvesse construído uma parceria frutífera com dois atores jovens, talentosos e queridos do público. Afinal de contas, qual o estúdio que tem interesse em recusar produções com nomes como Mark Whalberg e Joaquin Phoenix nos letreiros? De quebra, esses nomes vêm acompanhados dos de gente como James Caan e de três atrizes ganhadoras do Oscar (Charlize Theron, Faye Dunaway e Ellen Burstyn, sendo que Gray foi o primeiro cineasta a notar a semelhança física entre as duas veteranas e escalá-las como irmãs, o que se mostra uma grande sacada).

O elenco espetacular é apenas um dos atributos convincentes de “Caminho Sem Volta” (The Yards, EUA, 2000). O segundo trabalho de James Gray reelabora o tema fundamental da estréia do diretor – indivíduos experimentando conflitos entre valores familiares e morais – em um drama masculino, travestido de thriller policial. O resultado lembra um estranho cruzamento entre Scorsese (a ambientação no submundo criminal de Nova York), Visconti (o tema principal do diretor também é um dos prediletos do italiano) e Kieslowski (o polonês gostava de mostrar personagens cujas posições éticas são desafiadas constantemente pelas circunstancias). Trata-se de um belo filme, uma espécie de ensaio para o brilhante “Os Donos da Noite” (2007), terceiro trabalho de Gray, cuja história é um retrato em negativo de “Caminho Sem Volta”.

O personagem principal é Leo (Whalberg). Na primeira cena, ele viaja no metrô. Leo fita um policial de modo hesitante, com medo. O meio de transporte e o comportamento são dois índices daquilo que está por vir. Taciturno, ele está saindo da prisão e voltando para casa. Aos poucos, ficamos sabendo que passou alguns anos preso por roubar carros. Ficou de boca fechada e protegeu o amigo de gangue Willie (Phoenix), que agora trabalha confortavelmente como braço direito do tio Frank (Caan), dono de uma empresa que franqueia linhas de metrô. Willie sabe que tem com Leo uma dívida de gratidão, e está disposto a compensá-lo arranjando-lhe um emprego parecido. Além de tudo, eles agora são quase parentes, já que Willie namora uma prima de Leo (Charlize Theron). Os dois são como irmãos.

Sem pressa, e narrando as nuances da história com segurança e economia de diálogos, Gray arma os tabuleiros na mesa para um jogo intrincado. A estrutura é compacta, firme, sem cenas sobrando e nenhuma gordura narrativa. Gray equilibra perfeitamente a trama e os personagens, dando o mesmo peso aos dois elementos narrativos e não deixando que nenhum deles se sobreponha ao outro. Além disso, a composição dos dois protagonistas é brilhante. São dois personagens de éticas flutuantes, que dançam conforme a música. Não parecem mafiosos típicos de Hollywood. Sim, ambos são violentos quando é preciso, mas têm dor de consciência e sofrem de ciúmes. Amam, se arrependem e hesitam. Não há nenhum traço de maniqueísmo em nenhum dos dois. São pessoas, não personagens.

Se uma pontinha de ressentimento paira como uma sombra sobre a amizade entre os quase-irmãos desde o primeiro momento, ela vai ser posta à prova em definitivo depois de um evento inesperado e sangrento que envolve os dois. A cada lance da trama, um novo dilema de natureza moral se estabelece. O que se sucede é uma espécie de tragédia grega ambientada no mundo contemporâneo. O diretor cria seqüências cinematográficas da melhor qualidade, carregadas de tensão e silêncio, como a briga nos trilhos do metrô e a invasão de Leo a um hospital. A atmosfera claustrofóbica é realçada pelos ótimos desempenhos individuais do elenco – Whalberg nunca esteve tão contido e melancólico, e Theron tem uma participação pequena mas fundamental. Grande filme.

O DVD nacional carrega o selo da Imagem Filmes, e a qualidade não é das melhores. O maior problema está na mutilação do enquadramento original (tela cheia, ou 1.33:1). O áudio é OK (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem um pequeno making of e comentário em áudio do diretor.

– Caminho Sem Volta (The Yards, EUA, 2000)
Direção: James Gray
Elenco: Mark Whalberg, Joaquin Phoenix, Charlize Theron, James Caan
Duração: 115 minutos

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