Camisa de Força

02/03/2006 | Categoria: Críticas

Filme de roteiro irregular combina temas difíceis como loucura, viagens no tempo e investigação amadora

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

“Camisa de Força” (The Jacket, EUA, 2005) parecia, aos olhos dos fãs de bons thrillers de suspense, uma aposta promissora, desde que o primeiro trailer da produção foi divulgado, no começo de 2005. Embora a prévia parecesse contar um pouco demais da história, acenava para uma trama instigante, combinando temas difíceis como loucura, viagens no tempo e investigação amadora. Todos esses elementos aparecem, com maior ou menor intensidade, nos 103 minutos de projeção, mas infelizmente o diretor novato John Maybury não soube dosar a mistura, entregando um filme confuso, com enredo cheio de incoerências e trama inverossímil.

A sensação geral é de que uma boa idéia foi desperdiçada por um roteiro apressado e irregular, que desenvolve situações dramáticas e logo depois as esquece. O mais surpreendente de tudo é que a presença do ator Adrien Brody, com status em alta após conquistar um Oscar, elevou bastante o nível do elenco, que conta ainda com a inglesinha Keira Knightley, os veteranos Kris Kristofferson e Jennifer Jason Leigh, e participações especiais de luxo de Daniel Craig (“Munique”) e Brad Renfro (“O Aprendiz”). Os atores não são realmente um problema em “Camisa de Força”, já que essa turma tem talento e desempenha com competência. O buraco está mesmo no roteiro de Massy Tadjedin.

A abertura do longa-metragem é até promissora. Após a exibição de vídeos perturbadores de bombardeios norte-americanos no Iraque, em 1991, somos apresentados ao recruta Jack Starks (Brody). No meio de um combate, ele tenta auxiliar uma criança e acaba baleado na cabeça (“na primeira vez que morri, eu tinha 27 anos”, anuncia a forte narração). Ele sobrevive, mas sofrendo de amnésia em alto grau. Um ano depois, em dezembro de 1992, Starks perambula sem rumo pelas estradas geladas da fronteira entre EUA e Canadá, onde é acusado da morte de um policial rodoviário. Como não lembra do ocorrido e parece desorientado, acaba condenado a uma temporada em uma clínica psiquiátrica.

No hospital, Starks passa a ser submetido a um tratamento revolucionário comandado pelo Dr. Thomas Becker (Kris Kristofferson). A princípio, o tratamento parece um tanto sádico: o paciente recebe injeção de uma droga experimental, é amarrado em uma camisa-de-força e trancado, durante várias horas, dentro de uma gaveta de necrotério. O filme não se preocupa em qual a razão de tamanha crueldade, e nem porque a tal droga só poderia funcionar com o paciente submetido a condições tão extremas. Após uma apavorante primeira seção, Starks percebe que o tratamento parece transportá-lo para o futuro, e isso lhe cria não um, mais dois problemas para resolver – o surgimento de um interesse romântico, na pessoa de uma garçonete depressiva (Keira Knightley), e um mistério envolvendo sua própria morte.

A primeira meia hora de filme, quando toda a confusão mental de Jack Starks também envolve o espectador, é realmente interessante, apesar da edição irritante de Emma Hickox, que insiste em picotar os momentos de maior tensão – especialmente as alucinações dentro da gaveta – em imagens ultra-rápidas que parecem flashes de luz estroboscópica. Uma vez que toda a situação dramática é apresentada, porém, fica impossível ignorar a grande quantidade de incoerências e detalhes não explicados que a trama nos reserva, o que acaba afastando o interesse pelo filmes.

Algumas perguntas que ficam no ar: por que o filme insiste em sugerir que o Dr. Becker pode ter algum interesse maléfico na pesquisa com Jack Starks e, do meio para o fim, simplesmente esquece disso? Como é possível que uma garota simplesmente acredite, sem questionamentos, na história maluca sobre viagens no tempo que o paciente de um hospício, acusado de matar um policial, lhe conta? E por que razão o próprio Starks jamais questiona a própria sanidade, tendo em vista que a experiência pela qual passa, com a qual ele lida de forma bastante racional, é algo claramente impossível?

Outro defeito do roteiro é a caracterização do personagem de Keira Knightley, a garçonete Jackie Price. O diretor Maybury procura cercar a menina de todos os clichês imagináveis utilizados por Hollywood para ilustrar personagens auto-destrutivos e desequilibrados: maquiagem pesada, alcoolismo, casa bagunçada, despreocupação total com a própria segurança (ela não apenas dá carona a um estranho, como o convida para dormir em casa), geladeira vazia e/ou cheia de alimentos estragados, e por aí vai. Por sorte, Adrien Brody possui a persona correta para o seu personagem: um sujeito calmo, controlado, quase iluminado (no sentido budista da palavra). Quando nada mais parece fazer sentido, o olhar triste e as palavras sensatas do personagem aparecem e conseguem manter o filme no trilho.

Visto friamente, “Camisa de Força” é um projeto que parece ter sido construído a partir dos cacos de outros filmes, como o melodrama “Em Algum Lugar no Passado” (1980) e o thriller “Alucinações do Passado” (1990). Esses cacos acabaram gerando uma premissa sólida e original, mas de algum modo muito parecida com outro longa-metragem contemporâneo: o melancólico “Efeito Borboleta”. A produção estrelada pelo ator Ashton Kutcher compartilha com esta produção de 2005 muito mais do que a atmosfera lúgubre e o final agridoce. Se você curtiu a obra da dupla de diretores Eric Bress e J. Mackye Gruber, “Camisa de Força” foi feito para você.

– Camisa de Força (The Jacket, EUA, 2005)
Direção: John Maybury
Elenco: Adrien Brody, Keira Knightley, Jennifer Jason Leigh, Kris Kristofferson
Duração: 103 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »