Canções de Amor

08/11/2010 | Categoria: Críticas

Musical atrevido promove arrojado estudo da sexualidade jovem no século XXI através da análise de uma verdadeira instituição comportamental do cinema francês: o ménage-à-trois

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Grande parte da crítica francesa contemporânea aponta o cineasta Christopher Honoré como o maior herdeiro atual da tradição do movimento cinematográfico mais importante da história da França, a nouvelle vague. Em filmes anteriores, Honoré já havia flertado abertamente com temas e situações dramáticas que remetiam diretamente a clássicos de Truffaut, Godard e outros diretores do período, além de cantar a mesma Paris boêmia, irreverente, romântica e intelectual que os integrantes daquele movimento tanto celebraram. “Canções de Amor” (Les Chansons D’Amour, França, 2007) confirma o parentesco, ao realizar um arrojado estudo da sexualidade jovem no século XXI através da análise de uma verdadeira instituição comportamental do cinema francês: o ménage-à-trois, ou triângulo amoroso.

Muita gente boa por aí tem colado ao longa-metragem o rótulo limitador e preconceituoso de “filme gay”. Não deixa de ser, mas trata-se de grave erro imaginá-lo como um exemplar engajado que defende a relação com pessoas do mesmo sexo. Na verdade, seria bem mais justo chamar o filme de panssexual. Nesse sentido, a obra de Honoré apenas capta, de forma bastante eficiente, uma característica importante das expressões de afetividade dos jovens do século XXI: a vontade de amar e ser amado, aliada à abertura cada vez maior para que se possa experimentar qualquer forma de desejo carnal que não invada a privacidade de outras pessoas. De qualquer forma, é bom que o espectador saiba que homens se beijam e rolam na cama, de cuecas (e também sem elas), durante boa parte do filme. Tem gente que ainda se espanta com essas coisas.

Outro detalhe importante: “Canções de Amor”, conforme o título indica, é um musical. E chama a atenção por virar uma exceção no panorama atual do gênero. Nos últimos anos, inúmeros títulos de origens e sensibilidades diversas têm tentado evitar uma cilada comum nos musicais clássicos – interromper a ação dramática para que os atores cantem e dancem. Filmes como “Dançando no Escuro” (2000), “Moulin Rouge” (2001), “Chicago” (2002), “Apenas uma Vez” (2006) e “Across the Universe” (2007) utilizam artifícios diversos para driblar esse problema, seja incorporando ruídos do espaço sonoro à trilha de áudio, integrando músicas à narrativa, ou simplesmente adaptando canções pop conhecidas para maximizar o efeito dramático pretendido.

Curiosamente, “Canções de Amor” segue a linha dos grandes musicais clássicos, em que os atores interrompem diálogos a cada 5 ou 10 minutos, começam a cantar e saem dançando pela rua, ainda que desajeitadamente. Além disso, as letras das canções nem mesmo prezam pela evolução da ação dramática. Na verdade, são poesias que funcionam muito mais como contraponto bem bolado à narrativa, pontuando as emoções dos protagonistas e explicitando para o público mais ou menos o que se passa nas cabeças deles. É um recurso interessante, sem dúvida, mas que pode desagradar muita gente. Junte isso às fortes cenas de sexo gay e você tem nas mãos um filme capaz fazer um monte de pessoas torcerem os narizes para ele.

A história é dividida em três atos, apresentados por intertítulos. É assim que ficamos conhecendo Ismael (Louis Garrel), designer gráfico que trabalha numa revista e mora com duas garotas lindas. Julie (Ludivine Sagnier) é a namorada oficial. Os dois vivem juntos há alguns anos, e ele se dá muitíssimo bem com a família dela, mas a relação já começa a esfriar. Para manter a chama acesa, eles trazem para a cama deles a editora da revista, Alice (Clotilde Hesme). Honoré explora o ménage-à-trois com inteligência, pincelando a narrativa com sinais de ciúmes e atrevimento, incluindo muitos olhares furtivos e mãos bobas. Percebe-se que a insegurança funciona como combustível principal da relação, mas não temos muito tempo para explorar essa idéia. Um acontecimento inesperado e radical, no fim do primeiro ato, atira o filme numa direção completamente diferente.

A partir daí, a história se concentra em Ismael, e na jornada de auto-descoberta que ele empreende, meio às cegas, para conhecer melhor seus desejos e conviver de forma sadia com uma perda traumática. Em certo sentido, é um trabalho que daria uma sessão dupla perfeita com “O Segredo de Brokeback Mountain” (2005). São filmes muito diferentes, mas que tratam do mesmo tema essencial: a possibilidade de que qualquer um de nós sinta o desejo rumar em direção a um território hostil (uma hostilidade não necessariamente sexual, que se diga), e a dificuldade pessoal que qualquer pessoa tem para compreender esse tipo de situação. Nesse aspecto, “Canções de Amor” é um filme que pertence ao seu tempo, um tempo em que o combate aos preconceitos tem ensinado aos mais jovens que amar, encontrar uma alma gêmea, é a única coisa que importa numa relação afetiva. O sujeito deste amor, no fim das contas, não tem nenhuma importância.

O DVD nacional, sem extras e com imagem (wide letterbox) e som (Dolby Digital 2.0) de boa qualidade, é um lançamento em parceria entre a Livraria Cultura e a Mostra Internacional de São Paulo.

– Canções de Amor (Les Chansons D’Amour, França, 2007)
Direção: Christopher Honoré
Elenco: Louis Garrel, Ludivine Sagnier, Chiara Mastroianni, Clotilde Hesme
Duração: 100 minutos

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