Candidato Maldito

15/05/2006 | Categoria: Críticas

Filme de sumbi de Joe Dante funciona como sátira política de humor negro anti-Bush

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Não é novidade para ninguém que a esmagadora maioria da comunidade cinematográfica nos Estados Unidos se posicionou contra a guerra do Iraque, iniciada em 2002. Por ter levado a nação a invadir o país no Oriente Médio, o presidente George W. Bush virou alvo fácil das críticas dessa comunidade. O premiado documentário “Fahrenheit 11 de Setembro”, de Michael Moore, foi um dos libelos mais diretos a criticar Bush pela guerra. “Candidato Maldito” (Homecoming, EUA, 2005), episódio de Joe Dante para a telessérie “Mestres do Terror”, envereda pelo mesmo caminho, mesclando sátira política e horror com um resultado bem interessante.

Para destilar sua crítica ácida à ânsia bélica do governo Bush, o cineasta que ficou famoso por “Gremlins” (1984) decidiu transformar em filme um premiado conto de humor negro, chamado “Death & Suffrage” (ou “Morte e Eleição”), escrito por Dale Bailey. Em linhas gerais, é uma parábola anti-belicista que, apesar de jamais mencionar o nome de Bush, deixa bastante claro que é ele o alvo direto deste míssil cinematográfico. Na história, com a guerra em curso e a campanha para a reeleição do presidente dos EUA chegando perto da eleição, os soldados mortos em combate no Iraque começam a levantar dos túmulos. A intenção, porém, não é comer o cérebro de ninguém. Eles querem apenas… votar.

Dante escolheu um subgênero do horror muito apropriado para abrigar uma sátira política. Criado por George Romero em 1968, o filme de zumbi costuma conter fartas doses de crítica social nas entrelinhas. De fato, mais do que assustar os espectadores, o trabalho de Romero sempre pretendeu disparar contra o consumismo e as idiossincrasias de um país conservador, mas fazendo-o de forma dissimulada. Em “Candidato Maldito”, Joe Dante eleva o grau de crítica política e reduz o de violência. O filme praticamente não possui cenas fortes, com a exceção da tradicional aparência putrefata dos zumbis. Os monstros, porém, têm bom coração e não atacam as pessoas. Eles perambulam pelas ruas com a exclusiva intenção de votar contra o presidente que os mandou para a guerra. Só isso.

A narrativa é mostrada do ponto de vista de David Murch (Jon Tenney), o jovem e promissor consultor político do presidente, que acredita ser o responsável pelo fenômeno inexplicável da ressurreição dos mortos. O filme é inventivo e original, com um desenvolvimento de personagem denso para um média-metragem com menos de uma hora de duração, e diálogos repletos de humor negro de qualidade. O único ponto negativo é que, por fazer referências quase explícitas a George W. Bush e à invasão do Iraque (observe, por exemplo, os macacões laranja que os zumbis, confinados em quarentena, são obrigados a utilizar – é a mesma roupa que os prisioneiros afegãos da base de Guantânamo usam), “Candidato Maldito” tende a envelhecer e ficar datado. Ainda assim, é sátira política de qualidade acima do normal.

O DVD brasileiro ganha lançamento pelas mãos da Paris Filmes. A qualidade geral é fraca. O disco é simples e traz o filme com o enquadramento original de imagem (letterbox 4:3, que preserva o formato 1.77:1), com áudio em dois canais (Dolby Digital 2.0). Como extra, um making of. A decepção é maior quando sabemos que a Anchor Bay preparou uma edição bem mais recheada para os Estados Unidos, trazendo o vídeo em formato wide anamórfico (que também preserva o enquadramento original e tem resolução melhor da imagem), som em seis canais (Dolby Digital 5.1) e uma série de extras, incluindo comentário em áudio do diretor, perfil do autor do filme, entrevistas com os atores e cenas cortadas.

– Candidato Maldito (Homecoming, EUA, 2005)
Direção: Joe Dante
Elenco: Jon Tenney, Thea Gill, Robert Picardo
Duração: 58 minutos

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