Cantando na Chuva

08/06/2008 | Categoria: Críticas

Aproveitando canções e cenários de outros filmes, Gene Kelly e Stanley Donnen fizeram um dos musicais mais amados da história

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Considerado de forma quase unânime como o maior musical de todos os tempos, “Cantando na Chuva” (Singin’ in the Rain, EUA, 1952) nasceu da maneira mais despretensiosa possível. O filme foi concebido como uma espécie de catálogo de luxo do trabalho do produtor Arthur Freed como compositor. O poderoso chefão da MGM ganhara oito Oscars no ano anterior, por outro musical. A ocasião festiva levou Freed a pedir que o dançarino Gene Kelly e o cineasta Stanley Donnen desenvolvessem um projeto para reutilizar parte das grandes canções que ele havia escrito no começo da carreira (1929-39), como um grande portfólio nostálgico. Nenhum dos envolvidos no projeto tinha a menor idéia de que estava ajudando a criar um dos filmes mais amados da história de Hollywood.

“Cantando na Chuva” foi feito com um legítimo filme B. A maior parte dos cenários utilizados na produção consistia de sobras de musicais anteriores da MGM, que permaneciam guardados nos galpões do estúdio. Levando em consideração este dado, bem como o período em que as canções haviam nascido, os roteiristas Adolph Green e Betty Comden tiveram uma idéia genial: ambientar a história dentro da indústria cinematográfica, criando um conto clássico de amor que tinha como pano de fundo o período de transição dos filmes mudos para o cinema falado. A estratégia acabou por cativar dois públicos distintos, que nem sempre gostam dos mesmos filmes: os cinéfilos e a porção mais sonhadora, mais feminina, da platéia.

Aliás, a metalinguagem, até mais do que os geniais números musicais, passou a ser vista como um dos elementos mais fascinantes do longa-metragem para a platéia contemporânea, que tem a chance conferir na película um verdadeiro documento histórico de um dos momentos mais delicados na história do cinema. Verdade seja dita: “Cantando na Chuva” suaviza e simplifica o processo doloroso que foi a transição para o cinema sonoro, mas não o trapaceia – e isto é um grande mérito. Como o público desconhece praticamente tudo que se passou naquele período (1928-29), costuma acompanhar com grande interesse os trechos que exploram os bastidores da criação de um filme, como o ótimo número em que Gene Kelly ensina a Debbie Reynolds como se “cria clima” para fazer uma declaração de amor.

Voltando ao aspecto histórico do clássico, não foram poucos os atores e atrizes da fase muda que perderam os empregos ou caíram no esquecimento, e o filme aborda o assunto com inteligência. Isto aconteceu, por exemplo, com Douglas Fairbanks (o maior astro de ação dos anos 1920) e John Gilbert (galã e parceiro de Greta Garbo em dramas românticos). O primeiro tinha voz fina e sem amplitude; o segundo não conseguiu se livrar de um forte sotaque rural. Ambos foram rejeitados pelas platéias por causa do som. Curiosamente, mais ou menos na mesma época da produção de “Cantando na Chuva”, Billy Wilder fez outro grande filme sobre os bastidores da mesma fase da indústria do cinema, mas “Crepúsculo dos Deuses” era bem mais cínico e ferino.

Brigões e grandes parceiros, Kelly e Donnen fizeram um grande trabalho. O primeiro foi o responsável pelas coreografias de tirar o fôlego dos números musicais. O astro tinha um estilo mais atlético do que o rival Fred Astaire, que era mais elegante e suave, e soube aplicar este estilo com muita propriedade em números como o acrobático “Make ‘em Laugh”, em que ele não dança, mas o parceiro Donald O’Connor literalmente sobe pelas paredes. O grande dançarino também foi responsável pela estrutura narrativa, inserindo os trechos dançados dentro da ação dramática, e o fez com maturidade, de forma a preservar a maior virtude das produções assinadas por Arthur Freed: os números musicais não eram gratuitos. Não interrompiam a narrativa. Mantinham a história andando, ou sublinhavam o estado de espírito dos personagens em determinados momentos.

Em “Cantando na Chuva”, esta regra foi quebrada apenas uma vez, para a inclusão do longuíssimo número “Broadway Melody”, já perto do final. Apesar da performance arrasadora de Gene Kelly, dos cenários multicoloridos e da química impecável do dançarino com a sensualíssima Cyd Charisse, este trecho parece pertencer a outro filme – ou melhor, ele consiste de um pequeno curta-metragem completo, uma história dentro da história, dividida em três atos e inserida à força dentro da história principal. Por causa dessa derrapada, “Cantando na Chuva” não é um filme perfeito. De qualquer forma, fica fácil entender porque os milhões de fãs perdoam esse deslize. Com números acrobáticos de cair o queixo, muito senso de humor (todas as cenas com a impagável atriz Jean Hagen são maravilhosas) e pelo menos um momento antológico – a conhecidíssima seqüência em que Gene Kelly dança a canção-título –, “Cantando na Chuva” cativa como poucos musicais.

A edição de colecionador, em DVD duplo, é nada menos do que sensacional. No primeiro disco está o filme restaurado, com boa qualidade de imagem (1.37:1, proporção original) e áudio (Dolby Digital 5.1), acompanhado de um comentário em áudio cheio de convidados: atores, roteiristas, membros da equipe de produção, historiadores e até mesmo o cineasta Baz Luhrmann (“Moulin Rouge”). O segundo disco traz dois documentários, um sobre o filme (35 minutos) e outro biografando o produtor Arthur Freed (86 minutos), mais um número musical cortado (5 minutos) e uma coleção comentada com doze trechos de outros filmes, apresentando as canções reutilizadas no longa-metragem (51 minutos). Uma delícia para cinéfilos.

– Cantando na Chuva (Singin’ in the Rain, EUA, 1952)
Direção: Gene Kelly e Stanley Donnen
Elenco: Gene Kelly, Donald O’Connor, Debbie Reynolds, Jean Hagen
Duração: 103 minutos

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