Cão Branco

23/12/2008 | Categoria: Críticas

Libelo contra o racismo expõe, com excessos típicos de Sam Fuller, a hipocrisia existente em certos círculos sociais dos EUA

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Numa das mais célebres cenas de “O Demônio das Onze Horas”, longa-metragem de Jean-Luc Godard, o cineasta Samuel Fuller aparece gesticulando e dando a sua famosa definição de cinema: “Um campo de batalha: amor, ódio, ação, violência, morte – numa palavra: emoção!”. Fuller, um dos diretores norte-americanos mais desprezados pelos conterrâneos, não estava apenas recitando uma frase do roteiro escrito por outro profissional. Ele estava recitando uma espécie de filosofia pessoal e profissional. Basta assistir a qualquer filme que leve a assinatura do diretor para perceber que todas as decisões profissionais que ele tomava, seja no campo estético ou no narrativo, seguiam este conceito. Fuller era o cineasta do exagero. Ele queria mexer com as pessoas no mais profundo nível emocional que fosse possível. “Cão Branco” (White Dog, EUA, 1982) é um excelente exemplo disso.

Pouca gente conhece o longa-metragem dirigido em 1982, pela simples razão que ele jamais foi lançado comercialmente nos Estados Unidos (embora tenha sido exibido no canal pago HBO, anos depois de ter sido feito). A Paramount, que financiou a obra, não gostou do resultado final. Os executivos do estúdio achavam que Sam Fuller, então radicado na Europa (onde morava desde meados dos anos 1960, quando se desiludiu com as práticas comerciais vigentes em Hollywood), estava mexendo em vespeiro – e estava mesmo. Sem dar bola para metáforas elaboradas e abusando de um trabalho de câmera profundamente estilizado, o diretor bolou um ataque frontal ao racismo, que sempre considerou um dos traços mais sórdidos e disfarçados da sociedade norte-americana.

De certa forma, ele atirou no que viu e acertou (também) no que não viu, já que o filme se configura como um soco de mão pesada na hipocrisia social que reina em certos segmentos sociais dos EUA, onde as pessoas trocam sorrisos cordiais e tapinhas nas costas enquanto se odeiam. O enredo é bem simples. Trata de uma atriz iniciante (Kristy McNichol) que atropela sem querer um pastor alemão branco e acaba desenvolvendo uma afeição especial pelo animal, depois que ele a salva de um estuprador que invade a residência dela. Aos poucos, a mulher percebe que o animal nutre agressividade incomum contra pessoas de cor. Chega à conclusão de que ele foi treinado para atacar negros – uma prática verdadeira e comum na África do Sul – e contrata um outro treinador (Paul Winfield) para domá-lo. Esse novo treinador tem uma razão pessoal para se dedicar com afinco ao treinamento: ele também é negro.

Curiosamente, o roteiro (co-escrito por Curtis Hanson, então iniciante e futuro diretor do excelente “Los Angeles – Cidade Proibida”) teve origem num episódio real, vivido pela atriz Jean Seberg (protagonista do clássico “Acossado”, de Godard). Enquanto vivia nos EUA, ela atropelou de verdade um cão treinado para atacar somente pessoas negras. Com este ponto de partida, Fuller realizou um filme visceral e violento, com um trabalho de câmera provocador e cheio de excessos. A fotografia de Bruce Surtees (“O Estranho Sem Nome”) capricha em ângulos incomuns – câmera ao nível do chão, tomadas aéreas, planos-detalhes fechadíssimos, super-closes dos rostos dos atores e do cão branco do título – na tentativa de maximizar o envolvimento emocional do espectador. É uma estética que freqüentemente subverte a regra clássica da “direção invisível” (segundo a qual o diretor deve contar a história sem chamar a atenção para a técnica) para atingir a platéia direto nas tripas. Funciona.

Também é importante chamar a atenção para o excelente trabalho de montagem, que transforma o pastor alemão no verdadeiro protagonista do filme. A edição habilidosa dá uma personalidade bipolar ao cão, fazendo-o oscilar violentamente entre um ser absolutamente irracional, que espuma de ódio ao ver um negro, e um animal carinhoso, de inteligência quase humana. A excelência do trabalho de montagem fica evidente, por exemplo, na seqüência que mostra a fuga do canil. Em uma primeira cena, Fuller mostra o cachorro mordendo, pacientemente, o teto da cela em que está preso. Na noite seguinte, uma cena idêntica acontece, desta vez acompanhada da música minimalista e nervosa composta pelo mestre Ennio Morricone. A presença da música agrega a expectativa da fuga, que acaba ocorrendo e é filmada de forma clara e explosiva pela câmera inquieta de Fuller.

Na época em que dirigiu “Cão Branco”, Sam Fuller já não alimentava mais qualquer vontade de voltar a Hollywood. Ele estava afastado há quase 20 anos dos grandes estúdios e sabia que tivera a carreira destruída por eles. Por isso, aproveitou o longa-metragem para destilar um pouco do ressentimento que sentia, incluindo elementos autobiográficos em uma subtrama metalingüística – a atriz que encontra o cão tem dificuldades para encontrar emprego e é obrigada a trabalhar em produções de baixo orçamento, em que os produtores projetam cenários na parede do estúdio para não ter que mandar a equipe para locações, o que aumentaria o custo do filme. Mas a maior alfinetada sobra para George Lucas. Em certo momento, um personagem joga dardos furiosamente num pôster do robô R2D2 (“Guerra nas Estrelas”), vociferando que a tecnologia destruiu a essência do cinema. Puro Samuel Fuller.

A melhor edição em DVD disponível no mercado foi lançada pela Criterion Collection, nos Estados Unidos. As imagens (widescreen 1.78:1 anamórfico) e o áudio (Dolby Digital 2.0) foram restaurados digitalmente, e a montagem original sem cortes foi resgatada para a edição especial, que conta com entrevistas do produtor Jon Davison, do co-roteirista Curtis Hanson e da viúva de Fuller, mais entrevista com o treinador do cão usado no filme (que interpreta o estuprador atacado por ele) e um libreto contendo reflexões críticas sobre o filme.

– Cão Branco (White Dog, EUA, 1982)
Direção: Samuel Fuller
Elenco: Kristy McNichol, Paul Winfield, Jameson Parker, Burl Ives
Duração: 84 minutos

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