Cão Sem Dono

07/05/2008 | Categoria: Críticas

Naturalista e delicado, filme de Beto Brant e Renato Ciasca radiografa com doçura a paixão verdadeira de um casal jovem

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Beto Brant não é diretor cujo estilo nasceu pronto e acabado. Assistir aos filmes do cineasta paulista, na seqüência cronológica correta, é testemunhar um artista descobrindo aos poucos a própria voz. Em “Cão Sem Dono” (Brasil, 2007), Brant chega ao quinto longa-metragem – desta vez assinado em parceria com o amigo, produtor e roteirista Renato Ciasca – despindo-se de todo tipo de artifício para atingir um cinema de simplicidade absoluta, de naturalismo total. O resultado é um filme de escala mínima, um trabalho intimista e delicado, radiografia cheia de doçura de um casal jovem vivendo paixão de verdade em tempos de cinismo e descrença. Funciona, ainda, como retrato carinhoso da juventude urbana atual, movida a partir de uma curiosa mistura de falta de perspectiva com preguiça.

“Cão Sem Dono” é a adaptação de um romance do escritor gaúcho Daniel Galera, cujos textos tentam captar um pouco do estilo de vida que a turma jovem vive hoje em grandes cidades – no caso, Porto Alegre (RS). Junto com o velho chapa Marcel Aquino, Brant e Ciasca trabalharam durante dois anos no roteiro, à maneira de Carlos Drummond de Andrade: cortando tudo o que não fosse absolutamente necessário, deixando só o essencial. A idéia era eliminar os artifícios que normalmente se usa nos filmes para realçar a história (da trilha sonora à maquiagem, da decoração das casas aos movimentos de câmera) e se concentrar exclusivamente nas pessoas.

Ao filmar desse jeito minimalista e visceral, a dupla de diretores reduziu a escala da produção ao mínimo possível, terminando com uma mera história de amor numa cidade grande, contada de modo rústico e absolutamente despojado. “Cão Sem Dono” se aproxima bastante de um tipo de cinema minúsculo, barato, centrado nos personagens, que vem ganhando cada vez mais espaço (títulos como o norte-americano “Half Nelson”, o romeno “A Morte do Sr. Lazarescu” e o pernambucano “Cinema, Aspirinas e Urubus”) na cinematografia atual. É um filme que mostra gente de verdade, tem cheiro e textura de vida, penetra na intimidade dos personagens com respeito e delicadeza, e transforma cada membro da platéia em amigo deles. Difícil exigir mais de um filme.

Embora narre uma história de amor, o longa se dedica a examinar um recorte raro de uma história de amor – aquele momento mágico em que os dois amantes tateiam no escuro, ultrapassando a desconfiança natural do início. O filme mostra a evolução de um relacionamento amoroso, cobrindo todas as suas etapas, da noite de sexo casual à paixão demolidora. Faz isso com uma naturalidade desconcertante, através de longos takes sem cortes que denotam um saudável desprezo pelo rigor formal. Espectadores atentos irão notar, talvez com certo grau de desagrado, os muito fade-outs que separam seqüências independentes. O recurso é usado tantas vezes que parecem trazer nas entrelinhas um recado dos diretores: esqueça a técnica e se concentre no conteúdo, porque aqui é ele que importa.

A história é contada do ponto de vista de Ciro (Júlio Andrade), rapaz recém-formado em Literatura, talvez o cão sem dono do título. Ele vive num apartamento mal mobiliado e dorme num colchão, no chão de um quarto vazio. Pega pequenos trabalhos de tradução para sobreviver, embora seja na verdade bancado pelos pais, enquanto cuida de um cachorro de rua que o segue pelas ruas escuras do bairro vagabundo onde mora. Ciro é solitário, quase um misantropo. Evita as pessoas, é um recluso. “Cão Sem Dono” inicia exatamente no momento em que ele conhece Marcela (Tainá Muller), modelo em início de carreira, dona de simpatia e beleza contagiantes. O tipo de pessoa que dá sem pedir nada em troca.

Eles começam a sair, a relação engrena, e a paixão força Ciro a sair do casulo. O filme captura tão bem o processo de se apaixonar, de forma tão vívida e verdadeira, que a platéia sente aquela sensação de não estar mais sozinho, característica dos amantes, nascendo dentro deles. É provável que Ciro e Marcela se apaixonem tanto quanto a gente se apaixona por eles. O que nasce entre os dois não é amor de telenovela, mas aquele calor no estômago cresce silenciosamente. O filme acompanha o florescer da relação em cenas repletas de naturalidade (o jantar divertido com os novos amigos, a conversa franca com de Ciro com o pai, os bate-papos sobre pintura e música com o porteiro). Os momentos de intimidade do casal – transas, poemas improvisados, declarações de amor, canções bêbadas – denotam uma vitalidade rara no cinema contemporâneo.

O truque de Brant e Ciasca foi investir 100% nos personagens. Na pré-produção, os dois puseram o ator Júlio Andrade para viver por um mês na locação onde o personagem Ciro moraria, um apartamento num bairro decrépito de Porto Alegre, e o orientaram a mobiliar o lugar do jeito que quisesse. Trouxeram para interpretar Marcela a namorada verdadeira do escritor Daniel Galera, ou seja, a menina que tinha servido de modelo para a composição da personagem original. Editaram o filme sem música, preferindo tomadas longas, sem esconder as elipses; muitas cenas acabam em fade out, com a tela escurecendo, sendo que o efeito – que indica uma passagem longa de tempo antes da cena seguinte – parece tão desajeitado e amador que nenhum cineasta “profissional” costuma utilizá-lo mais. Também evitaram usar fontes de luz artificiais, iluminando os sets com lâmpadas comuns. Criaram um elogio à imperfeição.

Tudo isso impregna o filme com uma aura imbatível de realidade. O toque final, a cereja no bolo, está nas atuações brilhantes. Júlio Andrade e Tainá Muller estão perfeitos, maravilhosos, totalmente naturais. Todo o elenco de apoio brilha de modo uniforme, do porteiro (Luiz Carlos Coelho) ao pai (Roberto Oliveira), compondo personagens 100% acreditáveis, gente de verdade, pessoas que geram empatia imediata com a platéia. Nem se incomode se perder alguns diálogos por causa do som deficiente; os defeitos técnicos viram elogios dentro de um filme como este. A atmosfera de vida real é, dentre tantos acertos, o maior e mais importante. E se o final abrupto e talvez bobo destoa em tom e clima de tudo o que veio antes, também dá à platéia exatamente aquilo que ela espera, garantindo que a história de Ciro e Marcela permaneça ressoando na cabeça durante muitos dias.

O DVD de locação, da Europa Filmes, traz apenas o filme, com qualidade boa de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0).

– Cão Sem Dono (Brasil, 2007)
Direção: Beto Brant e Renato Ciasca
Elenco: Júlio Andrade, Marcela Muller, Marcos Contreras, Roberto Oliveira
Duração: 82 minutos

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