Capitão Sky e o Mundo de Amanhã

15/06/2005 | Categoria: Críticas

Novato Kerry Conran reprocessa o passado em aventura de tecnologia inovadora

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O uso de tecnologia digital para gerar imagens que só existem na tela do cinema abriu o século XXI como o assunto mais debatido no meio cinematográfico. Diretores do porte de George Lucas, na verdade, já vinham perseguindo uma espécie de hiper-realismo de fachada, no qual personagens 100% digitais poderiam contracenar com atores de verdade, sem que a platéia percebesse quem é de carne e osso e quem é feito de MegaBytes. Mas uma produção levou essa proeza a um novo patamar: “Capitão Sky e o Mundo de Amanhã” (Sky Captain and the World of Tomorrow, EUA, 2004) redireciona a discussão para um foco diferente.

O filme mostra que os benefícios do cinema digital não precisam ser usados, necessariamente, para reproduzir fielmente a realidade. Computadores podem levar cineastas a voar mais alto do que isso. As máquinas eletrônicas podem, se bem utilizadas, servir de ferramenta para criar mundos irreais, que só existem na imaginação dos artistas do Cinema. OK, sempre foi assim, é verdade. Só que agora esses mundos de ficção não mais precisam ser construídos fisicamente, em estúdio. Podem ser feitos diretamente no computador, o que barateia enormemente o custo de produção.

O novato Kerry Conran escreveu seu nome na história do cinema ao provar isso em uma tour-de-force de extravagância visual. O primeiro filme de Conran foi saudado como uma espécie de sopro de vitalidade em Hollywood, por um motivo simples: pela primeira vez, um cineasta fez um filme sem usar cenários. Simples assim. Conran colocou seus atores para atuar em galpões cobertos com panos azuis e, depois, transformou as telas azuis em cenários digitais.

Ele fez isso com uma técnica simples, usando computadores Macintosh e um programa que qualquer designer conhece muito bem, o popular Adobe After Effects. Conran recorreu a uma amálgama de técnicas (animação computadorizada, fotografias, reprodução de trechos de filmes antigos) para criar locações imaginárias e aplicou um rigoroso método de tratamento de cores à colagem. Conseguiu uma legítima aventura retrô-futurista, com sabor clássico de matinê dos anos 1930 e visual estonteante.

A história dos bastidores de “Capitão Sky e o Mundo de Amanhã” merece ser contada. Kerry Conran era, até 2003, um estudante de cinema que trabalhava fazendo programação de computadores. Fã de revistas em quadrinhos e séries de TV antigas, ele bolou um roteiro como uma homenagem a esses produtos. Então, começou a trabalhar, nas horas vagas, transformando a colagem narrativa em uma outra colagem, visual, na garagem de casa.

Depois de seis anos de trabalho solitário, Conran tinha um trecho de seis minutos, que mostrava robôs gigantes sobrevoando e atacando uma Nova York nostálgica. Com esse material na mão, procurou o produtor Jon Avnet e apresentou a idéia do longa-metragem. Avnet ficou entusiasmado, conseguiu atrair os atores Jude Law e Gwyneth Paltrow para a causa e, com o apoio da dupla, convenceu a Warner a liberar U$ 70 milhões para o projeto. “Capitão Sky e o Mundo de Amanhã” saía do papel.

Não há dúvida de que o filme tem um paradoxo dos mais interessantes: inovador em sua técnica, possui uma narrativa conservadora, em que a complexidade de personagens mais humanos foi deixada de lado, em prol da clássica dualidade Bem X Mal. Temos, portanto, vilões malvados, heróis intrépidos e mocinhas lindíssimas. Em outras palavras, “Capitão Sky e o Mundo de Amanhã” aponta para o futuro, mas homenageando o passado. O futuro de Kerry Conran é, na verdade, o passado reprocessado, digitalizado e “consertado”. Esse detalhe transforma o cineasta no seguidor mais fiel de George Lucas. Seu filme soa como uma continuação das aventuras de Indiana Jones.

O esmero de Kerry Conran com os detalhes é perceptível; o cineasta não deixou nada ao acaso, povoando o longa-metragem com dezenas de referências pop, que vão desde gibis de Buck Rogers até o King King (em determinada cena, com certo esforço, é possível ver a silhueta do macaco gigante escalando o Empire State Building, como figurante da ação principal). Essa brincadeira clássica de “Onde Está Wally?”, utilizada por 11 em cada 10 cineastas que pretendem criar pequenos compêndios de cultura pop em forma de filme, é interessante, mas está longe de ser o prato principal da produção. A cereja do bolo é mesmo a aparência.

“Capitão Sky e o Mundo de Amanhã” tem um visual arrebatador. Kerry Conran conseguiu o impossível: unir, em um único filme, uma grande quantidade de estilos visuais distintos. Conran reuniu numa embalagem só as maravilhas do film noir (cenas em preto-e-branco, cheias de sombras e pontos escuros) e do technicolor (o super-colorido “estourado”, em que as cores parecer ser absorvidas pelos personagens na tela até um ponto em que explodem num caleidoscópio).

No final das contas, “Capitão Sky e o Mundo de Amanhã” soa como se o soturno alemão Fritz Lang tivesse dirigido “O Mágico de Oz”. Os robôs gigantes, é claro, parecem ter saído do expressionista “Metrópolis” (1927). Já o clássico de Victor Fleming bate ponto dentro de “Capitão Sky”, em uma seqüência localizada dentro de um cinema na Broadway. É a aparição do velho filme infantil que situa a ação do filme em 1939.

A trama da produção de Kerry Conran recicla fielmente a narrativa dos antigos seriados de TV. A repórter Polly Perkins (Paltrow) – linda, destemida e pronta a qualquer coisa para conseguir um furo jornalístico – fareja um problema dos grandes quando um famoso cientista desaparece, após desembarcar do dirigível alemão Hidenburg, na metrópole dos EUA. Ela logo descobre que o sujeito é o sexto, de uma lista de sete gênios tecnológicos que estavam envolvidos em um projeto secreto datado da I Guerra Mundial, a sumir.

Quase ao mesmo tempo, Nova York é invadida por uma esquadrilha de robôs gigantes, que roubam geradores de energia da cidade. Perkins tem motivos para acreditar que os dois incidentes estejam interligados, e por isso se alia a um corajoso mercenário voador, Joe Sullivan (Law). Ele é um único homem que possui os meios necessários para liderar a defesa dos EUA contra a ameada desconhecida: um avião incrementado no estilo “cinto de utilidades do Batman” e uma equipe de cientistas e pilotos de prontidão. Juntos, os dois, que já foram namorados antes mas agora vivem às turras, decidem investigar o caso.

A narrativa é clássica e, diante de um visual tão inovador, fica até um pouco pálida. Não espere nenhuma novidade nesse departamento. Conran apenas recicla todos os clichês do gênero (o mocinho e a mocinha que brigam a todo momento, o vilão misterioso só mostra a cara no final, um bandidão mascarado ataca nos momentos mais inoportunos) e faz uma aventura à moda antiga. Em outras palavras, Kerry Conran termina o filme como sério candidato a novo George Lucas. O que ele fez em 2004 corresponde ao que Lucas realizou em 1977, com “Star Wars”: a criação de uma franquia cinematográfica que vê o futuro como um passado nostálgico, e celebra a ingenuidade das primeiras décadas do cinemão de entretenimento.

Há uma porção de pequenos detalhes em “Capitão Sky e o Mundo de Amanhã” que poderiam render longas discussões. Um dos mais interessantes é justamente a construção de uma espécie de passado alternativo. Em 1939, como se sabe, já fazia dois anos que o dirigível Hidenbung havia se incendiado, e a Alemanha preparava a invasão à Polônia que resultaria na II Guerra Mundial. Kerry Conran finge que esses fatos históricos não existiram. Ele reconstrói o passado à sua própria maneira, criando geringonças que a tecnologia da época jamais seria capaz de construir (robôs, hologramas).

Cabe a pergunta: por que os realizadores mais visionários de Hollywood compartilham de uma visão tão saudosista e nostálgica do passado? George Lucas é o nome mais destacado dessa fileira de cineastas, mas a relação é longa: David Lynch, Francis Ford Coppola, Robert Zemeckis, Peter Jackson, James Cameron, os irmãos Wachowski e, agora, Kerry Conran. Está aí um enigma que nenhum crítico ou pesquisador de cinema conseguiu decifrar. Enquanto isso não acontece, não há muito a fazer, a não ser sentar e apreciar as peripécias de Joe Sullivan e sua máquina voadora. Para adultos e crianças sem medo de gostar de coisas bobas.

A Paramount fez um DVD excelente. Acompanhando o filme (que tem o corte original widescreen preservado em ótima cópia e uma trilha de áudio no formato Dolby Digital 5.1), vem um documentário dividido em duas partes, chamado “Admirável Mundo Novo”, que dura 51 minutos no total e é bem abrangente. O curta original que desembocou no filme (seis minutos) integra o pacote, bem como duas cenas deletadas, um segmento com erros de gravação e comentário de áudio com o diretor e três membros da equipe técnica do filme. Um featurette sobre o visual do longa (8 minutos) é outra parte bacana do pacote. Todo o material tem legendas.

– Capitão Sky e o Mundo de Amanhã (Sky Captain and the World of Tomorrow, EUA, 2004)
Direção: Kerry Conran
Elenco: Jude Law, Gwyneth Paltrow, Angelina Jolie, Giovanni Ribisi
Duração: 106 minutos

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