Captura dos Friedman, Na

17/11/2004 | Categoria: Críticas

Documentário impressionante desnuda, com imagens caseiras, processo de destruição de família acusada de pedofilia

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

“Na Captura dos Friedman” (Capturing The Friedmans, EUA, 2003) oferece tantas possibilidades de abordagens que uma mera resenha crítica do documentário se torna uma tarefa difícil, senão impossível. O filme de estréia do cineasta Andrew Jarecki vai infinitamente mais longe do que uma mera peça cinematográfica. É muito mais do que um filme. Trata-se, na verdade, de um documento que flagra e revela aspectos sombrios da sociedade em que vivemos, no início do século XXI.

As imagens impressionam, chocam, perturbam qualquer pessoa com um mínimo de senso ético, simplesmente porque ultrapassam as últimas fronteiras, os últimos fiapos de privacidade que os seres humanos ainda conseguiam resguardar. Os 107 minutos de projeção desnudam por completo o processo interno de destruição de uma família, a partir da acusação de pedofilia feita a dois de seus membros. Um trabalho como esse poderia – deveria, até – ser tema de debates em universidades, em círculos cinematográficos, em mesas de bares ou na sala de cada espectador que entrar no cinema disposto a vê-lo.

Para começar, contudo, é fundamental situar o leitor diante do caso, o que remonta a 1987. No Dia de Ação de Graças daquele ano, o pacato professor Arnold Friedman, 56 anos, foi preso, sob a acusação de comprar e guardar pornografia infantil em sua residência, no subúrbio de classe alta chamado Great Neck, em Long Island. Nos meses que se seguiram, o caso freqüentou as manchetes dos tablóides e programas de TV dos EUA, enquanto as acusações se acumulavam e atingiam outro membro da família, o filho Jesse, 18 anos. Os dois acabaram acusados de molestar e estuprar dezenas de crianças da que freqüentavam aulas particulares de computação e piano. Arnold ministrava essas aulas todas as noites, no primeiro andar da casa onde morava.

Esse é o resumo simplificado do caso. Tendo explicado as circunstâncias básicas da história, eu gostaria de chamar a atenção para o aspecto que, particularmente, me chamou mais a atenção: a farta utilização de imagens gravadas por um dos membros da família, o obsessivo David Friedman, filho de Arnold e irmão de Jesse. Talvez como forma de escapismo diante da tragédia iminente, David fez um vídeo-diário, gravando reuniões, jantares, conversas reservadas, discussões acaloradas e emocionados depoimentos dos três filhos, da mulher e do professor acusado do crime.

A documentação oferece um olhar profundo, de um ponto de vista inédito (pois interno), do processo de destruição inequívoca de uma família-padrão da classe alta norte-americana. Claro que “Na Captura dos Friedman” busca ir mais adiante. O cineasta Andrew Jarecki realiza uma reportagem investigativa completa, entrevistando parentes dos acusados, policiais, promotores, advogados, alunos e pais de alunos relacionados ao caso. O painel é complexo, completo e polêmico, pois as contradições são incontáveis e jamais permitem que o espectador chegue a uma conclusão lógica e irrefutável a respeito da culpa ou da inocência dos Friedman.

De qualquer modo, o objetivo maior do documentário não é esse, mas flagrar o processo de desmoronamento total e irrestrito de um lar aparentemente normal. Isso não seria possível sem as extensas imagens do arquivo pessoal da família. E é esse detalhe que me deixa, mais do que impressionado, literalmente chocado. Talvez o filme seja um sintoma do grotesco que assola a família do século XXI, mas me parece emblemático que imagens tão fortes, e tão particulares, sejam exibidas em cinemas, para milhares de pessoas.

Os espectadores são atirados no olho do furacão que atingiu os Friedman. Com eles, compartilham momentos de intimidade absoluta. E isso é, para mim, o mais próximo que já conseguimos chegar da falta de privacidade prevista por George Orwell. Ou até mais longe do que isso, porque se trata de uma ausência consentida de privacidade. Acho isso angustiante, revoltante mesmo, sob qualquer ponto de vista – inclusive o meu, platéia, que deveria cuidar da própria vida e deixar os outros viverem as deles sem interferências.

Esqueça o “Big Brother”, essa bobagem em que meia dúzia de garotões interpretam versões simplificadas de si mesmo. É assustador perceber que o fetiche voyeurista, que em última instância permanece indissociável do próprio mecanismo do cinema (na sala escura, o que fazemos senão espiar a vida de outras pessoas?), transformou a câmera de vídeo em uma espécie de terapeuta virtual das famílias contemporâneas.

Como Heather Donahue em “A Bruxa de Blair”, David Friedman se recusa a parar de gravar as imagens perturbadoras, embora não consiga jamais compreender racionalmente porque não consegue acionar o botão que diz Pare. Pura histeria, sem dúvida. A diferença é que, nesse caso, David está lidando com um caso real, com pessoas de carne e osso, submetidas talvez à situação mais emocionalmente devastadora que um ser humano pode experimentar.

Por isso, espanta-me que David Friedman tenha utilizado a câmera como válvula de escape para a desagregação familiar que via acontecer diante dos próprios olhos. Espanta-me ainda mais – na verdade, choca-me – que ele tenha permitido o uso irrestrito dessas imagens, compartilhando uma dor indescritível com qualquer desconhecido disposto a pagar o equivalente a um lanche numa fast food por um ingresso de cinema.

Essa atitude, para mim, diz muito mais sobre o ser humano de hoje (e não apenas sobre David Friedman) do que qualquer conclusão sobre o caso a que o filme pretenda chegar. Em certo momento da projeção, para ser sincero, parei de pensar nos Friedman como personagens de uma investigação policial. O filme se tornou, para mim, um doloroso documento sobre o estado de coisas da civilização, da minha civilização.

Por isso, não fiquei frustrado quando “Na Captura dos Friedman” termina e deixa as mentes dos espectadores mergulhadas em dúvida, chocadas com o comportamento aparentemente egoísta de alguns membros da família ou com a desconcertante sinceridade de outros. “A Captura dos Friedman” é uma experiência singular, muito mais do que cinematográfica, e merece uma reflexão atenta e profunda de qualquer um que deseje compreender o mundo em que vivemos no século XXI. Saia do cinema e se pergunte: a que ponto chegamos?

– Na Captura dos Friedman (Capturing The Friedmans, EUA, 2003)
Direção: Andrew Jarecki
Documentário (com Arnold, Elaine, David, Seth e Jesse Friedman)
Duração: 107 minutos

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