Caramelo

20/09/2009 | Categoria: Críticas

Melodrama divertido sobre a vida de cinco mulheres em Beirute, mesmo que soe às vezes bobo e previsível, tem algo sob a superfície que traz à tona reflexões interessantes

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Não é fácil que um filme consiga resumir no título, especialmente quando ele consiste de uma única palavra, toda a experiência que ele contém. Essa façanha é alcançada por “Caramelo” (Sukkar Banat, Líbano/França, 2007), produção libanesa indicada pelo país para concorrer ao Oscar de filme estrangeiro de 2008. O longa-metragem, de alma feminina, tem a aparência dourada de um caramelo, o gosto previsível e ainda assim prazeroso de um caramelo, o sabor açucarado de um caramelo, e até mesmo a sensibilidade feminina do doce.

Claramente construída para refletir um momento histórico em que Beirute se configurava uma das metrópoles orientais mais próximas do Ocidente, em termos de cultura, a história segue os destinos de cinco personagens femininas que freqüentam o mesmo salão de beleza. Cada uma das moças lida com um problema específico, e o filme dá conta de todos eles; as cinco se apóiam em busca de superação. Sim, é um melodrama divertido, mesmo que soe às vezes bobo e um tanto previsível, mas há algo sob a superfície que traz à tona certas reflexões interessantes.

O centro fulgurante do longa-metragem é a figura de Layale (Nadine Labaki, belíssima, também diretora e co-roteirista). Ela trabalha como manicure e depiladora num pequeno salão de beleza de Beirute. Vive às voltas com um traumático relacionamento com um homem casado, que freqüentemente some e ocasionalmente reaparece, sempre sem aviso. Por causa disso, Layale vive numa gangorra emocional. Nesse aspecto, não é muito diferente das outras duas colegas de trabalho. Nisrine (Yasmine Elmasri) está noiva e apaixonada, mas não sabe como explicar ao futuro marido que não é mais virgem.

A dona do salão, Rima (Joanna Moukarzel), vive a história mais interessante e cinematográfica de todas, uma relação homossexual com uma freguesa (Fatmeh Safa, um dos rostos mais lindos que já freqüentaram uma tela de cinema) que é narrada em silêncio, entre olhares e sorrisos, através da metáfora de um corte de cabelos. O filme também acompanha duas freguesas constantes, uma costureira de meia-idade (Sihame Haddad) na dúvida entre submergir aos gracejos de um senhor e continuar cuidando da irmã deficiente, e uma balzaquiana divorciada (Gisèle Aouad) que enfrenta os dissabores da menopausa.

A experiência proporcionada por “Caramelo” levanta algumas questões importantes para o cinema de gênero (no caso, o melodrama cômico-agridoce). Numa olhada inicial, é um passatempo gostoso. A beleza estonteante das atrizes – que salão de beleza no mundo reuniria tantas mulheres lindas por metro quadrado? – e a luz “caramelada” garantem o prazer visual; a naturalidade do elenco, o timing cômico da montagem (observe a seqüência da depilação do guarda de trânsito) e o roteiro cheio de gracejos proporcionam diversão descompromissada. Para muita gente, esses atributos já garantem a qualidade de um filme.

No entanto, uma olhada mais atenta por baixo da superfície aponta problemas. A previsibilidade do enredo é tão grande que um espectador minimamente versado no melodrama antecipa o fim de cada uma das cinco linhas narrativas, com precisão, antes dos 20 minutos de projeção. As tensões de ordem religiosa e sexual que permeiam a comunidade habitante das metrópoles orientais, como Beirute, ganham uma representação tímida, medrosa. Como num caramelo de verdade, “Caramelo” denota certa falta de substância, apesar dos sorrisos que abre na platéia.

A reflexão que o filme nos traz parte justamente dessa experiência paradoxal: como pode o mesmo filme nos proporcionar prazer e, no entanto, revelar tantos problemas quando submetido a uma análise um pouco mais densa? Uma das respostas possíveis pode estar na questão do gênero. Nesse ponto, o cinema é diferente das artes clássicas; o prazer (e portanto o estímulo à construção do gosto) pode ter relação direta com a satisfação do reconhecimento de certos aspectos formais e narrativos pela platéia.

Num outro nível, também é possível levantar a questão do olhar feminino dirigido ao Oriente Médio, tradicionalmente representado como uma sociedade opressora e agressivamente masculina. Talvez esteja aí o aspecto mais original – apesar de medroso – de “Caramelo”, que é a possibilidade de nos revelar uma cidade onde procissões católicas convivem pacificamente com famílias muçulmanas, e onde mulheres lindas podem andar maquiadas e paquerar timidamente com homens no meio da rua, ou com outras mulheres dentro do ônibus. Mesmo sem ir até o fim, o filme de Nadine Labaki sugere que há muito mais por baixo da superfície açucarada. Como num caramelo.

O DVD nacional sai com o selo da Imovision. Enquadramento original (widescreen anamórfico) e áudio (Dolby Digital 5.1) foram respeitados.

– Caramelo (Sukkar Banat, Líbano/França, 2007)
Direção: Nadine Labaki
Elenco: Nadine Labaki, Yasmine Elmasri, Joanna Moukarzel, Gisèle Aouad
Duração: 95 minutos

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