Caravaggio

29/05/2008 | Categoria: Críticas

Linda fotografia, que reproduz quadros do pintor renascentista com atores, já valeria o filme – mas há mais qualidades

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O artista italiano Michelangelo Caravaggio (1571-1610) é considerado, por boa parte dos estudiosos da pintura, como um precursor da arte moderna que viveu em pleno Renascimento. E esta não foi a única façanha que ele realizou, nos breves e intensos 39 anos em que viveu. Redescoberto no século XX, após quase três séculos de anonimato, o trabalho de Caravaggio é especialmente fascinante para amantes das artes cinematográficas. Diretores de fotografia bebem com freqüência nos seus trabalhos para criar um estilo expressionista de iluminação, baseado em violentos contrastes entre luz e sombra. Sem querer, nas duas décadas em que esteve ativo como pintor, ele inventou a luz ideal para o cinema. Por isso, a cinebiografia “Caravaggio” (Reino Unido, 1986) praticamente exigia uma abordagem que valorizasse a fotografia.

Dirigida pelo cineasta experimental Derek Jarman, a biografia do pintor italiano dribla o escasso orçamento através de uma narrativa poética e etérea, em que belos versos criados pelo diretor (e narrados em off durante todo o longa-metragem, como se fossem os pensamentos de um moribundo) surgem como moldura das imagens extraordinariamente vívidas pintadas pelas lentes do fotógrafo Gabriel Beristain. Através de um brilhante trabalho com cores e luzes, Jarman consegue traduzir em imagens a personalidade violenta e irrequieta do renascentista, colocando-o na galeria dos artistas sensíveis, do time de Arthur Rimbaud, cuja compulsão pela autodestruição é, ao mesmo tempo, o dínamo criador e a semente de sua própria destruição.

Os fatos que se conhece sobre a vida de Caravaggio, claro, confirmam a abordagem do diretor. O artista nasceu numa família de posses, mas se acostumou a viver na rua, num ambiente boêmio e violento. Nunca estudou. Gostava de bebedeiras e costumava se meter em brigas fenomenais, sempre acompanhado de uma faca afiada – ele matou um homem em 1606, e passou a ser perseguido por diversas cidades italianas, até morrer assassinado, quatro anos depois. Costumava usar putas, mendigos e cafetões como modelos vivos para os quadros religiosos que pintava, o que escandalizou bispos e cardeais da época. Mesmo assim, tinha tanto talento que foi financiado pela Igreja Católica até a sua morte.

Derek Jarman, gay assumido que nunca escondeu sua militância na boemia, levando uma vida desregrada que o mataria de AIDS em 1994, é o diretor ideal para biografar um personagem assim. “Caravaggio” é seu filme mais convencional, seguindo uma estrutura narrativa típica dos dramas biográficos (a ação dramática é contada em retrospectiva, pelo artista no leito de morte, através de longos flashbacks). Todo o resto, contudo, foge às regras habituais do cinema comercial, a começar pela belíssima fotografia, que procura reproduzir, nos momentos mais importantes, pelo menos uma dúzia dos mais conhecidos – e impressionantes! – quadros do artista italiano. As atuações cruas e energéticas do ótimo elenco, que inclui os ainda desconhecidos Sean Bean e Tilda Swinton, agregam ao filme o senso exato de perigo e excitação que permeava o estilo de vida do artista.

Inteligentemente, Jarman insere na narrativa muitos elementos visuais contemporâneos, como motocicletas, automóveis, lâmpadas elétricas, calculadoras e máquinas de escrever. Ele o faz, contudo, com discrição, apenas sugerindo ao espectador toda a modernidade do espírito de Caravaggio. O artista seria uma espécie de roqueiro avant la lettre, um artista punk em pleno Renascimento. É importante assinalar, também, que há muito de lenda e outro tanto de ficção no longa-metragem, e que boa parte dos fatos mostrados na tela, especialmente no terceiro ato, não aconteceram exatamente como mostrado. Não importa muito. Como experiência cinematográfica e banquete para os olhos, “Caravaggio” é uma maravilha. E o desempenho de Nigel Terry no papel-título é absolutamente avassalador.

O DVD nacional, da Spectra Nova, tem qualidade bem ruim. Não há extras, e as imagens parecem desbotadas, apesar de respeitarem o formato original (widescreen 1.85:1). A trilha de áudio é Dolby Digital 2.0. As legendas também falham em diversos pontos, eliminando diálogos e apresentando traduções incorretas em outros.

– Caravaggio (Reino Unido, 1986)
Direção: Derek Jarman
Elenco: Nigel Terry, Sean Bean, Tilda Swinton, Robbie Coltrane
Duração: 93 minutos

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