Carmen de Godard

14/11/2005 | Categoria: Críticas

Adaptação livre de ópera reflete a irritação do cineasta com a indústria do cinema

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Para muita gente com conhecimento limitado do cinema francês, o nome de Jean-Luc Godard é sinônimo de filmes incompreensíveis, tediosos e chatos. “Carmen de Godard” (Prénom Carmen, França, 1983), adaptação livre da famosa ópera de Georges Bizet, engrossa o cordão dos que gritam impropérios contra o polêmico diretor. Foi feito na fase mais auto-indulgente do cineasta, quando ele enfrentava grandes dificuldades para coisas simples, como conseguir financiamento e filmar sem preocupações. O filme reflete a irritação e a decepção de Godard diante da mentalidade corporativa dos estúdios de cinema, e esse amargor o fez se fechar ainda mais. Daí a trama hermética do longa-metragem.

“Carmen de Godard” não conta uma história linear, mas uma principal e outra secundária, ligadas por cenas aparentemente sem nenhum nexo que mostram um mar revolto atirando ondas contra um paredão de pedras. O oceano, afinal, mostra-se localização onde se passa parte da trama principal, numa casa de praia. O casarão abriga um grupo de jovens assaltantes que se preparam para dar um golpe em um hotel de luxo. Entre os ladrões estão Carmen (Maruschka Detmers) e Joseph (Jacques Bonnaffé), namorados em pé de guerra. Ela é sobrinha de um certo cineasta, chamado Jean-Luc Godard (o próprio), que está acometido de uma doença e passa os dias num hospital. Godard é o dono da casa onde os assaltantes estão hospedados, e está sendo convencido por eles a realizar um documentário planejado pela sobrinha.

Provocante e agitador, o francês inova sobretudo ao colocar a si mesmo como parte da ação. O personagem que ele representa não é o Godard de carne e osso, mas um Godard ficcional que projeta os sentimentos do cineasta acerca de si mesmo. No filme, Godard é um homem solitário, hipocondríaco, amargo. O fato de aceitar um trabalho não-autoral, que não lhe inspira particularmente muita animação, talvez seja uma declaração do autor acerca da maneira como a maior parte dos diretores de cinema trabalham – como operários de uma construção que não lhes foi permitido planejar, ou arquitetar.

Além de narrar a história com poucas indicações de passagem de tempo, o que complica a compreensão, Godard deixa tudo mais nublado ao incluir uma segunda trama, em que um grupo de músicos clássicos ensaia uma peça de Beethoven. Costurando tudo isso, o mar revolto e insistente contra as rochas. Seriam as cenas de natureza uma representação metafórica de como o cineasta vê a relação de si mesmo com o cinema, sendo ele o oceano e a indústria cinematográfica, as pedras? É impossível dizer com certeza. Godard se recusa a explicar o que quer que seja. “Carmen de Godard” é feito de impressões incompletas, fragmentos de discursos. É o tipo de filme que exige do espectador a capacidade de juntar os cacos de informação e interpretá-los livremente.

As intenções do diretor francês ficam mais evidentes quando entra a dedicatória do filme: “pela memória dos filmes pequenos”. Aí, fica evidente que “Carmen de Godard” é uma afirmação política, ou ideológica, do cineasta, acerca do ofício em que milita. Mas aí, quando isso fica evidente, o filme já terminou – e de maneira inesperada. Você pode ver durante toda a projeção sinais evidentes de desleixo de Godard: atuações irregulares e teatrais em excesso, montagem caótica, personagens sem sobrenome que pegam emprestados os sobrenomes dos atores, e por aí vai. Se isso é sinal de desinteresse ou um elemento a mais para complicar o quebra-cabeças, fica a cargo do espectador/leitor decidir.

O DVD nacional tem a chancela da Aurora. O filme aparece com boa qualidade de imagem (wide 2.35:1) e som razoável (Dolby Digital 2.0). Além dos tradicionais cartazes, trechos de críticas e trailer, há um único extra: uma entrevista (legendada em português) com o fotógrafo Raoul Coutard (11 minutos).

– Carmen de Godard (Prénom Carmen, França, 1983)
Direção: Jean-Luc Godard
Elenco: Maruschka Detmers, Jacques Bonnaffé, Myriem Roussel, Jean-Luc Godard
Duração: 85 minutos

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