Carrie – A Estranha

13/02/2007 | Categoria: Críticas

Brian De Palma estuda a solidão adolescente em um sólido filme de horror cheio de atmosfera sinistra

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Diretor novato e sem muito poder na indústria cinematográfica, Brian De Palma teve que esperar por vários meses a liberação do orçamento necessário para filmar “Carrie – A Estranha” (EUA, 1976). Enquanto aguardava o sinal verde da Fox, ele passava os dias no apartamento em que morava, trabalhando na pré-produção e planejando extensamente cada seqüência, cada cena, cada tomada do longa-metragem. O resultado foi um filme de horror mais inteligente do que a média, cuja enorme sofisticação visual lhe conferiu uma atmosfera fantástica, mesclando religião e insanidade. “Carrie” permanece como um dos melhores produtos saídos da mente de De Palma.

Curiosamente, o filme foi erguido sobre um fiapo de trama que, nas mãos de um diretor mais direto e despojado (alguém de estilo clássico, como Clint Eastwood ou John Ford, por exemplo) talvez não rendesse um longa-metragem. Estilista e amante de tomadas refinadas, com movimentos elaborados de câmera e ângulos impossíveis, o jovem cineasta usou o tempo extra de projeção para criar tomadas longas (e muitas vezes impressionantes). Este recurso torna o ritmo do filme mais lento do que o normal, mas injeta suspense e atmosfera sombria à história. O resultado é uma lenta mas firme jornada crescente de tensão, que explode num clímax alucinante de sangue e fogo, acrescido de um epílogo surpreendente que acabaria influenciando quase todos os filmes de horror feitos dali em diante.

Os dois primeiros planos-seqüência de “Carrie” dão uma boa medida do virtuosismo de Brian De Palma. Na primeira tomada, a câmera sobrevoa uma quadra escolar onde dois times de garotas jogam vôlei. Aos poucos, o foco vai fechando numa das meninas, com os olhos arregalados e expressão de pavor. Ela é Carrie (Sissy Spacek, em interpretação magnética). A garota é alvo do time adversário e não consegue segurar a bola, que cai. O time dela perde, e a reação das outras colegas deixa claro que Carrie é o patinho feio da escola – uma solitária, uma criança freak com problemas de relacionamento. Em um único take, o diretor apresenta os principais personagens, indica o protagonista e informa sobre sua condição especial.

Corta então para o vestiário feminino. Ao som de música clássica, a câmera lenta passeia entre as garotas no banho. Muitas delas estão nuas – “Carrie” foi um dos primeiros filmes de Hollywood a mostrar nudez feminina frontal. Novamente, De Palma procura Carrie White, isolada num canto, tomando uma ducha. De repente, o sangue escorre entre as pernas da ruivinha. Ela faz uma careta de medo e corre, gritando, pelo banheiro, antes que as outras garotas percebam que é a primeira menstruação da menina, e que ela não sabe o que isto significa. Obviamente, temos aqui mais um episódio em que ela é ridicularizada sem piedade pelas companheiras de classe.

Em casa, como descobriremos a seguir, a situação não é melhor – a mãe de Carrie (Piper Laurie), uma fanática religiosa, fecha as portas do mundo para a filha, obrigando-a a rezar num cubículo escuro, diante de uma imagem icônica um tanto macabra (perceba que a estátua fará par com uma imagem sangrenta e inesquecível, no momento mais dramático do filme). O interior da residência, cheia de linhas curvas, cantos escuros e objetos religiosos, é um primor de direção de arte; lembra uma capela gótica com um toque sombrio e assustador. Também não demoraremos a saber que Carrie possui um poder telecinético especial, conseguindo mover objetos com a força do pensamento.

A conclusão óbvia: dê um poder destes a alguém solitário e cheio de traumas, e a vida deste alguém vai desembocar em uma tragédia de proporções avassaladoras que, como nos melhores filmes de Hitchcock (influência básica de Brian De Palma), somente o público consegue antecipar. Na verdade, “Carrie” é um filme sólido de horror, mas que funciona perfeitamente como um ótimo estudo da solidão e do alienamento dos adolescentes. O sucesso comercial e artístico da película deu impulso à carreira do cineasta, que depois optaria por fazer obras tão estilizadas e cheias de referências a filmes clássicos (sobretudo de Hitchcock) que acabariam por mantê-lo, infelizmente, no segundo escalão dos grandes cineastas dos anos 1970.

O DVD lançado pela Fox é interessante, apesar de simples. O filme tem boa qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem dois documentários, um deles sobre os atores (43 minutos) e outro enfocando o planejamento visual do filme (40 minutos), e dois featurettes, contendo informações sobre o musical inspirado no filme (6 minutos) e uma galeria animada de fotos (6 minutos). Infelizmente, o material extra – que é bem informativo e interessante – não está legendado.

– Carrie – A Estranha (EUA, 1976)
Direção: Brian De Palma
Elenco: Sissy Spacek, Piper Laurie, Nancy Allen, John Travolta
Duração: 105 minutos

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