Carros

23/11/2006 | Categoria: Críticas

Homenagem saudosista de John Lasseter ao pai é um filme deslumbrante e divertido para todas as idades

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Um letreiro exibido logo após a familiar vinheta de abertura com a luminária explica que “Carros” (Cars, EUA, 2006) comemora os 20 anos de fundação da Pixar. Neste período, o estúdio que revolucionou os filmes de animação só conheceu elogios: bilheterias cada vez mais gordas, recordes sucessivos, críticas superlativas e prêmios, muitos prêmios. Não deixa de ser irônico, portanto, que “Carros” seja ao mesmo tempo o projeto mais pessoal do fundador da companhia, John Lasseter, e a primeira recepção fria de crítica e público que um produto da grife Pixar recebe em duas décadas. O que é uma pena, já que a produção de US$ 70 milhões é um filme deslumbrante e divertido, perfeito para espectadores de todas as idades.

De fato, “Carros” foge um pouquinho à tradição da Pixar. E o motivo está justamente nas razões pelas quais o projeto é tão pessoal para Lasseter, tão pessoal que o fez cuidar da direção, cargo que ele não ocupava há quase dez anos. Mas que fique claro: “Carros” não sofre do mal de uma direção enferrujada, com o perdão do trocadilho. John Lasseter continua um grande diretor de animações, e o pessoal da área técnica da Pixar faz o trabalho perfeito que já nos acostumamos a ver. O fato é que Lasseter quis prestar uma homenagem ao pai, um mecânico que transmitiu ao filho uma paixão alucinada por automóveis e também pelo imaginário nostálgico de um período da história dos Estados Unidos que é desconhecida do público mais jovem. E essa opção se revela, no mínimo, arriscada.

O cineasta fundiu as duas paixões na história de um possante e jovem carro de corridas que se perde e vai parar numa cidadezinha esquecida pelo mundo, numa parte outrora importante do oeste do país. Talvez a aposta por ambientar grande parte do filme em um momento histórico que as pessoas desconhecem tenha se mostrado pouco eficaz para ser consumida por uma geração que não tem idéia do que foi a mitológica Rota 66. A primeira rodovia interestadual dos Estados Unidos era, nos anos 1950, a estrada mais importante do país, e a principal via de ligação entre o leste (Chicago) e o oeste (Los Angeles). A partir da década de 1970, porém, uma pista mais ampla e moderna foi construída, e a Rota 66 virou peça de museu. Atualmente, não passa de uma estrada deserta, cheia de mato e asfalto caindo aos pedaços, um território ideal para motoqueiros nostálgicos e saudosistas de plantão.

Mesmo assim, para a criançada estadunidense, “Carros” ainda possui uma atração importante, pois as longas seqüências de abertura e encerramento mimetizam o universo do circuito Nascar, a mais popular categoria automobilística do país. Para os brasileiros, contudo, esse detalhe não diz nada. Os baixinhos daqui não conhecem a Nascar e nunca ouviram falar na Rota 66. John Lasseter fincou sua trama em um imaginário essencialmente norte-americano, que fala ao coração dos adultos mas não tem ressonância emocional no seu público-alvo, as crianças. Talvez esses detalhes tenham sido responsáveis pela resposta tímida da audiência – é verdade que “Carros” chegou a liderar as bilheterias nos EUA por duas semanas, mas com números bem inferiores ao sucesso alcançado por “Procurando Nemo” e “Os Incríveis”, as duas produções anteriores da Pixar.

Porém, nada disso empata os méritos cinematográficos de “Carros”, um filme sedutor e emocionante. A história narra a jornada de Relâmpago McQueen, promissor novato na categoria principal do automobilismo americano, que pode se tornar o primeiro veículo estreante a ganhar o troféu da corrida mais cobiçada do ano. McQueen é um competidor deslumbrado, arrogante e sobretudo egoísta – um carro sem amigos. No meio da viagem para a Califórnia, onde vai acontecer a tal megacorrida, ele acaba se perdendo e indo parar em Radiator Springs, cidadezinha encravada no meio da Rota 66.

Trata-se de uma um lugar perdido no tempo, onde os habitantes – quase todos enferrujados modelos fora de linha – vivem apegados a um passado outrora glorioso, mas inapelavelmente esquecido. Na pressa de continuar viagem para a grande corrida, McQueen comete uma infração de trânsito, é preso e condenado a reconstruir a estrada principal do vilarejo. Durante o período da restauração, em que não pode deixar o lugar, a convivência com o novo pessoal vai colocá-lo em contato com valores para ele desconhecidos, como a importância da amizade e o respeito pelos mais velhos.

Do ponto de vista cinematográfico, o filme transita entre dois universos que não poderiam ser mais diferentes – e se sai maravilhosamente bem na transição. Lasseter utiliza estilos completamente distintos, na edição e na trilha sonora, para tentar colocar a platéia dentro de cada mundo. Assim, na abertura e no encerramento, quando está nos circuitos ovais da Nascar, o filme abusa de música pesada, guitarras distorcidas, muitos ruídos de fundo e luzes néon, além de utilizar um estilo de montagem estroboscópico, com tomadas rapidíssimas, que deixam o visual parecido com o de um videogame frenético.

Para o miolo da narrativa, que se passa na Rota 66, Lasseter imprime um ritmo mais calmo, contemplativo, clássico mesmo. As imagens se sustentam na tela por mais tempo, e a edição valoriza as tomadas panorâmicas e as paisagens. Há poucos ruídos de fundo, muitos sons da natureza, e a banda sonora recorre a standards de rock e jazz dos anos 1950. Calejado pelos 20 anos à frente de um estúdio, o cineasta também sabe fazer a transição entre estes dois mundos tão diferentes com muita elegância, de forma que o filme transforma-se em uma obra sólida, sem problemas de ritmo.

Pode ser um lugar-comum falar da qualidade da animação da Pixar, mas escrever sobre “Carros” sem mencioná-la seria quase uma heresia. O trabalho dos animadores, que chegaram a desenhar quase 43 mil modelos diferentes de carros para o filme, mostra mais uma vez que a Pixar está num patamar diferente das concorrentes. As paisagens do oeste americano, com rochas pontudas, cânions e estradas poeirentas, possuem um nível de detalhamento assombroso. O céu alaranjado do pôr-do-sol na Rota 66 poderia, tranqüilamente, ser inserido em um filme live action, com atores de carne e osso, sem que o público percebesse a diferença.

Uma das melhores e mais dinâmicas seqüências ocorre durante uma perseguição noturna, em que o xerife de Radiator Springs tenta alcançar Relâmpago McQueen. O trabalho dos animadores para acertar a difícil iluminação desta cena, por causa das inúmeras fontes de luz (com cores e direções que mudam a todo instante), comprova o nível de excelência da empresa. Como se não bastasse, as cenas de corrida nos circuitos ovais são exemplares – as câmeras colocadas em ângulo baixo chegam a ser atingidas, como numa transmissão da vida real, por minúsculos pedaços de borracha que largam dos pneus dos carros, no decorrer da prova.

No geral, é possível que “Carros” deixe a impressão de que é um filme longo demais para as crianças, com suas quase duas horas de duração. Não deixa de ser uma constatação importante, mas a duração tem um motivo justo: o tempo é necessário para desenvolver adequadamente o personagem principal, e para tornar crível sua jornada, a mudança no modo de pensar que ele experimenta. A decisão de não cortar as cenas para deixar o filme mais curto foi corajosa, mas tomada com critérios unicamente cinematográficos, algo louvável para uma época em que os estúdios parecem não ter olhos para outra coisa que não sejam os resultados nas bilheterias.

Além de tudo isso, o tradicional curta-metragem que abre todos os filmes da Pixar é um esquete belíssimo e certamente o mais engraçado de todas as prévias da Pixar desde “For the Birds”, que era exibido antes de “Monstros S/A” (e faturou um Oscar). O filminho abusa de cores fortes e insere um toque medieval para mostrar a disputa entre dois saltimbancos pela atenção de uma criança. Não há diálogos, e toda a história é narrada à moda das velhas comédias da década de 1920, com o uso da face e da expressão corporal dos personagens para comunicar suas emoções. Muito bom.

O DVD lançado no Brasil pela Buena Vista é fraco. O filme está com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1), mas como o disco é simples a quantidade de extras é pequena. Há dois curtas-metragens (um deles é inédito; o outro foi exibido como prévia nos cinemas), galeria de cenas inéditas, um making of pequeno e comentário em áudio do diretor, além de jogos interativos para crianças.

– Carros (Cars, EUA, 2006)
Direção: John Lasseter
Animação (vozes de Owen Wilson e Paul Newman; no Brasil, com Daniel Filho e Priscila Fantin)
Duração: 114 minutos

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