Cartas de Iwo Jima

21/06/2007 | Categoria: Críticas

Choque de culturas é o tema crucial do filme de Clint Eastwood sobre o lado japonês da II Guerra Mundial

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

O aspecto mais importante de “Cartas de Iwo Jima” (Letters from Iwo Jima, EUA, 2006), segundo filme de Clint Eastwood que narra a batalha entre Estados Unidos e Japão pelo controle de uma ilhota de rocha e areia vulcânica, só emerge quando a película é colocada ao lado do irmão-gêmeo, “A Conquista da Honra”, também de 2006. Ambos são filmes de guerra estruturados de modo clássico – discrição e poucas palavras no retrato íntimo dos personagens, crueza e violência na hora das batalhas – que se esforçam para documentar o modo como cada lado do conflito o encarnava em espírito. Críticos ao redor do mundo se apressaram em compará-los (via de regra, a tendência é considerar este “Cartas de Iwo Jima” superior), quando de fato uma obra se beneficia da outra. Cada uma agrega à irmã um novo nível de significados que tornam o pacote completo mais rico e mais intenso – uma experiência cinematográfica completa.

No que se refere à filmagem da batalha em si, a investigação do conflito empreendida pelo veterano cineasta resulta num projeto vigoroso. Mais pragmáticos e cientes da importância simbólica da imagem, os norte-americanos são mostrados como homens esmagados pela culpa (ou por diferentes dimensões de culpa – por matar e por deixarem morrer) e por uma algo distorcida noção de heroísmo. Os japoneses, guerreiros zen de espírito mais nobre, são focalizados como homens presos a um modo oriental (um tanto incompreensível para nós, de cultura tão diferente) de incorporar à vida diária da guerra o conceito nipônico de lealdade, misturando-o com sangue e suicídio. São povos que pensam diferente, e Clint Eastwood respeita esta diferença, embora busque a todo custo um ponto de contato entre os dois lados: a humanidade.

A expressão-chave para compreender o conjunto das duas produções é diversidade cultural. Há, nitidamente, uma diferença na abordagem de Eastwood em ambos os filmes. Erra quem acredita que o cineasta tenta dar a “Cartas de Iwo Jima” o ponto de vista japonês da batalha. Não existe sequer resquícios de tal tentativa. Sábio, Eastwood sabe que seria impossível, para um norte-americano (qualquer um), apreender o espírito com que os japoneses encaravam a guerra. “Cartas de Iwo Jima” não procura emular um suposto olhar japonês, sendo muito mais o olhar de um estrangeiro que respeita a cultura do Japão. Por isso, o filme procura essencialmente o homem dentro da farda, tentando retratar nele o que há de universal – o sofrimento, a emoção e, sobretudo, o conflito entre servir o país e à família. O bem-estar individual e o coletivo são condições opostas, na situação em que se encontravam os 20 mil japoneses sitiados em Iwo Jima. Este conflito é encarnado especialmente pela figura trágica do general Kuribayashi (Ken Watanabe), o homem que coordenou as defesas japonesas na ilha.

Kuribayashi não era um militar comum. Havia estudado nos Estados Unidos e incorporado um pouco do modo americano, mais pragmático, de ver o mundo. Também não odiava o inimigo, e lamentava ter de enfrentá-lo. Numa das melhores cenas do filme, que é estruturado como um longo flashback salpicado por memórias isoladas do passado de cada personagem, o militar japonês relembra um jantar com oficiais norte-americanos, durante o treinamento em Los Angeles. Entre taças de vinho, um colega lhe pergunta o que faria se tivesse que enfrentar os EUA numa guerra. Kuribayashi responde que lutaria de coração pesado, mas sem hesitar. Questionado se o faria por si mesmo ou pelo país, devolve a pergunta: “Não é a mesma coisa?”. Para um japonês, sim. Para um ocidental, cuja cultura venera o hedonismo e o individualismo, provavelmente não.

De qualquer modo, fica evidente que o grande objetivo de Clint Eastwood não é meramente mostrar o lado japonês da batalha, ou apenas compreender os japoneses. Tudo é mais sutil e delicado do que isto. O diretor sabia que qualquer tentativa de emular o espírito japonês na guerra seria, mais do que ambiciosa, pretensiosa mesmo, além de simplista e insuficiente. O que Clint desejava era encontrar a condição humana dentro daqueles que participam da guerra, em qualquer dos dois lados. Americanos e japoneses são homens com pais, mães, mulheres e filhos, sonhos e esperanças, medos e pensamentos. Ao mostrar a face humana do inimigo, Eastwood explode os conceitos de certo e errado, de heróis e vilões, ou mesmo de culpa e lealdade. Os soldados representam culturas diferentes, modos diferentes de pensar, mas no fundo são iguais: seres humanos que caminham para a morte à espreita, mantendo uma vaga esperança de vencê-la.

Como experiência cinéfila, “Cartas de Iwo Jima” é mais agradável do que “A Conquista da Honra” porque é um filme melhor escrito (o roteiro foi desenvolvido pela nipo-americana Iris Yamashita, sobre argumento de Paul Haggis, com texto ancorado em cartas escritas pelos militares japoneses para suas famílias). O enredo se desenvolve de modo mais linear, e encontra tempo para desenvolver com densidade meia dúzia de personagens importantes. Além disso, os rostos desconhecidos dos atores (pelo menos para a platéia ocidental) dão ao espectador uma chance maior de desenvolver uma empatia maior por aqueles personagens. Sofremos por eles, torcemos por eles. O tratamento visual, com cores esmaecidas e câmera na mão nos momentos mais intensos, garante uma unidade visual com “A Conquista da Honra”.

Se isoladamente “Cartas de Iwo Jima” proporciona um ótimo espetáculo de cinema, ao lado do filme-irmão se transforma em um poderoso libelo pacifista. E o faz utilizando o lado emocional de cada membro da platéia, quando provoca empatia e identificação com gente dos dois lados da batalha. Reflita um pouco sobre a situação e perceberá aonde Clint Eastwood queria chegar: visto como um espetáculo único de quatro horas, o conjunto dos dois filmes nos faz enxergar os membros dos dois exércitos como seres humanos dignos. Seja americano ou japonês, nos identificamos com eles. Com olhos puxados ou não, reconhecemos nos dois lados gente como nós, gente que luta pela vida sem se encaixar em noções pré-concebidas como “vilões” ou “heróis”. Ao dar rosto, voz e emoções aos dois lados, Eastwood os estabelece como iguais a nós, implodindo qualquer justificativa humana da idéia de guerra. No processo, reafirma a si mesmo como cineasta gigante.

O DVD da Warner é bom. Traz o filme com ótima qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1), mais um documentário cobrindo os bastidores da produção.

– Cartas de Iwo Jima (Letters from Iwo Jima, EUA, 2006)
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Ken Watanabe, Kazunari Ninomiya, Tsuyoshi Ihara, Ryo Kase
Duração: 141 minutos

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