Cartola – Música para os Olhos

19/03/2008 | Categoria: Críticas

Estética irreverente do documentário realça a ginga boêmia e a alegria de viver de um dos maiores artistas da música popular brasileira

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Em certo momento de “Cartola – Música para os Olhos” (Brasil, 2007), documentário de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, um dos entrevistados narra um pitoresco episódio da vida de Cartola. Na ocasião, o compositor foi flagrado no quarto de uma amante pelo marido dela. Para ilustrar o caso, contado com malícia tipicamente carioca, os dois diretores pernambucanos usam o trecho de uma antiga chanchada de Oscarito, no qual uma situação idêntica é encenada pelo impagável comediante. A passagem ilustra perfeitamente a estética original, leve e irreverente que Ferreira e Lacerda utilizam para narrar a biografia de um dos maiores gênios da música popular brasileira.

“Cartola” passa longe da sisudez do documentário clássico. É representante legítimo da escola contemporânea do gênero, que abre espaço para experimentalismos e se afasta da narrativa tradicional, de objetividade quase jornalística. Não se pretende, aqui, contar uma história bem comportada, com começo, meio e fim. Costuradas de maneira mais lúdica, não-linear, as imagens de naturezas distintas (entrevistas antigas do biografado, cenas de shows, depoimentos de amigos e pesquisadores, arquivos de televisão, pedaços de filmes antigos, seqüências ficcionais com atores contratados, trechos de programas de rádio, fotografias) são organizadas em um mosaico bem adequado à ginga e ao espírito boêmio do biografado.

Aliás, o material reunido durante oito anos de pesquisa, extremamente rico e diversificado, não foi filtrado de acordo com o valor histórico das imagens. A edição final obedece apenas às necessidades da narrativa. Vale tudo. Não existe purismo aqui, mas liberdade, vontade de improvisar. A decisão de abolir a figura do narrador é apenas uma de muitas liberdades artísticas que, se desagrada aos apreciadores do documentário clássico, ajuda a atingir um objetivo maior do que simplesmente traçar a biografia de um artista. O filme de Lírio e Hilton mira em Cartola e acerta na geração inteira à qual ele pertenceu. Uma geração que se confunde com o samba da periferia, com a ginga e o cheio de suor dos negros, com o jeito malandro de falar e de levar a vida, batucando numa caixa de fósforos e tomando cerveja. Este é um filme que tem algo a dizer sobre identidade cultural.

Por si só, estas qualidades já valeriam uma conferida atenta, mas há muito mais. “Cartola” oferece uma verdadeira aula de montagem criativa, que dispensa créditos e narração em off, preferindo contar a vida do compositor de maneira bem pouco usual. A estrutura cronológica é respeitada, mas os diretores encontram sempre maneiras originais de contextualizar (e até mesmo comentar, com olhar crítico) as diferentes fases da vida do compositor. Quando o filme chega à década de 1950, quando Cartola passou alguns anos sumido, sem que ninguém soubesse por onde andava, a tela simplesmente fica negra, e o público ouve apenas o áudio do filme por alguns minutos. Há quem pense que se trata de defeito de projeção, mas não é – trata-se de opção estética para sublinhar a ausência de informações sobre o que fazia o compositor àquela altura da vida.

Em outro momento, Ferreira e Lacerda alternam imagens de bombardeios da II Guerra Mundial com Carmem Miranda cantando “Tico-Tico no Fubá”. Uma terceira passagem introduz um trecho de narração radiofônica do lendário segundo gol uruguaio, na final da Copa de 1950, apenas para ajudar o espectador a contextualizar o que acontecia no mundo, àquela altura da vida de Cartola. Mas o melhor exemplo da narrativa lúdica de “Cartola” talvez esteja a inclusão de cenas de soldados marchando, quando a narrativa adentra os anos 1960. A alusão ao golpe militar de 1964 é clara, assim como é óbvio o comentário irônico dos diretores a respeito do episódio histórico, já que essas imagens são invertidas na projeção, de modo que os soldados parecem andar para trás. A informação vem através da mais pura idéia de montagem: o choque de um plano com o próximo, acrescido do áudio, induz a um significado completamente novo, que não existe nos elementos isolados. Puro cinema, simples e fácil de entender, mas que exige participação do espectador na decodificação da mensagem.

A técnica cinematográfica, de primeira qualidade, está longe de ser o prato principal da refeição – está mais para entrada reforçada. As entrevistas, algumas históricas (o próprio Cartola, Stanislaw Ponte Preta) e outras deliciosas, repletas de casos divertidos contados pelos amigos biriteiros do sambista (Carlos Cachaça, Nelson Sargento), funcionam como aperitivo. A peça de resistência mesmo está nas músicas, para as quais o filme abre espaço generoso, nos intervalos dos depoimentos e casos. Várias canções são entoadas por intérpretes de qualidade comprovada (Beth Carvalho, Nara Leão), mas as melhores emocionantes aparecem na voz do próprio Cartola. Talvez o momento mais emocionante seja uma versão espontânea de “O Mundo é um Moinho”, entoada ao lado do pai. Ou “Nós Dois”, composta dias antes do casamento com Dona Zica, e cantada de frente para ela, que ouve calada, cheia de sorrisos maliciosos.

Mesmo com tantos predicados, o maior trunfo de “Cartola” é a recusa em pintar um retrato sofrido de Cartola. Seria fácil fazer isso. Nascido Agenor de Oliveira, em 1908, o compositor viveu na pindaíba a vida inteira. Foi um boêmio de carteirinha, desses que não liga para dinheiro. Levou uma vida repleta de mulheres e bebida e até teve um bar da moda, nos anos 1960, mas nunca guardou um centavo do que faturou. Compôs mais de 500 músicas, incluindo vários clássicos da MPB, mas só gravou o primeiro disco aos 66 anos, depois que, endividado e com problemas de saúde, precisou voltar a morar com o pai. Mesmo assim, nunca perdeu o bom-humor, a molecagem, o jeito boêmio e despreocupado de encarar a vida. O filme preserva, intacta, a alegria de viver de Cartola, algo que a estética irreverente até mesmo realça. Seria difícil fazer maior justiça a um dos artistas seminais para entender a idéia de ser brasileiro.

O DVD da Europa filmes traz como extra uma versão do filme para players portáteis estilo MP4. A imagem é boa (wide letterboxed) e o áudio OK (Dolby Digital 5.1).

– Cartola – Música para os Olhos (Brasil, 2007)
Direção: Lírio Ferreira e Hilton Lacerda
Documentário
Duração: 85 minutos

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