Casa de Areia e Névoa

17/05/2005 | Categoria: Críticas

Ben Kingsley e Jennifer Connelly brilham em filme triste sobre pessoas solitárias

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Coisas objetivas, palpáveis, são fáceis de mostrar em filmes. Podem demandar uma fortuna para serem realizadas, mas uma vez impressas em celulóide, o trabalho está feito. Se um diretor precisa filmar uma batida de carros, por exemplo, vai gastar centenas de milhares de dólares, mas a cena que sempre acaba mostrando exatamente aquilo que ele deseja: uma batida de carros. O desafio maior dos cineastas é um tipo de filme mais abstrato, porque mais intimista. É o filme sobre sentimentos, sobre sensações, sobre memória. Coisas subjetivas, que não têm imagens físicas. “Casa de Areia e Névoa” (House of Sand and Fog, EUA, 2003), do estreante Vadim Perelman, é um dos melhores longas-metragens dos últimos tempos a enfrentar esse desafio.

“Casa de Areia e Névoa” é um filme-irmão de “21 Gramas”, curiosamente outra produção norte-americana comandada por um diretor não-americano (no caso, o mexicano Alejandro Gonzáles Iñárritu), já que Vadim Perelman é russo radicado no Canadá. Os dois são filmes de atores, centrados em personagens complexos e sofridos, e possuem enredos efetivamente subjetivos.

Neles, a trilha clássica de narração de um longa-metragem comercial não encaixa. Não existe um protagonista só, muito menos um antagonista, ou vilão. Nada parecido com isso. De certa forma, saber como vai acabar “Casa de Areia e Névoa” não é tão importante como na maioria dos filmes. O final apenas encerra um período particularmente turbulento na vida dos personagens, mas a platéia tem a sensação de que a vida deles continua para além dos créditos. Esse é um dos maiores elogios que se pode fazer a um drama.

A faxineira Kathy Nicolo (Jennifer Connelly) é uma ex-viciada em drogas que vive sozinha, em uma casa modesta defronte para o mar, em San Francisco. Kathy está muito solitária desde que o marido a largou, oito meses antes. Tanta solidão lhe deixou em depressão, praticamente sem forças para viver. Ela se surpreende ao receber uma ordem de despejo da Prefeitura. Em tese, Kathy deve um imposto que, na realidade, está sendo cobrado de forma indevida há meses. Como não abre a correspondência, contudo, a garota toma um choque. Tardio. A casa, único bem que lhe resta, vai a leilão alguns dias adiante, a despeito dos desesperados esforços dela para que isso não aconteça.

O oficial iraniano Massoud Amir Behrani (Bem Kingsley) não conhece Kathy, mas suas vidas vão se cruzar depois que o coronel compra a residência. Ele não deseja morar lá, mas reformá-la e revendê-la a um preço quatro vezes maior, de forma a conseguir dar à família mais conforto. “Casa de Areia e Névoa” enfoca a batalha dessas duas pessoas comuns pela casa. O título do filme é uma beleza de múltiplos sentidos. A casa é de areia e névoa, na metáfora mais óbvia, porque fica na praia de San Francisco, onde a neblina cobre tudo nos dias frios. Mas existe um sentido mais profundo. Areia e névoa são elementos intangíveis, que não se pode possuir, pois escapam entre os dedos.

A casa é a chave da narrativa. Ela não passa de um bangalô modesto, mas representa mais do que simples moradia para os dois personagens. Para Kathy, a casa é a única ligação entre ela e a família, que ela tanto ama e que se mantém tão distante. Foi lá que ela passou a infância. Suas memórias moram lá. Um pedaço de sua alma se vai, quando é obrigada a deixar o lugar.

Para Behrani, é claro, a cabana não evoca nenhum laço afetivo, mas também é um símbolo poderoso. O coronel reformado a elege como o primeiro passo para deixar os subempregos e proporcionar à mulher e ao filho adolescente um padrão de vida mais digno. A vista para o mar, mesmo que longínqua, também lhe traz à memória um passado feliz – a casa de verão da família, que dava para o mar Cáspio. Por isso, Behrani não hesita em gastar alguns milhares de dólares construindo um terraço com vista para o oceano, mesmo sabendo que não vai permanecer o suficiente no lugar para desfrutar dela.

Para complicar tudo, há ainda um terceiro personagem. Lester Burdon (Ron Eldard) é xerife assistente do lugar, e um dos homens designados para expulsar Kathy do lugar. Ele a vê desamparada e sente pena, oferecendo ajuda. Lentamente, vai se apaixonar por ela. Entediado com a profissão e preso a um casamento frustrado com uma amiga de infância, Lester vê em Kathy a promessa de uma vida diferente. Por causa disso, se envolve diretamente na confusão e é, dentro todos, aquele que toma as decisões de maneira mais impulsiva e emocional.

O encontro desses três seres infelizes e solitários rende um drama triste, melancólico e emocionalmente forte. Como em um filme de Kieslowski, os personagens precisam, a todo instante, tomar decisões moralmente difíceis. Aqui, não há vilões ou mocinhos, mas apenas pessoas de carne e osso, com dilemas morais, pessoais e profissionais. Kathy é solitária e carente, mas também irresponsável e descontrolada. Por trás do autoritarismo de Behrani, existe um homem paciente e amoroso. Lester tem boa índole e vontade genuína de ajudar, mas deixa escapar traços de anti-semitismo nos momentos desesperados. A gente sabe que ele não é racista, mas a situação o guia para uma posição bem próxima a isso.

O roteiro de Perelman e Shawn Otto é excepcional. O texto conduz a ação sem jamais apelar para o piegas ou recorrer a clichês; os diálogos são ambíguos, serenos e profundos. O cineasta também teve o bom senso de fazer um filme sem malabarismos técnicos, de modo a deixar a platéia 100% envolvida com o drama humano que se desenrola na tela. Ainda assim, a tonalidade fria da fotografia de Roger Deakins aproveita a névoa do título para criar algumas imagens antológicas (observe a tomada em que o policial deixa a casa após uma discussão com Behrani; ele é apenas uma silhueta negra em meio à neblina, como um anjo vingador iluminado por um raio de luz).

Um filme como “Casa de Areia e Névoa” é uma bênção para os atores, e o casal Kingsley/Connelly sabe disso. Ele, veterano, compõe um Behrani atormentado, mas altivo e orgulhoso. O coronel manuseia uma britadeira no asfalto durante o dia e vende doces numa loja de conveniências à noite, para sobreviver, mas dirige um Mercedes e anda com ternos e gravatas impecáveis.

No lado oposto do esquadro, Jennifer Connelly mostra que é bem mais do que um dos rostos mais lindos de Hollywood. Sua voz baixa e pausada empresta a Kathy o ar de carente necessário para que a personagem seja convincente. Entre os dois, Ron Eldard mostra-se uma grata surpresa, interpretando com segurança. De resto, todo o elenco coadjuvante brilha, com destaque para a sensacional Shohreh Aqhdashloo, que faz a esposa de Behrani, a mais solitária de todas as personagens, porque além de ser imigrante não sabe falar inglês muito bem.

De tempos em tempos, alguns filmes aparecem para nos obrigar a refletir sobre os pequenos dramas da vida. São filmes sobre manter-se vivo, no fio da navalha, em meio a um emaranhado de escolhas morais que nem sempre podem ser tomadas da maneira correta. “Sobre Meninos e Lobos” fez isso de forma magnífica em 2003, e foi reconhecido no Oscar (troféus merecidos para Sean Penn e Tim Robbins). “Casa de Areia e Névoa” está no mesmo nível. Talvez não tenha tido grandes bilheterias, e nem faturado prêmios importantes, por ter sido dirigido por um estreante. Mesmo assim, é um grande filme.

A Warner lança o filme no Brasil em edição espartana, que respeita os formatos originais de áudio (Dolby Digital 5.1) e vídeo (widescreen anamórfico), mas não tem extras.

– Casa de Areia e Névoa (House of Sand and Fog, EUA, 2003)
Direção: Vadim Perelman
Elenco: Jennifer Connelly, Ben Kingsley, Ron Eldard, Shohreh Aqhdashloo
Duração: 126 minutos

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