Casa de Areia

11/04/2006 | Categoria: Críticas

Andrucha Waddington constrói épico silencioso com belas imagens e roteiro criativo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Uma casa invadida por um mundo de areia. Uma imagem melodramática como esta poderia, nas mãos de um cineasta inexperiente ou inseguro, ser ponto de partida para um filme lacrimoso, exagerado ou simplesmente confuso. Mas Andrucha Waddington é um dos diretores de maior sensibilidade do Brasil, e isso faz toda a diferença. O desesperado grito mudo de socorro “Casa de Areia” (Brasil, 2005) é um excepcional estudo de personagens femininos que evocam um tema tão velho quanto universal: o embate entre duas forças desiguais – o homem e a natureza – em que a primeira não tem a menor chance de vencer.

A narrativa de “Casa de Areia” é lenta, reflexiva, quase insuportável. E isso não é um defeito, mas uma das muitas qualidades no longa-metragem, porque é exatamente dessa maneira que as duas personagens principais se sentem. Andrucha Waddington também foi muito feliz nos dois principais vértices de uma produção cinematográfica, a fotografia e o roteiro. Nos belíssimos planos gerais que enfatizam a vastidão do deserto branco dos Lençóis Maranhenses, Waddington encontrou a imagem visual perfeita para emoldura o drama sufocante de Áurea e das duas Marias, interpretadas em épocas diferentes por Fernanda Montenegro e Fernanda Torres.

O filme cobre quase 60 anos de trajetória na vida de três gerações de mulheres. Ele começa em 1910, quando uma caravana aporta nas terras desoladas do Maranhão. O português Vasco de Sá (Ruy Guerra) comprou um naco de terreno no lugar e deseja montar uma pequena fazenda. Não saiba, no entanto, que o ambiente era tão inóspito. Grávida, a mulher Áurea (Fernanda Torres) quer voltar para a capital, mas o marido não deixa. Logo, ele morre em um acidente. E Áurea, acompanhada da mãe, Dona Maria (Fernanda Montenegro), decide ir embora. O problema é encontrar uma maneira de sair daquela imensidão labiríntica de deserto. Ninguém impede, mas elas não conseguem sair. Lembra uma versão menos surreal de “O Anjo Exterminador”, do mestre espanhol Luís Buñuel, em que burgueses não conseguiam deixar uma mansão onde ocorriam uma festa, apesar de ninguém os impedir.

O que se segue é uma verdadeira saga, montada em um filme delicado e narrado com muita firmeza. A trajetória de Áurea (que, na segunda metade do filme, já em 1945, passa a ser interpretada por Fernanda Montenegro) lembra um bocado de histórias épicas sobre a relação entre homem e natureza. O romancista Ernest Hemingway fez isso no antológico “O Velho e o Mar”. O cineasta japonês Akira Kurosawa também visitou o tema no belo “Dersu Usala”. Há ecos de “Moby Dick”, de Herman Melville, e também uma visível homenagem a David Lean, cujos épicos “Lawrence da Arábia” (pelas grandes panorâmicas do deserto) e “Doutor Jivago” (pela narrativa episódica que cobra vários anos) são referências importantes.

O trabalho de Ricardo Della Rosa é estupendo. A areia branca maranhense foi fotografada em tons brancos, quase imaculados, com luz esfuziante; já as tomadas noturnas saíram negras, cheias de sombras, inesquecíveis. O filme vive de alternâncias radicais. Brincando com o excesso e a falta de luz, Della Rosa também alterna panorâmicas que abrem generoso espaço para o céu azul opressor (“o que não é chão aqui é céu”, diz Áurea, em certo momento) com espantosos closes dos rostos castigados e sofridos das duas mulheres, Andrucha Waddington dá ressonância ao estado emocional devastado das protagonistas com imagens da natureza implacável do lugar. Os planos que mostram a areia invadindo lentamente a choupana das mulheres são desesperadores.

De nada adiantaria um desfile impecável de belas imagens se o longa-metragem não tivesse um texto forte. O roteiro de Elena Soárez não precisa de muitas palavras para transformar uma história trágica em épico humanista de peso. Pelo contrário. Os diálogos são raros. Quando acontecem, no entanto, estão cheios de uma sabedoria instintiva, que não precisa ser explicada ou compreendida, mas sobretudo sentida. Em uma belíssima cena, por exemplo, Áurea revê antigas fotografias em São Luiz e pára diante da imagem dela diante de um piano. “A música é aquilo do que mais sinto falta”, comenta com a filha pequena. A criança, que jamais ouviu uma canção, retruca: “O que é música?”. Áurea pensa um pouco e responde baixinho, quase que para si própria: “É difícil explicar”. Não precisa. O olhar cabisbaixo quase leva a platéia às lágrimas.

Um dos elementos mais criativos do roteiro está na maneira encontrada pela roteirista para assinalar a passagem do tempo. Como não possuem relógios ou calendários (“Que horas são?”, pergunta a filha. “Eu não sei nem o mês…”, responde a mãe), os personagens vivem em uma espécie de dimensão alternativa, em que o tempo está parado. A platéia, no entanto, sabe que o início da ação acontece em 1910, pois é possível ver, em um breve plano noturno, o cometa Halley voando sobre o céu maranhense. Já em 1919, quando encontra uma caravana de cientistas e militares no areal, Áurea presencia um eclipse total da lua. É também no céu que personagens e platéia descobrem o salto da ação para 1945, quando aviões da Segunda Guerra Mundial sobrevoam o labirinto de areia. Todos são exemplos perfeitos de uma das mais difíceis tarefas cinematográficas, que é fazer o público compreender grandes elipses sem precisar utilizar legendas.

”Casa de Areia” é um triunfo técnico tão perfeito que até mesmo a edição de som ganha um enorme destaque no filme. Com trilha sonora esparsa e quase minimalista, algo adequado a um filme que se passa inteiramente em cenários naturais onde a tecnologia não existe, Andrucha Waddington optou por preencher todos os espaços sonoros com ruídos do vento soprando e da areia se movendo. É o som incessante da natureza monótona e agressiva do lugar que dá o toque final da louca trajetória de Áurea e Maria. O som complementa e dá profundidade emocional às longas tomadas da natureza que preenchem grandes partes do longa-metragem.

Por fim, como se sabe, seria impossível criar um épico de escala humana sem um elenco à altura dos desafios técnicos enfrentados pela equipe do filme. Mãe e filha, Fernanda Torres (premiada em Cannes) e Fernanda Montenegro (vencedora em Berlim) dispensam apresentações. Estão perfeitas. Ganham a companhia impressionante do músico Seu Jorge, cada vez mais à vontade no papel de ator depois de ótima estréia no cinema em “Cidade de Deus”. Aqui, ele interpreta Massu, descendente de escravos que fundaram um quilombo no areal e jamais saíram de lá. Massu é o companheiro das mulheres na rotina enervante do lugar. Ele coroa um elenco consistente, que sublinha de maneira linda uma das histórias mais trágicas que o Brasil já mostrou em uma tela de cinema.

O DVD da Sony é bem legal. Traz o filme com o enquadramento preservado (wide anamórfico), som de boa qualidade (Dolby Digital 5.1) e um making of sobre a produção.

– Casa de Areia (Brasil, 2005)
Direção: Andrucha Waddington
Elenco: Fernanda Torres, Fernanda Montenegro, Seu Jorge, Luiz Melodia
Duração: 103 minutos

| Mais


Deixar comentário