Casablanca

27/01/2008 | Categoria: Críticas

Maior de todos os filmes de estúdio oferece diálogos imperdíveis e é capaz de arrasar corações

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

“Nós sempre teremos Paris”. Quando Humphrey Bogart dirige essa frase a uma Ingrid Bergman no esplendor de sua beleza, o público sempre fica à beira das lágrimas. Sempre. Não importa quantas vezes você tenha assistido a “Casablanca” (Casablanca, EUA, 1942), o nó na garganta é certo como a noite depois do dia. “Casablanca”, eleito em 2000 como o segundo melhor filme da história do cinema pelo prestigiado American Film Institut, é o maior de todos os triunfos da história de Hollywood.

Digo isso porque, ao contrário da maioria dos grandes clássicos do cinema, o filme de Michael Curtiz não é obra de um autor genial ou de uma equipe visionária. Não tem nenhuma semelhança, por exemplo, com “Cidadão Kane”, o nº 1 da mesma lista. “Kane” saiu da cabeça de um gênio, Orson Welles, enquanto “Casablanca” foi concebido por empresários. Era um filme de estúdio, uma produção como outra qualquer. Não havia ambição artística por trás da equipe criativa de “Casablanca”. Curtiz, Bogart e todos os envolvidos no filme foram contratados pela Warner, que pensava estar produzindo mais um das dezenas de melodramas que saíam do forno da companhia todos os anos, como carros numa linha de montagem.

A sucessão de coincidências que transformou “Casablanca” no maior de todos os romances já levados à tela é simplesmente inexplicável. Existem tantas lendas em torno da produção que é impossível relatar todas; boa parte delas é convenientemente esmiuçada nos documentários do excelente DVD duplo que comemorou os 60 anos de produção do longa-metragem. Esse disco, indispensável na videoteca de qualquer casal apaixonado, pode ser encontrado com certa facilidade no mercado brasileiro. A Warner também lançou uma versão simples, apenas com o filme.

As filmagens de “Casablanca” poderiam ser descritas em uma palavra: caos. O roteiro, por exemplo, foi escrito em plena locação pelos irmãos Julius e Philip Epstein. Os dois redigiam os diálogos nos bastidores e, a cada noite, entregavam as falas que seriam ditas pelos atores no dia seguinte. Dessa indefinição veio boa parte do azedume de Humphrey Bogart que aparece; o ator ficava irritado ao interpretar sem saber o que seu personagem faria no dia seguinte.

O estilo mordaz da dupla de escritores não agradava muito aos produtores, e por isso Howard Coch foi contratado para escrever o longo flashback que, no meio do filme, revive os dias felizes de Rick (Bogart) e Ilse (Bergman) em Paris. Coch redigiu sua parte na trama ser ler o que os irmãos Epstein estavam fazendo, e vice-versa. É impressionante que a soma dos dois trechos tenha ficado tão fluida.

Quando o filme começa, Rick é o amargo proprietário do maior bar de Casablanca, no Marrocos. Um homem não pode ser mais cínico do que ele. Na pele do sujeito que não acredita em amizade verdadeira, jamais bebe no trabalho e faz troça de qualquer ser que ande sobre duas pernas, Bogart recita alguns dos diálogos mais inteligentes que jamais foram escritos. “Você me despreza, não?”, lhe pergunta Ugarte (Peter Lorre, em ponta sensacional), um trapaceiro da região. “Desprezaria, se pensasse em você”, dispara Rick. Está aí um cara capaz de fazer Indiana Jones parecer um lorde inglês.

A razão de tanta amargura entra pela porta do Rick’s Cafe após cerca de 30 minutos de filme. Ilsa (Bergman) é a mulher de um importante líder da Resistência aos nazistas, Victor Laslo (Paul Henreid). Ela entra no bar, reconhece o pianista negro que entretém os clientes e lhe pede para tocar uma canção, “As Time Goes By”. É o início de um reencontro que deixou milhões de pessoas, em todo o mundo, com os olhos marejados de lágrimas.

O mais irônico de tudo é que a lendária canção não foi composta para o filme. Ela já tinha sido lançada há anos, sem fazer sucesso. Mas Ingrid Bergman gostava dela, e a citou no diálogo com o pianista Sam (Dooley Wilson) porque a música-tema de “Casablanca” ainda não tinha sido criada. Só quando foi montar o filme é que o diretor Michael Curtiz percebeu que Bergman havia pronunciado o nome da canção errada. Ele então pediu que Ingrid retornasse aos sets para refazer o diálogo. A atriz voltou, mas havia cortado os cabelos para encarnar uma personagem em outro filme, e a cena não pôde ser refeita. Por causa disso, “As Time Goes By” acabou imortalizada – e alguém é capaz de imaginar “Casablanca” sem esses versos mágicos?

Apesar de todos esses atropelos, o filme de Michael Curtiz tem grandes exemplos de cinema criativo. Observe, por exemplo, a seqüência em que Victor Laslo pára uma importante discussão com Rick para incitar os freqüentadores do bar a cantar o hino da França, interrompendo a música nazista que estava sendo cantada pelo oficial nazista encarregado de prendê-lo. É uma seqüência que diz muito mais do que mostra, e sem palavras – elas são desnecessárias. Nos grandes filmes, as palavras apenas complementam as imagens. É o caso aqui.

“Casablanca” é um filme quase perfeito, que consegue esconder inteiramente a bagunça dos bastidores. Mas, verdade seja dita, muitos acertos foram intencionais, como o final, capaz de arrancar lágrimas de uma pedra. O elenco esplêndido e a fotografia carregada de sombras, feita sob inspiração direta dos filmes expressionistas alemães, dão ao filme o tom agridoce que ele exige para disparar o romântico escondido em cada espectador. Esse é o maior mérito do filme: ele consegue operar, no coração da platéia, a mesma mudança que causa no íntimo de Rick. Poucos filmes conseguem impor uma identificação tão forte entre platéia e personagem.

Para ser lançado em DVD, a película passou por uma criteriosa revisão, que lhe devolveu o forte contraste de pretos e brancos na imagem. O som, disponível em Dolby Digital 2.0 mono, é forte e claro. E o material extra oferece um farto material para o espectador compreender a importância histórica de “Casablanca”. No disco 1, há dois comentários em áudio, um do crítico Roger Ebert e outro do historiador Rudy Behlmer (infelizmente não legendados).

O disco 2 tem uma tonelada de bônus. O principal é um documentário (87 minutos) que cobre toda a carreira do astro Humphrey Bogart, cuja persona cinematográfica – o homem cínico, que tem sempre uma resposta na ponta da língua – foi definida por “Casablanca”. A mulher de Bogart, Lauren Baccall, apresenta o programa.

Os filhos deles e de Ingrid Bergman trocam lembranças sobre o filme em uma vinheta de seis minutos. Um lendário desenho animado de Pernalonga faz paródia do filme e arranca muitas risadas. Há cenas excluídas (dois minutos), erros de gravação (cinco minutos), uma audiopeça com Bogart e Bergman reprisando os papéis e um ótimo documentário de bastidores (35 minutos). Um disco que faz a delícia de qualquer cinéfilo.

– Casablanca (Casablanca, EUA, 1942)
Direção: Michael Curtiz
Elenco: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Claude Rains, Peter Lorre
Duração: 102 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »