Casal Osterman, O

03/11/2005 | Categoria: Críticas

Lançamento duplo da Flashstar é o canto do cisne irregular do grande diretor Sam Peckinpah

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Os problemas do diretor Sam Peckinpah com álcool e drogas, bem como suas brigas intermináveis com produtores e atores, forçaram uma retirada involuntária do cineasta em 1978. Atropelado pela fama de maldito que construíra, ele simplesmente não conseguiu mais trabalho, e passou a ganhar a vida como diretor de segunda unidade para o amigo Don Siegel. Em 1983, no entanto, uma dupla de ambiciosos produtores novatos estava atrás de um diretor de renome que custasse barato e topasse dirigir um thriller de espionagem. Desse encontro surgiu “O Casal Osterman” (The Osterman Weekend, EUA, 1983), o irregular canto do cisne de um dos diretores mais inovadores e influentes do fim do século.

O filme faz parte de um subgênero muito popular por ocasião de sua produção, o filme de espionagem baseado em romances de autores populares como Frederick Forsyth, John Le Carré e Robert Ludlum. O livro que originou “O Casal Osterman” foi escrito por este último. A história se concentra em um tenso final de semana na casa de um popular apresentador de TV. John Tanner (Rutger Hauer) recebe de um agente da CIA, Lawrence Fassett (John Hurt), a estranha missão de tentar convencer um grupo de amigos de faculdade a trabalhar como agentes duplos.

O fim de semana no campo é uma tradição do quarteto de amigos desde os tempos da faculdade. Uma vez por ano, eles se reúnem e se isolam do mundo, bebendo e brincando juntos para relembrar os velhos tempos. Uma semana antes do grande evento, porém, a aparição de Fassett dá um nó na cabeça de Tanner. O agente da CIA tem fitas de vídeo que aparentemente comprovam uma grave acusação: os três amigos do apresentador estão passando segredos dos EUA para a Rússia. Mas a CIA não deseja prendê-los; quer que atuem na contra-espionagem, enviando falsos segredos para os russos e expondo espiões dos soviéticos nos EUA. A missão de Tanner, um fervoroso entusiasta da democracia norte-americana, é concretizar o desejo da CIA. O que ele não sabe é que as intenções verdadeiras de Fassett podem não ser tão nobres.

Apesar do início frouxo, desnecessariamente complicado, o estilo inconfundível do mestre Sam Peckinpah entra em ação a partir do isolamento dos amigos na casa de campo. Pouco ante sdo acontecimento, o diretor dá um jeito de tornar o encontro entre amigos um evento sufocante, claustrofóbico, a partir de um atentado cometido contra a vida da esposa a e do filho pequeno do apresentador de TV. Com medo, o jornalista leva os dois para a casa de campo, algo que não queria fazer. Ele teme pela vida dos dois, mas ainda assim se sente na obrigação de colaborar para que a CIA consiga seu objetivo. A partir desse momento, “O Casal Osterman” se torna um filme tenso, ao qual o jeito estilizado que Peckinpah tem de filmar se adequa perfeitamente.

Os admiradores do cinema do diretor de “Meu Ódio Será Sua Herança” são quase unânimes em considerar “O Casal Osterman” como o pior filme dele. É provável que seja verdade, embora ainda assim a película esteja longe de ser ruim. A marca registrada do diretor – uma montagem rigorosa, com uso farto de câmera lenta – está presente nos melhores momentos, que incluem uma perseguição de carro e um clímax eletrizante dentro da piscina da casa de campo. O maior problema está no roteiro, que apresenta furos grandes demais para serem ignorados (qual a razão que Fassett teria para manter a família de Tanner dentro da casa de campo, por exemplo?). De qualquer forma, o elenco de estrelas dá conta do recado. Peckinpah merecia um canto do cisne à altura do seu talento, mas “O Casal Osterman” ainda é um thriller passável, com cenas de ação de bom nível.

Este talvez seja o lançamento mais caprichado da Flashstar no Brasil. O pacote é duplo. O primeiro disco traz o filme, com ótima qualidade de imagem (wide 1.85:1) e som de primeira (Dolby Digital 5.1). Os canais surround têm ação discreta, mas garantem a tridimensionalidade sonora. O disco 2 traz, além do trailer obrigatório, um excelente documentário (79 minutos), feito em 2004, onde produtores, profissionais envolvidos e todo o elenco (exceto Dennis Hopper) falam sobre a experiência e conta casos dos bastidores. O documentário tem legendas em português.

– O Casal Osterman (The Osterman Weekend, EUA, 1983)
Direção: Sam Peckinpah
Elenco: Rutger Hauer, John Hurt, Craig T. Nelson, Dennis Hopper
Duração: 103 minutos

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