Casamento de Rachel, O

05/07/2009 | Categoria: Críticas

Drama familiar de Jonathan Demme é filme forte, adulto, que testemunha a devastação emocional de uma mulher de maneira intimista e profundamente triste

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Festas de casamento constituem uma ferramenta narrativa muito útil para roteiristas e diretores. Esse tipo de reunião familiar, especialmente quando se juntam parentes que não se vêem com muita freqüência, quase sempre termina, no cinema, em “lavagem de roupa suja”. Além disso, famílias disfuncionais têm espaço garantido no cinema independente norte-americano desde a década de 1970, como nos ensinam os trabalhos de John Cassavetes. Em “O Casamento de Rachel” (Rachel Getting Married, EUA, 2008), o cineasta Jonathan Demme segue fielmente essa tradição, criando um filme forte, adulto, que testemunha a devastação emocional de uma mulher de maneira intimista e profundamente triste.

Na verdade, o nome de Cassavetes salta naturalmente aos olhos dos bons observadores, e nunca é demais lembrar do pequeno clássico “Uma Mulher Sob Influência” (1974), em que Gena Rowlands interpretava uma dona-de-casa sofrendo de graves distúrbios psicológicos por causa de ansiedade e solidão. É uma situação razoavelmente semelhante à vivida por Kym (Anne Hathaway), garota jovem e bonita, que acaba de ganhar autorização para sair da clínica para dependentes químicos onde está internada há meses, a fim de participar da cerimônia de casamento da irmã Rachel (Rosemarie DeWitt), durante um final de semana.

A simples presença de Kym na luxuosa mansão, contudo, serve como catalisador de uma série de traumas e emoções reprimidas que cada um dos membros da família tem feito esforço hercúleo para superar, inclusive ela mesma. Tudo isso porque, alguns anos antes, a dependência química de Kym provocou um acidente que matou o filho caçula e desmontou por completo as relações interpessoais do clã. Se a mera aparição de Kym já é capaz de reativar o poço de ressentimento, culpa, ciúmes e inveja que une – ou desune – as irmãs com o pai (Bill Irwin) e a mãe divorciada (Debra Winger), imagine quando ela aparece, após meses em completo isolamento, com comportamento errático, compulsivo e à beira da histeria.

Aqueles que vêem em “O Casamento de Rachel” a sinopse perfeita de um filme-Sundance (aqueles longas pseudo-independentes que fazem humor agridoce brincando com famílias disfuncionais) estão longe da verdade. A diferença é que o filme de Jonathan Demme deixa de lado as tentativas de fazer graça e/ou ensinar lições moralistas para mergulhar de cabeça num universo quase naturalista de dor. O roteiro da estreante Jenny Lumet (filha do grande mestre Sidney) evita armadilhas comuns, como estereotipar os personagens com traços superficiais de caráter e providenciar exposição rasteira e verbal de informações importantes a respeito do passado da família.

Ao espectador, portanto, cabe reunir as poucas informações disponíveis sobre cada membro da família através de cenas esparsas e bem colocadas (como a tristíssima seqüência em que uma mera competição de lavar pratos reativa memórias doloridas para todo mundo), enquanto observa o comportamento cada vez mais inadequado de Kym, cuja vontade de se reintegrar ao núcleo familiar de forma forçada a torna volátil, imprevisível e perigosa. Tudo isso culmina com um par de grandes cenas: um discurso espetacularmente histérico e inadequado durante o ensaio de casamento, e uma duríssima discussão entre mãe e filha em que, numa explosão hormonal de conseqüências imprevisíveis, coisas que nunca devem ser ditas entre familiares são gritadas de parte a parte, com conseqüências que podem roçar mais uma vez a tragédia.

O longa-metragem marca o retorno de Jonathan Demme à boa forma, ele que após “O Silêncio dos Inocentes” (1991) fez uma série de filmes medianos, mas sem personalidade. As decisões do diretor contribuem para a qualidade superior do filme. Demme adota, por exemplo, um estilo de mise-en-scéne (organização dos elementos visuais da cena) casual e despojado, com câmera na mão e iluminação naturalista, além do completo descarte de música extra-diegética (ouvimos apenas as canções medievais executadas por um grupo de músicos que tocará no casamento e ensaia no quintal da casa). Tudo isso dá ao filme um tom de urgência documental que enfatiza ainda mais as armadilhas emocionais em que Kym vai se metendo, cena após cena, numa inacreditável seqüência de equívocos que pode se revelar irreparável.

“O Casamento de Rachel” é, ainda, auxiliado por um elenco em estado de graça, a começar pela protagonista, Anne Hathaway. Linda, frágil e sem a menor condição emocional para suportar os confrontos duros que provoca (sem querer), ela é a própria imagem da devastação irreversível que experimentam as pessoas semi-enloquecidas pela dor. Tunde Adebimpe, no papel do tranqüilo marido futuro de Rachel, e DeWiit (a irmã), não apenas têm química de casal mas oferecem desempenhos fortes. Bill Irwin compõe com perfeição talvez o personagem mais complexo de todos, o pai que esconde a própria dor para assumir com resignação o papel de elo de ligação entre os membros da família fraturada. De quebra, ainda tem a veterana Debra Winger, que faz uma rara aparição como a mãe ausente e divide uma das cenas mais impressionantes do longa com Hathaway.

O DVD da Sony Pictures contém o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica, respeitando o enquadramento original) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– O Casamento de Rachel (Rachel Getting Married, EUA, 2008)
Direção: Jonathan Demme
Elenco: Anne Hathaway, Rosemarie DeWitt, Bill Irwin, Tunde Adebimpe
Duração: 114 minutos

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