Casamento Perfeito, Um

21/08/2007 | Categoria: Críticas

Comédia deliciosa de Rohmer mostra a batalha de uma jovem para conquistar um homem

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O diretor francês Eric Rohmer possui uma idiossincrasia profissional que o destaca da maior parte dos outros cineastas: gosta de trabalhar agrupando os projetos que desenvolve em blocos temáticos. Quase toda a obra de Rohmer é dividida em ciclos de filmes, em que ele explora temas ligados às dificuldades de relacionamentos afetivos. Um desses ciclos, a que ele se dedicou durante a maior parte da década de 1980, é chamado de “Comédias e Provérbios”, e composto por seis títulos. “Um Casamento Perfeito” (Le Beau Marriage, França, 1982) é o segundo filme que integra este ciclo.

Via de regra, é possível afirmar que todas as comédias e provérbios de Rohmer guardam muita semelhança. Os seis filmes narram histórias de desencontros amorosos. Os personagens de Rohmer, invariavelmente tagarelas, adoram discutir a relação. Os filmes do francês são estruturados em torno desses diálogos, sempre com um toque levemente cômico. As cenas são extensas, filmadas em longas tomadas sem cortes, quase sempre em planos gerais. Rohmer não gosta muito de closes e nunca cede à tentação de enveredar por arroubos estéticos. Os filmes parecem ser feitos a toque de caixa, da maneira mais despojada possível.

Como em quase todos os longas assinados por Rohmer, “Um Casamento Perfeito” possui uma teatralidade genuína, e passa a impressão de ser fruto de sessões de improviso dos atores, por causa da coloquialidade do falar. Na verdade, não é bem assim. A escola de cinema do diretor francês valoriza o personagem, em detrimento da ação, e eles são desenvolvidos exaustivamente em ensaios, quando a mise-em-scéne é cuidadosamente elaborada. O protagonista, em particular, é sempre bem construído, o que lhe confere uma tridimensionalidade palpável.

Vivendo dramas universais, facilmente reconhecíveis pela platéia, os personagens de Rohmer deixam a impressão de serem pessoas de carne e osso, levando vidas que não se encerram com o fim dos filmes. É assim com Sabine (Béatrice Romand), uma bela e morena estudante de Arte que, aos 25 anos, está cansada de sair com homens casados. Após mais uma desilusão provocada pelo pintor (Féodor Atkine) com quem tem um caso, Sabine decide que precisa arrumar um namorado sério e casar. Todos os seus esforços serão concentrados neste objetivo, dali para adiante.

O próximo homem a lhe chamar a atenção é o advogado Edmond (André Dussolier), um sujeito educado, tímido e inteiramente devotado ao trabalho. Embora não demonstre nenhum sentimento especial pela garota, ele é o escolhido. Durante todo o restante do filme, a câmera de Rohmer se resume a acompanhar o planejamento e a execução das estratégias de Sabine para fazer o rapaz se apaixonar por ela. Trata-se de um trabalho delicioso, de alma feminina, muito agradável de ser ver – não é o tipo de comédia em que se ri o tempo todo, mas a empatia entre personagem e platéia é total, pois a situação que ela vive é universal – e, apesar de um pouquinho melancólico, bem otimista.

O DVD nacional, da Europa Filmes, é espartano: imagem razoável (fullscreen, formato original), áudio apenas OK (Dolby Digital 2.0) e nada de extras.

– Um Casamento Perfeito (Le Beau Marriage, França, 1982)
Direção: Eric Rohmer
Elenco: Béatrice Romand, André Dussolier, Arielle Dombasle, Féodor Atkine
Duração: 97 minutos

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