Casshern – Reencarnado do Inferno

09/10/2005 | Categoria: Críticas

Épico futurista japonês faz colagem pop de visual extravagante, mas não sabe onde parar

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Imagine um caldeirão de cultura pop que inclui o conto de Frankenstein, a lenda hebraica do Golem, ficções científicas espiritualistas, super-heróis asiáticos estilo Jaspion, lutas de artes marciais com atores pendurados em fios invisíveis, robôs gigantes, canções de heavy metal e música clássica, filosofia pós-moderna e efeitos digitais a dar com o pau. Algo como um encontro de “Capitão Sky e o Mundo do Amanhã” com “2001: Uma Odisséia no Espaço”, mais “Frankenstein” de Kenneth Branagh, com pitadas de “Matrix”. Imaginou? Bem, possivelmente você ainda não conseguiu chegar perto da ambiciosa colagem de influências presente em “Casshern – Reencarnado do Inferno” (Japão, 2004).

O longa-metragem de estréia do diretor de videoclipes e comerciais Kazuaki Kiriya é um bombardeio de imagens visualmente espetaculares, uma ficção científica extravagante cujas cores estouradas e cenários digitais gigantescos deixam Hollywood no chinelo. O filme de Kiriya é uma lição de como produzir um longa visualmente impossível, sem gastar milhões de dólares. Na verdade, o japonês utilizou a mesma técnica de “Capitão Sky”: gravou quase todas as cenas em um galpão de paredes azuis e depois, na pós-produção, inseriu os cenários e objetos de cena diretamente no computador.

O resultado é muito bonito, mas tão exagerado que ofusca. Em 2004, várias produções tiveram a mesma idéia, e é impossível não comparar “Casshern” com “Capitão Sky”, porque os dois diretores tiveram idéias muito parecidas. Existem seqüências inteiras em “Casshern” que parecem cópias de cenas da produção de Kerry Conran. A certo momento, por exemplo, um exército de robôs gigantes primeiro sobrevoa, e depois marcha para dentro de uma cidade, destruindo tudo o que vê pela frente. Até mesmo o design futurista dos robôs é parecido.

Só que existem diferenças gritantes entre os dois longas. Enquanto Conran se contentou em criar uma deliciosa e despretensiosa aventura inspirada em matinês dos anos 1930, Kiriya foi muito mais ambicioso. Criou uma espécie de épico futurista ao estilo japonês, com mensagem pacifista e pitadas de filosofia pop aqui e acolá, além de exageros visuais gritantes, conseguidos através da utilização de inúmeras técnicas para criar os cenários gigantes. Há um jardim paradisíaco, uma cidade semi-destruída e em guerra mostrada em sombrios tons monocromáticos de cinza, uma fortaleza de mutantes cuja iluminação faz pessoas adquirirem um brilho fantasmagórico como uma espécie de aura, e daí em diante. Tudo é muito bonito.

A trama, de certa forma, é apenas um pretexto para a imagem pacifista que o diretor e roteirista deseja passar. O filme tem vez em um futuro não especificado, quando o mundo não está mais dividido em países, mas em regiões que acabam de sair de uma guerra de 50 anos. A Eurásia venceu a guerra, mas partes inteiras das suas megalópoles permanecem em conflito, enquanto a Terra está mergulhada em fome, miséria, corrupção e poluição. Nesse cenário, o geneticista Dr. Kotaro Azuma (Akira Tearo) apresenta a proposta de estyudar o que chama de neo-células, um tecido especial que permite a criação de membros e órgãos sobressalentes para uso militar.

Durante a pesquisa em um enorme laboratório, um acidente fascinante e misterioso faz com quem os órgãos se agrupem aleatoriamente e criem vida, gerando uma raça de mutantes que passam a ser perseguidos pelo exército local. Os mutantes se auto-denominam “Neo Sapiens”, erguem uma fortaleza futurista fora dos limites do megapaís e entram em guerra contra a humanidade. Eles têm superpoderes e parecem invencíveis, mas o filho do Dr. Azuma, Tetsuya (Yusuke Iseya), pode ter a resposta para o problema.

Quem conhece as animações japonesas clássicas vai se lembrar imediatamente de “Akira”. Sim, existem semelhanças entre “Casshern” e o clássico desenho. “O Fantasma do Futuro” e sua discussão sobre o que é e o que não é humano também fornecem material para Kiriya erguer sua ambiciosa colagem filosófica. O maior problema da produção é, talvez, fruto da inexperiência do diretor, que não soube impor limites à própria imaginação e criou um filme que parece um carro desgovernado em alta velocidade. Não me refiro ao desenvolvimento da trama, que é bem lento para os padrões das aventuras de Hollywood, mas ao excesso de delírios visuais. Sim, os cenários são lindos, mas não têm coerência, e a mensagem pacifista é superficial demais para ser levada a sério.

“Casshern” teve lançamento no Brasil pelas mãos da pequena LK-Tel. O filme possui trilhas de áudio em japonês (Dolby Digital 5.1) e português (DD 2.0), e preserva a imagem no enquadramento original (wide 2.35:1). O disco é simples, e inclui um documentário e um trailer. Vale lembrar que o DVD japonês é uma edição impecável de três discos.

– Casshern – Reencarnado do Inferno (Japão, 2004)
Direção: Kazuaki Kiriya
Elenco: Yusuke Iseya, Kumiko Aso, Akira Terao, Kanako Higuchi
Duração: 141 minutos

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