Castelo Animado, O

20/06/2006 | Categoria: Críticas

Criador de “A Viagem de Chihiro” entrega filme deslumbrante, mas de narrativa irregular

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

“O Castelo Animado” (Hauru No Ugoku Shiro, Japão/EUA, 2004) tem todos os elementos de um conto de fadas clássico: príncipes, feiticeiros, bruxas, um castelo, seres inanimados que falam e, no meio de tudo isso, uma plebéia atirada em um mundo em que tem que esforçar para sobreviver. É um filme para crianças feito por um dos grandes diretores de animações infantis da atualidade, o japonês Hayao Miyazaki, responsável por trabalhos como “A Viagem de Chihiro” e “Princesa Mononoke”. O visual deslumbrante, suntuoso e cheio de detalhes de Miyazaki é a porta de entrada para o universo encantado do mago japonês. Pena que dessa vez estejamos visitando uma versão irregular, menos inspirada, desse universo.

Talvez o maior problema de “O Castelo Animado” seja a origem ocidental da história em que Miyazaki se baseou para escrever o roteiro do filme. O projeto vem de uma história infantil escrita pela inglesa Dianne Wynne Jones; dessa vez, portanto, o diretor japonês recorre a uma fonte diferente daquela que costuma servir como inspiração para seus trabalhos – a mitologia japonesa. A história imaginada pela inglesa é espirituosa, tem humor e elementos fantásticos (alguns bastante sinistros), algo fundamental para um conto de fadas moderno. Mesmo assim, se apoia em clichês e numa estrutura narrativa muito familiar a qualquer pessoa que tenha alguma intimidade com as animações da Disney.

O filme gira em torno de Sophie, uma jovem chapeleira de 19 anos que herdou uma loja e dá duro para administrá-la. Certo dia, caminhando sozinha pela cidade, ela é abordada por dois soldados com más intenções. É salva por um jovem e misterioso mágico, Hauru, que a faz voar sobre a cidade. O encontro, no entanto, engana uma bruxa que persegue Hauru. A mulher lança um feitiço sobre Sophie, que vira uma velha de 90 anos. Assustada, ela foge para o campo, onde encontra o castelo mágico de Hauru e é aceita como faxineira, passando a morar com o misterioso mágico e seu ajudante, a criança Mark.

Existem, em “O Castelo Animado”, todos os elementos de uma história infantil típica das animações norte-americanas: o herói bonitão e cheio de falhas que pode ser redimido pela heroína (Hauru); um contraponto cômico que não é humano (Calcifer, o demônio do fogo aprisionado pelo mágico); uma vilã aterrorizante de aspecto amedrontador (a bruxa); e até um pequeno personagem não-humano, que não fala, mas aparece em momentos-chave da narrativa para ajudar Sophie, como um anjo da guarda mambembe: o espantalho Cabeça-de-Nabo.

Há boas idéias espalhadas pela produção. O castelo voador é uma construção visual de tirar o fôlego, parecendo um organismo vivo gigantesco contruído a partir de pedaços de tijolo, pedra e lata. A porta de saída do castelo possui um disco colorido que, ao ser rodado, faz a porta abrir para diferentes reinos, e em cada um deles o jovem mago é conhecido por um nome diferente. O acontecimento mais importante do filme, que precipita todos os acontecimentos, é uma guerra entre dois desses reinos; em ambos os casos, os reis solicitam a ajuda do mágico, o que o deixa em situação delicada.

Mesmo assim, a trama em si parece delirante e fantasiosa, rumando para um final previsível e decepcionante, duas características que nenhum dos filmes anteriores de Miyazaki possuía. De certa forma, “O Castelo Animado” funciona como uma produção comum de Hollywood para pequenas crianças. Embora exiba traços típicos do trabalho de Hayao Miyazaki (a parte visual é inigualável), o filme aglutina elementos de “O Mágico de Oz”, “A Bela Adormecida” e outras fábulas do cinema de entretenimento, e por isso não consegue se destacar acima do normal. Em resumo, é bom, mas convencional.

O lançamento do disco simples está a cargo da PlayArte. O filme mantém o aspecto original (wide letterboxed), possui som em quatro canais (Dolby Digital 2.0) e tem, como extras, um making of, uma entrevista curta com o diretor e galeria de storyboards.

– O Castelo Animado (Hauru No Ugoku Shiro, Japão/EUA, 2004)
Direção: Hayao Miyazaki
Animação
Duração: 119 minutos

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