Cavalo de Guerra

29/01/2012 | Categoria: Críticas

Spielberg resvala ocasionalmente nos excessos do melodrama, mas realiza uma homenagem sincera ao cinema clássico norte-americano

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O cinema norte-americano tem toda uma tradição de realizar filmes enfocando as relações de amizade entre homens e animais. É possível falar até mesmo de um subgênero dramático inteiro dedicado a esse tipo de filme, incluindo títulos como “O Corcel Negro” (1979), “Baby – O Porquinho Atrapalhado” (1995) e, mais recentemente, “Marley e Eu” (2008). Aliás, esse subgênero é muito traiçoeiro, porque cineastas de mão pesada podem facilmente resvalar do melodrama clássico para um dramalhão açucarado. Isso não acontece em “Cavalo de Guerra” (War Horse, EUA, 2011), apesar de alguns resvalos de excesso ocasionais.

O longa-metragem marca o retorno de Steven Spielberg ao batente depois de três anos parado (seu último trabalho tinha sido o burocrático “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, de 2008). Sem se afastar muito de uma das mais surradas convenções cinematográficas (espectadores tendem a simpatizar muito rapidamente com personagens não-humanos), a adaptação do romance de Michael Morpurgo mantém o selo de qualidade do trabalho de Spielberg. Ele contorna com categoria a armadilha tradicional desse subgênero e realiza uma espécie de homenagem ao cinema clássico norte-americano – razão pela qual o filme tem apelo mais forte junto a espectadores de mais idade.

De certo modo, é possível dizer que “Cavalo de Guerra” pertence à tradição dos road movies, já que o filme focaliza uma ação dramática se movendo constantemente dentro de um território geográfico específico. Neste caso, a platéia segue um cavalo de raça que é “convocado” para o exército da Grã-Bretanha durante a Primeira Guerra Mundial e muda de dono várias vezes ao longo dos quatro anos do conflito. Assim, o enredo acompanha o cavalo, sem esquecer de registrar os esforços obsessivos de seu dono original do cavalo (Jeremy Irvine) na tentativa de encontrá-lo.

Um exercício de comparação não muito óbvio nos permitiria traçar um paralelo entre este filme e “Winchester 73” (1950), de Anthony Mann. Naquele longa-metragem, um James Stewart tenaz persegue o paradeiro de um velho e valioso rifle que ele ganha logo no início do filme. Aliás, os westerns fornecem referências importantes para o trabalho de Spielberg, em particular do ponto de vista visual. Uma referência básica usada por ele parece ser o clássico “Rastros de Ódio” (1956), de John Ford, que pode ser vislumbrado em diversos momentos da trama, e não apenas no plano da narrativa (a história acompanha um personagem tentando encontrar outro, com a mesma obsessão maníaca do protagonista de Ford, em um percurso que dura vários anos), mas também no visual, como o plano da cavalgada ao pôr-do-sol que aparece já no final do filme.

É necessário destacar positivamente o elenco numeroso, desempenhando com competência, mas cujo destaque fundamental talvez seja exatamente um animal irracional. Certamente auxiliado por efeitos digitais de muita qualidade (é impossível perceber de fato que a espetacular cena da corrida desesperada do cavalo nas trincheiras foi realizada em sua maioria com um animal digital), Spielberg inclui dezenas de planos de reação do cavalo, dotando o animal de qualidades humanas e ampliando, sem necessariamente cair no sentimentalismo fácil, a empatia deste com o audiência. Ainda que o final se esmere um pouco demais no melodrama, a fotografia do sempre ótimo Janusz Kaminski garante um toque de sobriedade e minimiza as resvaladas no dramalhão potencial do enredo.

Num filme de episódios, talvez aquele que se destaque mais seja aquele que se passa numa fazenda francesa, quando cavalo está nas mãos de uma adolescente e seu avô, momento que sublinha discretamente o tema central da obra de Spielberg (as relações complicadas entre pais e filhos). Além disso tudo, as batalhas mostradas no filme são registradas de modo muito diferente do que Spielberg havia feito em sua filmografia sobre a Segunda Guerra Mundial (“O Resgate do Soldado Ryan” e “A Lista de Schindler” priorizam o registro mais cru e documental possível), como é possível observar na cena da batalha que acontece nas trincheiras, aberta com um longo plano geral em que a câmera sobrevoa a ação militar. Em resumo, “Cavalo de Guerra” é cinema clássico bem escrito, bem interpretado e bem conduzido, que deve encontrar seu público junto a uma parcela da audiência mais interessada em histórias bem contadas do que em estripulias irreverentes de imagem e som.

– Cavalo de Guerra (War Horse, EUA, 2011)
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Jeremy Irvine, Emily Watson, Peter Mullan, David Thewlis
Duração: 146 minutos

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