Cazuza – O Tempo Não Pára

17/11/2004 | Categoria: Críticas

Cinebiografia supera falta de unidade do roteiro, revela ótimo ator e surpreende como filme correto

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Um ator revelado pela série adolescente “Malhação”. Uma cineasta responsável pelos apenas medianos longas “Pequeno Dicionário Amoroso” e “Amores Possíveis”. Um produtor genial na televisão, mas capaz de bobagens como “Sexo, Amor e Traição” no cinema. A conjunção desse trio é suficiente para provocar desconfiança no mais otimista dos espectadores, e talvez por isso a surpresa seja grande: “Cazuza – O Tempo Não Pára” (Brasil, 2004), a cinebiografia de um dos cantores e poetas mais talentoso do Brasil nos últimos anos, é um filme honesto e com qualidades.

A principal delas, sem dúvida, é a ousada aposta que a diretora Sandra Werneck e o big boss Daniel Filho fizeram, ao escalar o jovem e desconhecido Daniel de Oliveira no papel-título. Oliveira gastou um ano de preparação, fez aulas de canto e expressão corporal, engordou sete quilos, emagreceu outros 14 e incorporou, quase literalmente, o espírito de Cazuza.

Isso tudo, porém, é mero detalhe perfeccionista, pois a interpretação é impecável nos mínimos detalhes: na energia inesgotável, na voz sibilante e ligeiramente fora de compasso durante as canções, no corpo esguio que se move com leveza. Daniel de Oliveira é o dono do filme e justifica plenamente a aposta. Talvez seja um dos momentos de interpretação mais perfeitos a que o cinema brasileiro já assistiu.

A reconstituição de época é outro acerto de “Cazuza”. O trabalho cuidadoso da dupla de diretores – o veterano fotógrafo Walter Carvalho dividiu o trabalho com Sandra – surge nos pequenos detalhes e nas grandes seqüências. O quarto de Cazuza, que só aparece por poucos segundos, tem posters de Mick Jagger, Marilyn Monroe e Che Guevara, exatamente como faria um jovem no início dos anos 1980. As longas seqüências de espetáculos do Barão Vermelho copiam com rigor os figurinos e cabelos do grupo. Até o lendário Circo Voador, casa de espetáculos na praia onde praticamente todos os artistas da época começaram as carreiras, também aparece em uma recriação impressionante.

A presença de Walter Carvalho parece ter sido determinante para o sucesso artístico do filme. Carvalho foi responsável por uma decisão importante: filmar em formato Super 16mm e com a câmera na mão durante quase o tempo inteiro. Dessa maneira, ele utiliza tomadas mais longas e tremidas do que o habitual, o que reforça a espontaneidade e o clima de ensaio que o filme deseja – e consegue – capturar. Isso, aliado aos desempenhos excelentes de Marieta Severo e Reginaldo Faria como os pais do cantor, determina que o longa-metragem soe mais firme e denso do que, por exemplo, “Madame Satã”, uma cinebiografia com a qual “Cazuza” guarda semelhanças.

A mania de filmar a vida de personagens polêmicos e transgressores parece ter atingido em cheio o cinema nacional. O filme de Karim Aïnouz sobre a vida do folclórico homossexual carioca foi o primeiro a investir no filão que, internacionalmente, já havia rendido longas-metragens sobre o poeta Arthur Rimbaud (“Eclipse Maldito”) e sobre o jornalista Hunter S. Thompson (“Medo e Delírio em Las Vegas”), entre outros. “Cazuza” segue a fórmula com poucas variações, recortando livremente alguns episódios da vida do cantor com a intenção de manter o foco menos na trajetória do personagem e mais no seu comportamento hedonista e libertário.

“Cazuza” começa no início dos anos 1980, quando o cantor se juntou ao Barão Vermelho, e termina com a morte dele, de Aids, em 1990. Na tentativa de fazer uma espécie de cinebiografia autorizada pelos pais, Sandra Werneck suaviza o tom e deixa de fora muitos episódios conhecidos, como o romance com o cantor Ney Matogrosso e os seguidos em entreveros com o público durante a última turnê, em 1988, quando, debilitado pela doença, mostrava um comportamento mais agressivo do que o normal em cima do palco.

O roteiro, aliás, tem imperfeições, pois jamais consegue dar ao filme uma unidade. Esse é o grande defeito do filme. A rigor, “Cazuza” não passa de uma coleção de cenas sem conexão umas com as outras. Não há enredo, apenas episódios independentes, sem conexão entre si. Em certos momentos, parece que o espectador está diante de um filme de esquetes, interligados por passagens musicais do Barão Vermelho no palco.

Também é decepcionante perceber que Sandra Werneck e Walter Carvalho não souberam encerrar “Cazuza”. Os 15 minutos finais de projeção expõem o ponto mais fraco do trabalho, que é essa falta de unidade temática. A trilha sonora, que faz um trabalho notável de recuperação das ótimas canções do Barão Vermelho, esquece Cazuza e investe na música clássica, o que empurra o filme em direção a um dos clichês mais pavorosos do cinema: as longas tomadas em que um personagem, sabendo que está perto da morte, fixa o olhar em algum ponto além do horizonte e fica em silêncio, contemplando o próprio abismo particular, enquanto a música agridoce enche a sala.

Esses 15 minutos de olhares entristecidos rumo ao infinito são um desperdício de tempo, talento e lágrimas. Há maneiras mais sofisticadas e originais de emocionar o espectador, sem recorrer a esse tipo de artifício fácil e vazio. Não fosse essa derrapada, “Cazuza” poderia tranqüilamente ser reconhecido como um dos filmes de atores mais interessantes já produzidos em território nacional durante muito tempo.

– Cazuza – O Tempo Não Pára (Brasil, 2004)
Direção: Sandra Werneck e Walter Carvalho
Elenco: Daniel de Oliveira, Marieta Severo, Reginaldo Faria, Emílio de Mello
Duração: 96 minutos

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