Cecil Bem Demente

19/09/2003 | Categoria: Críticas

Estética ultracolorida e anárquica de John Waters vira fúria iconoclástica contra Hollywood

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

“Cecil Bem Demente” é um raro exemplo de título nacional que ficou tão bom quanto o original (Cecil B. Demented, EUA, 2000). O filme leva a assinatura do diretor independente John Waters. Possui o mesmo ímpeto de polêmica e denúncia que tem marcado a obra anárquica de Waters, um cara que milita no cinema underground há três décadas e nunca rendeu-se à estética comercial dominante em Hollywood.

A idéia para o filme surgiu, há alguns anos, quando o crítico de um jornal de Baltimore, terra-natal e provinciana do diretor, chamou-o de Cecil B. Demented, obviamente tirando um sarro com o nome de Cecil B. De Mille, ícone incontestável do cinema épico e grandioso de Hollywood e autor de clássicos do gênero, como “Os Dez Mandamentos”. Waters adorou e arquivou a idéia para usá-la num futuro filme. Eis que a época chegou.

O próprio argumento da história veio do nome. A figura central é uma estrela balzaquiana tão famosa quanto insuportável (nos bastidores, claro, porque diante das câmeras ela é um doce), bem interpretada pela senhora Antonio Banderas, Melanie Griffith, que luta há anos para livrar-se da pecha de atriz sem recursos dramáticos. De passagem por Baltimore para divulgar um lançamento, ela é seqüestrada no cinema por um grupo de terroristas anti-Hollywood. A trupe é liderada por um cineasta maluco (o tal do título, feito por Stephen Dorff, de “Blade”).

A idéia da turma é usar gratuitamente os serviços de Honey Whitlock, seqüestrando-a e obrigando-a a protagonizar um filme independente, que consiste em detonar salas de Multiplex e arruinar reuniões de executivos cinematográficos. Eles filmam cada ato terrorista. A princípio contra a vontade, logo Honey começa a se convencer de que o trabalho pode arrancá-la da mediocridade e converte-se ao grupo, tomando um carimbo fumegante/tatuagem de “demented forever” (maluca para sempre).

Uma grande idéia (que soa como homenagem sincera aos ídolos de Waters) foi dar a cada um dos integrantes da quadrilha a personalidade de um ícone do bom cinema mundial: um parece o violento Sam Peckinpah (“Meu Ódio Será Tua Herança”), outro é o doidão alemão Rainer Werner Fassbinder, um terceiro encarna Samuel Fuller, e assim por diante. Só que sutileza é uma palavra que não combina muito com John Waters (lembrem-se que em “Pink Flamingos”, de 1972, ele botou um travesti para comer cocô de cachorro numa seqüência sem cortes), e isso torna o filme meio irregular.

Algumas idéias são ótimas, como a seqüência em que a trupe invade um cinema que exibe o meloso “Patch Adams” (aquele em que Robin Williams usa nariz de palhaço) para uma platéia lacrimejante e destrói tudo. A fúria iconoclasta do diretor não poupa ninguém. Astros famosos e paparicados, executivos gananciosos, marqueteiros de araque, todo mundo é sacaneado sem piedade. Acontece que os “defensores do bom cinema” são tão malucos e botam em prática uma idéia tão surreal que o protesto parece uma candidatura do PSTU: serve para dar uma risadas, deixar outro tanto de gente apalermada, mas não tem nenhuma funcionalidade prática. Para nós, espectadores, é o oposto: finalmente algum cineasta teve o bom senso de detonar esses filmecos hollywoodianos de araque!

– Cecil Bem Demente (Cecil B. Demented, EUA, 2000)
Direção: John Waters
Elenco: Melanie Griffith, Stephen Dorff
Duração: 80 minutos

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