Chamada Perdida, Uma

19/08/2008 | Categoria: Críticas

Eric Vallete repete cena por cena o horror japonês original, que por sua vez já não passava de ‘O Chamado’ com telefones celulares

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Uma mulher tem que descobrir a origem sobrenatural de uma série de mortes de pessoas conhecidas, todas avisadas das próprias mortes por telefone, com alguns dias de antecedência. A moça tem data e hora para desvendar o mistério, sob pena de se transformar na próxima vítima da maldição. Na investigação, é auxiliada por um homem por quem desenvolve uma atração física. Não, não estamos falando sobre “O Chamado” (2002), ponta-de-lança e maior sucesso na onda de refilmagens americanas de filmes de horror japoneses. “Uma Chamada Perdida” (One Missed Call, EUA, 2088) poderia ser descrito como “O Chamado” com telefones celulares.

O longa-metragem tem sido vaticinado pela crítica dos EUA como a obra que determinou o fim da obsessão por refazer thriller nipônicos com atores do segundo e terceiro escalão de Hollywood. Fez bilheteria ruim (U$ 27 milhões), foi destroçado em críticas avassaladoras e acendeu o sinal amarelo para todas as pequenas produtoras que continuavam apostando no subgênero, desde o sucesso inesperado do já citado filme de Gore Verbinski, em 2002. Uma das razões para tamanho insucesso está na semelhança narrativa exagerada entre as duas películas. Além disso, o diretor Eric Valette se excede na manipulação de clichês do gênero, desprezando olimpicamente o princípio da “suspensão da descrença”, tão básico para quem faz cinema de horror.

Cabe, aqui, uma explicação sobre o conceito. A suspensão da descrença precisa entrar em cena quando os roteiristas de um filme inserem, na trama, elementos fantásticos impossíveis de existir no mundo normal. Para que o público compre a idéia sem questioná-la, os personagens do filme precisam demonstrar ceticismo, mas isso quase não acontece. O prólogo de “Uma Chamada Perdida” já explicita o caráter sobrenatural do caso. Sozinha ao lado de uma piscina, uma estudante é puxada para dentro da água pela mão de um fantasma, que disca do celular dela para outra estudante. A protagonista, Beth (Shannyn Sossamon), logo desconfia da natureza fantasmagórica do mistério, e a aceita de pronto. Muitos dos personagens que interagem com ela agem da mesma forma, o que simplesmente não aconteceria na vida real. Assim, o público não suspende voluntariamente sua descrença, porque sabe que está vendo um enredo fantasioso e inverossímil.

O formato narrativa é exatamente igual ao de “O Chamado”. O filme é construído como um thriller de investigação, em que Beth e o policial Jack (Edward Burns) – sim, em “Uma Chamada Perdida” existe até mesmo um detetive de polícia que acredita em fantasmas! – tentam encontrar a assombração que tem causado diversas mortes. A premissa é interessante, mas o desenvolvimento não. O cineasta Valette conta a história apelando para todos os clichês possíveis: vultos passando em frente à câmera, ruídos assustadores na trilha sonora, som que aumenta de volume para indicar a hora em que vem susto por aí, aparições inesperadas e até mesmo o velho e gasto falso final. Valette não perde qualquer chance de dar um susto na platéia, chegando ao cúmulo de tentar fazer isso até mesmo quando um personagem vai atender a porta durante uma festa juvenil abarrotada de gente e cerveja.

Se a história é batida e sem novidades, e decalca o original de Takashi Miike cena por cena, o ponto forte de “Uma Chamada Perdida” está no tratamento visual dado ao roteiro. Observe, por exemplo, o falso raccord (tipo de corte que valoriza o princípio da continuidade) com que Valette liga o presente a um flashback sobre os eventos traumáticos do passado de Beth, utilizando o mesmo enquadramento em dois tempos diferentes. Pena que a escalação do elenco, repleto de atores que foram promissores algum dia, mas vêm acomodados em carreiras que não decolaram, seja equivocada. Sossamon e Burns, inexpressivos, passeiam pelos cenários como fantasmas, sem qualquer energia. A química entre o casal, aliás, é nula, apesar de o diretor fazer força para criar algo próximo de um interesse romântico, até mesmo criando uma cena exclusiva (e gratuita) para isto.

Nos dois primeiros atos, o roteiro até consegue driblar os possíveis problemas de lógica envolvidos na história, mas o esforço cai por terra durante o terceiro ato, quando a protagonista vai parar voluntariamente, mesmo estando a poucos minutos da suposta hora de sua morte, num hospital abandonado após um incêndio – você consegue imaginar um lugar melhorar para morrer num acidente inexplicável? Além disso, no afã de criar uma locação com atmosfera assustadora, Eric Valette dispensa qualquer tentativa de plausibilidade, já que o hospital parece apenas velho, mas nunca abandonado. Tem inclusive iluminação funcionando (e lâmpadas ligadas, num desperdício inaceitável de energia) e equipamentos em estado razoável de conservação. Na verdade, o filme é que parece um fantasma. Melhor fugir dele.

O DVD simples, da Sony, mantém o enquadramento correto (widescreen anamórfico) e tem bom áudio (Dolby Digital 5.1). Há comentário em áudio do diretor e três featurettes enfocando as gravações.

– Uma Chamada Perdida (One Missed Call, EUA, 2088)
Direção: Eric Valette
Elenco: Shannyn Sossamon, Edward Burns, Ana Claudia Talancón, Ray Wise
Duração: 87 minutos

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