Chamado 2, O

19/09/2005 | Categoria: Críticas

Continuação de terror de sucesso tem bons sustos e trama rarefeita de lógica narrativa

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Não é possível falar sobre “O Chamado 2” (The Ring Two, EUA, 2005) sem tentar compreender o quê, exatamente, a platéia de um filme desse tipo está procurando quando senta na cadeira para vê-lo. Sentir medo? Levar alguns sustos do tipo que dá vontade de fechar os olhos e abraçar a pessoa mais próxima, seja ela conhecida ou não? Se esse é o objetivo declarado de um espectador, a boa notícia é que “O Chamado 2” tem esses momentos em boa quantidade. Se, além disso, você também espera uma trama coerente, que faça sentido, talvez seja melhor alugar o primeiro filme da franquia, seja o norte-americano ou o japonês.

Um pequeno lembrete: “O Chamado 2” é a continuação do surpreendente sucesso de bilheteria “O Chamado”, refilmagem de um longa-metragem japonês que disparou uma espécie de invasão nipônica do gênero nos cinemas dos EUA. Vale lembrar que “Ringu”, o original, teve não apenas uma, mas duas seqüências no Japão, além de outra continuação que retomava eventos anteriores ao primeiro filme. Nenhum desses produtos japoneses, contudo, foi utilizado como inspiração pelo roteirista Ehren Kruger. “O Chamado 2” não tem semelhança nenhuma com “Ringu 2”. São filmes completamente diferentes.

Na verdade, quando o estúdio DreamWorks acendeu a luz verde para a continuação de “O Chamado”, Ehren Kruger tinha dois pontos de partida disponíveis para o filme seguinte: a) a fita amaldiçoada que é a base da trama do filme 1; ou b) a família Keller, que protagoniza os eventos de “O Chamado”. A continuação nipônica preferiu a solução A; o filme gira em torno de uma sobrinha da protagonista que se vê às voltas com a mesma fita maldita. Já a seqüência de Hollywood ficou com a solução B, por razões basicamente financeiras, já que a atriz Naomi Watts agora é uma estrela de primeira grandeza, e tinha a obrigação contratual de voltar para este filme, mesmo a contragosto.

“O Chamado 2” começa com uma mudança. A jornalista Rachel (Watts) e o filho Aidan (Dorfman) estão saindo de Seattle, onde os eventos do primeiro filme se passam, e indo para uma pequena cidade litorânea no Oregon, estado deserto e gelado no extremo norte do país. Rachel sente que precisa dar ao filho um ambiente diferente, além de passar mais tempo com ele, para poder superar o trauma gerado pelas horripilantes aparições de Samara, a menina-demônio de “O Chamado”. Por isso, arruma um emprego num pequeno jornal local e aluga uma casa afastada para viver com o garoto.

Acontece que a fita maldita de “O Chamado” também chegou à cidade. E, investigando um assassinato, Rachel descobre características muito semelhantes às mortes cometidas por Samara. Ela recupera a fita maldita e a destrói, mas é tarde demais: o que a menina-demônio queria era reencontrá-la. A partir deste ponto, o filme abandona por completo as imagens perturbadoras da fita, concentrando-se em uma trama de possessão sobrenatural que não tem nenhuma lógica narrativa.

Um dos acertos do estúdio foi chamar o diretor Hideo Nakata, que fez o “Ringu” original, para dirigir esta seqüência. Nakata consegue imprimir uma forte tensão, uma espécie de sensação de alerta permanente, em toda a duração do longa-metragem. O diretor gosta de filmar planos com lentos movimentos de câmera, colocando seus personagens em segundo plano e mostrando objetos em primeiro plano. Em uma seqüência, Rachel bisbilhota caixas em um porão abandonado, mas só a vemos ao longe, enquanto é a lâmpada que está em primeiro plano. No momento em que a lâmpada queima, a câmera começa a se mover na direção da mulher, sugerindo uma perspectiva subjetiva – estamos vendo aquilo que o fantasma de Samara está vendo. Seqüências assim funcionam com eficiência, porque mantêm o espectador assustado, esperando que algo horripilante aconteça com um personagem desavisado.

Elas existem em número suficiente para tirar “O Chamado 2” da vala comum dos filmes vagabundos. Mas cenas isoladas não têm o poder de transformar filmes razoáveis em bons filmes. É o caso aqui. Para que um filme de terror sobrenatural alcance um patamar narrativo realmente bom, é preciso que o cineasta saiba estabelecer certas regras de funcionamento do seu mundo imaginário, e faça a ação ocorrer sempre dentro dessas regras, sem desrespeitá-las. Infelizmente, isso não acontece em “O Chamado 2”.

A regra mais importante, convenientemente esquecida em “O Chamado 2”, é a própria maldição da fita. A certa altura, os personagens do longa-metragem descobrem que o fantasma de Samara está tentando possuir o menino Aidan. Nesse intervalo, o fantasma simplesmente esquece de perseguir outras pessoas que porventura tenham visto a fita maldita, e não espalhado cópias adiante para evitar a morte em sete dias. Não era essa a regra fundamental que movia a maldição de “O Chamado”?

Claro que boa parte da platéia está ocupada demais tomando sustos para lembrar de detalhes como esse. Mas o terço final da película ultrapassa os limites do razoável. A investigação promovida por Rachel a leva, em um único dia, a encontrar a mãe biológica de Samara (uma ponta assustadora de Sissy Spacek), algo que ela não havia conseguido fazer durante todo o primeiro filme. Além disso, ainda abre a possibilidade de que pessoas do nosso mundo possam visitar outra dimensão – uma dimensão que só existe dentro da fita maldita – e voltar. Difícil de aceitar tamanho disparate.

Por isso, contente-se com os bons sustos que “O Chamado 2” lhe reserva (preste atenção especialmente na seqüência em que o carro de Rachel é atacado por uma manada de alces enfurecidos, um belo exemplo de atmosfera sombria que não fica a dever aos melhores filmes japoneses de terror) e esqueça qualquer preocupação com lógica. É a única maneira de garantir duas horas de diversão.

O DVD da Universal vem recheado de material extra. São três feturettes de 10 minutos cada (um perfil de Samara é o principal), o documentário das gravações feito pelo canal a cabo HBO e uma galeria de cenas cortadas. O mais interessante é um curta-metragem que faz a ligação dos eventos mostrados aqui com o primeiro filme da série. O filme tem trilha de áudio Dolby Digital 5.1 (em inglês e português) e vem no formato original (widescreen).

– O Chamado 2 (The Ring Two, EUA, 2005)
Direção: Hideo Nakata
Elenco: Naomi Watts, David Dorfman, Simon Baker, Sissy Spacek
Duração: 111 minutos

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