Troca, A

08/05/2009 | Categoria: Críticas

Drama clássico de Clint Eastwood tem bela direção de arte e boas interpretações, mas parece longo demais e tem história irregular

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Uma olhada atenta na maior parte do trabalho de Clint Eastwood, em especial a partir do início dos anos 1990, revela uma preferência concreta por temas ligados ao ajuste de contas com o passado. Os melhores longas que ele dirigiu neste período (“Os Imperdoáveis”, “Menina de Ouro”, “Sobre Meninos e Lobos”) são também os mais pessoais, aqueles que o diretor realmente lutou para transformar em filmes. Este não é o caso de “A Troca” (Changeling, EUA, 2008). O primeiro dos dois títulos lançados em 2008 com a assinatura de Eastwood foi, na verdade, um trabalho de encomenda para os estúdios Universal, com quem o diretor não trabalhava desde 1975. Trata-se de um drama clássico, que narra a incrível história real de uma mãe que, em 1928, lutou contra a corrupção policial em Los Angeles na tentativa desesperada de reencontrar um filho desaparecido.

Embora seja um filme correto, com momentos de inspiração ocasional, “A Troca” não está à altura dos melhores trabalhos de Clint Eastwood. É possível que a abordagem escolhida por ele para o longa seja por demais austera, emocionalmente distante. Talvez isso exprima a própria distância emocional entre diretor e material dramático, porque há falhas visíveis na condução da narrativa. “A Troca” é longo e irregular demais. Eastwood e o roteirista J. Michael Straczynski gastam muito tempo em uma trama paralela envolvendo um serial killer que agia na região da Califórnia no mesmo ano em que o enredo se passa. Apesar de a decisão conferir realismo e clareza narrativa ao resultado final, acaba por diluir a tensão emocional da mãe que, angustiada, é seguidamente impedida de tentar encontrar o filho que sumiu.

Na verdade, o filme deveria ser sido dirigido por Ron Howard (curioso como o diretor de “O Código Da Vinci” tem atração por histórias sobre mães em busca de filhos desaparecidos). O cineasta comprou o roteiro e acalentou o projeto por algum tempo, mas a agenda lotada fez com que ele preferisse ficar apenas na cadeira de produtor executivo. O trabalho foi então oferecido a Eastwood, que o aceitou por duas razões fundamentais. Em primeiro lugar, a trama acontecia na época e no local onde ele passou a infância, oferecendo-lhe a oportunidade de reviver memórias de menino. Por fim, o fato de o roteiro original ter sido construído sempre sob o ponto de vista da mãe dava a oportunidade de criar um longa com maior carga dramática.

Como de hábito, Eastwood filmou tudo rapidamente, chegando a registrar até oito minutos de filme por dia (índice muito superior à média em Hollywood, que não passa de um minuto). Esta rapidez evidencia um dos aspectos mais interessantes de “A Troca”, que é a direção de arte. Sim, a reconstituição de época é muito bem realizada, mesclando locações reais (bairros antigos na periferia de pequenas cidades na região da Grande Los Angeles) e efeitos digitais discretos, que passam despercebidos dentro da fotografia sombria de Tom Stern. O fotógrafo optou por suprimir as tonalidades mais vibrantes da paleta de cores do filme, iluminando as cenas interiores com holofotes quase sempre posicionado nas laterais, o que gera grandes contrastes e áreas de sombra extensas – em geral, os atores quase sempre interpretam com um lado do rosto iluminado e o outro, sob escuridão. Essa técnica realça os aspectos sombrios da história.

Como de hábito, Eastwood prefere tomadas longas e uma narrativa limpa, concisa, sem chamar a atenção para a técnica. Não espera inovações neste terreno. A seqüência em que a polícia invade uma granja para prender um imigrante canadense ilegal serve como exemplo disso. Enquanto o policial entra no local (convenientemente iluminado através de raios de sol que entrar por buracos na parede de madeira do recinto), uma série de planos-detalhes curtos de objetos potencialmente perigosos, como facas e machados, é inserida na montagem, e a trilha sonora vai tendo o volume realçado aos poucos. Edição de imagem e som se unem para produzir na platéia a expectativa de um ataque ao policial – que, de fato, acontece. Bem feito, mas convencional. Um microcosmo do filme como um todo.

Ademais, é possível notar certo desequilíbrio entre os três atos da história. O primeiro, que apresenta os personagens e introduz o conflito dramático, é rápido e ágil; o último ato, porém, pisa e repisa certos aspectos da história. Aparentemente, Eastwood foi acometido da síndrome de Peter Jackson e não soube como terminar o filme, que parece ter três ou quatro finais (a seqüência que se passa dentro da prisão de San Quentin, em particular, é um exemplo claro deste excesso, pois não tem nenhuma função narrativa, a não ser estabelecer a realização da vingança de um dos personagens centrais, algo que poderia ter sido feito em uma cena com dois ou três minutos a menos). De qualquer maneira, é importante enfatizar o ótimo desempenho de Angelina Jolie no papel central. Ela parece realmente confortável no papel de uma mãe, e transmite sensação real de angústia – sem os exageros melodramáticos que uma atriz menor facilmente cometeria – quando as coisas realmente começam a dar errado.

O DVD brasileiro carrega o selo da Universal. O enquadramento original (widescreen anamórfico) foi preservado, e o áudio tem seis canais (Dolby Digital 5.1).

– A Troca (Changeling, EUA, 2008)
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Angelina Jolie, John Malkovich, Jeffrey Donovan, Amy Ryan
Duração: 141 minutos

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