Chave Mestra, A

12/12/2005 | Categoria: Críticas

Filme sobre casa assombrada em New Orleans é, na verdade, trama de detetive com elementos sobrenaturais e final incomum

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O cartaz de “A Chave Mestra” (The Skeleton Key, EUA, 2005) dá a pista. Não existe menção ao nome do diretor, nem mesmo da atriz que ilustra a fotografia, mas está lá um slogan informando que o filme foi escrito pelo mesmo roteirista de “O Chamado”. Quem tiver alguma intimidade com os filmes escritos anteriormente por Ehren Kruger vai perceber que esta obra compartilha com eles razoável semelhança narrativa. Em outras palavras, isso significa que, fato raro em Hollywood, um roteirista é o principal nome por trás de “A Chave Mestra”.

O filme é bem simples de acompanhar. Caroline (Kate Hudson, muito boa) é uma enfermeira especializada em doentes terminais contratada por uma senhora idosa, Violet (Gena Rowlands, excelente), e seu jovem advogado Luke (Peter Saarsgard, apenas OK) para cuidar de um inválido chamado Ben Deveraux (John Hurt, ator de luxo em um papel limitado). O sujeito sofreu um derrame enquanto andava no sótão do velho casarão na zona rural de New Orleans onde vive. Ele não consegue falar e tem apenas um mês de vida, segundo o médico da família.

No início, Caroline precisa enfrentar a resistência de Violet. A mulher tenta rejeitá-la de forma estranha: “Ela não vai entender a casa”, diz. Logo, Caroline começa a prestar mais atenção na mansão, e descobre coisas estranhas. Todos os espelhos foram retirados das paredes. Barulhos estranhos vêem do cômodo localizado atrás do sótão, cuja porta é a única da casa que a chave mestra entregue a ela no primeiro dia de emprego não abre. Aos poucos, ela percebe que os moradores da região, e da casa em particular, participam de rituais hudu, um tipo de magia pagã muito popular entre os negros de New Orleans.

Num ano em que a maioria dos filmes de horror em Hollywood parece medir a eficiência pelo número de sustos que conseguem martelar na platéia, é refrescante poder assistir a “A Chave Mestra”. O filme de Iain Softley se esmera em construir uma atmosfera de mistério, mas não insiste em tentar assustar os espectadores a cada cinco minutos. E faz isso com eficiência. As locações – pântanos, casas caindo aos pedaços, florestas densas – funcionam muito bem, e junto com a chuva que cai no local com insistência passam total sensação de isolamento.

Softley usa a fotografia para caprichar ainda mais na atmosfera, e o faz da maneira adequada. Os interiores da mansão, onde a maior parte da ação se passa, são escuros e úmidos, o que acentua o ar de mistério. Softley também explora bem os ângulos inusitados, colocando sempre a câmera em local ou posição incomuns. Um recurso repetido várias vezes, por exemplo, é filmar os personagens com a câmera colocada no chão, pegando-os de baixo para cima. Ou, ainda, inserir tomadas que flagram os personagens de cima para baixo, quando eles se aproximam de uma porta.

Para sugerir que há algo sempre à espreita, o diretor abusa de composições visuais inusitadas. Por várias vezes a câmera observa os personagens de um buraco de fechadura, algo que tem ressonância no título do filme. Às vezes a câmera fica posicionada atrás de uma porta, ou de uma janela, como se alguém estivesse observando as pessoas escondido. Tudo isso adiciona mistério à atmosfera do filme. Nesse sentido, “A Chave Mestra” é muito bom, pois mantém a platéia sob constante tensão. A economia no número de sustos funciona a favor, já que a audiência não descarrega essa tensão com gritos.

Aí entra em cena o texto de Ehren Kruger. A primeira característica onde se nota a mão do roteirista é a própria construção do enredo, que em essência não trata de uma casa assombrada por fantasmas, como o início do filme sugere. Na verdade, assistimos a uma investigação conduzida por uma pessoa traumatizada, assim como já havia ocorrido em “O Suspeito da Rua Arlington”, estréia de Kruger no cinema. Caroline, afinal, é uma garota jovem cuja dedicação acima do normal a pacientes moribundos tem relação com a ausência do pai.

Ela explica, em duas ou três cenas curtas, que largou os estudos para acompanhar uma banda na estrada (talvez uma referência a um filme anterior da atriz, uma vez que em “Quase Famosos” Kate Hudson fez exatamente uma tiete) e não pôde acompanhar a doença que matou o próprio pai porque não soube dela. Traumatizada, ela tenta compensar a culpa cuidando de outros homens à beira da morte. Portanto, se a investigação levada a cabo por Caroline alguma vez lhe parecer implausível, lembre-se que a personagem tem um motivo (superficial talvez, mas real) para agir daquela maneira.

Outro ponto que tem relação com a carreira do roteirista está nos flashbacks que, em certo momento da trama, começam a revelar fatos trágicos anteriormente ocorridos dentro da mansão. Esses flashbacks são visualmente idênticos às imagens perturbadoras vistas na fita maldita da versão americana de “O Chamado”, filme também escrito por Kruger: imagens em preto-e-branco com aparência de material caseiro tipo Super 8, edição super-rápida, sons guturais e clima de pesadelo.

Por fim, a última marca registrada do roteirista está na reviravolta que o filme reserva para o final, bem interessante e incomum. Ela segue a receita de filmes como “Os Outros” (citado em várias cenas, com a inclusão de uma mulher cega e fotografias antigas dentro da trama) e “O Sexto Sentido”, atribuindo um novo sentido a tudo o que foi visto antes e fazendo o espectador querer rever a obra. A boa notícia é que diversas pistas da verdadeira natureza do mistério da casa (“você tem inscrições pelo corpo, esses desenhos com agulha e tinta que os jovens fazem hoje em dia?”, pergunta Violet em certo momento, numa cena que ganha novo sentido quando o final é revelado) podem ser conferidas durante a projeção.

Algumas pessoas podem reclamar que o filme termina de maneira muito inverossímil, mas mesmo essas pessoas precisam concordar que o final é coerente com a lógica da trama e com o background da personagem de Kate Hudson. Aliás, aqueles que acompanham o trabalho de Ehren Kruger vão relembrar de imediato a instigante conclusão de “O Suspeito da Rua Arlington”, que possui uma lógica bem parecida.

A parte ruim é que, para chegar até o final, a platéia precisa passar por um terceiro ato que aumenta vertiginosamente a velocidade da narrativa, incluindo até mesmo cenas triviais de perseguição. A edição de repente torna-se muito rápida, a música fica alta demais e isso desfaz um pouco a atmosfera de mistério que tinha sido construída com perfeição até ali. Um final com mais sugestão e menos correria seria ideal.

O DVD para locação é simples e contém apenas o filme (imagem wide anamórfica, som Dolby Digital 5.1).

– A Chave Mestra (The Skeleton Key, EUA, 2005)
Direção: Iain Softley
Elenco: Kate Hudson, Gena Rowlands, Peter Sarsgaard, John Hurt
Duração: 104 minutos

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