Cheiro do Ralo, O

04/09/2007 | Categoria: Críticas

Cheio de humor negro, segundo longa de Heitor Dhalia passa do ponto na criação de um universo artificial

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Indivíduo que prefere a solidão, não tem vida social e não gosta da convivência com outras pessoas. A definição de misantropo, registrada pelo Dicionário Houaiss, encaixa como uma luva em Lourenço (Selton Mello), negociante de velharias que é protagonista de “O Cheiro do Ralo” (Brasil, 2007). O segundo filme de Heitor Dhalia procura estabelecer, com linguagem pop, humor negro e incorreção política, uma crônica da vida deste ser urbano e solitário, cujo único prazer na vida parece ser humilhar o outro. “O Cheiro do Ralo” é mais um dos muitos longas-metragens nacionais a focalizar um dos males do novo milênio – a solidão dos socialmente marginalizados nas grandes metrópoles. É um filme engraçado, mas não exatamente agradável, e peca por excessos visuais/narrativos que o tornam artificial.

Produzido com o orçamento minúsculo de apenas R$ 330 mil, “O Cheiro do Ralo” funciona como desenvolvimento natural do cinema pop, urbano e autoral que o cineasta Heitor Dhalia começou a desenvolver em “Nina” (2004). A evolução do cineasta de um trabalho para o outro é nítida. O longa-metragem foi baseado no livro do escritor e cartunista Lourenço Mutarelli e assume, desde os engraçados créditos iniciais (bunda feminina filmada em close, rebolando dentro de short com estampa de praia, enquanto vinheta surf music ecoa ao fundo), a dura missão de penetrar na alma de um legítimo misantropo. Mutarelli se revela como ator, interpretando o papel do vigia da loja do homônimo, e se mostra um dos mais autênticos habitantes do mundo mofado, sujo e velho do protagonista. Aqui, Dhalia investe em humor (que não existia em “Nina”), embora continue mostrando uma visão de mundo bem sombria.

Na verdade, o filme não conta uma história propriamente dita. A idéia original, já presente no romance que originou a película, era registrar o desespero de Lourenço ao perceber que uma paixão inusitada – pela bunda de uma garçonete de boteco – ameaçava bagunçar sua existência fetichista, mantendo as pessoas à distância e organizada em torno de objetos. Confortável na sua misantropia assumida, Lourenço enlouquece quando vê que a paixão pode tragá-lo de volta para o mundo social. O esmero de Heitor Dhalia e equipe é visível na tarefa de dar cor e textura às neuroses que nascem da agonia do negociante, mas o resultado não é de todo bem sucedido. “O Cheiro do Ralo” é meticuloso no retrato que faz do personagem, mas falha por não conseguir desvendar ao público a humanidade, a respiração, a voz interna dele. O filme arranha a superfície do personagem, mas não consegue penetrar na couraça que ele ergueu para isolá-lo das pessoas.

Polêmico, o longa-metragem provocou reações variadas na crítica especializada, que se dividiu entre o amor incondicional e o desprezo olímpico. Com alguma atenção, é possível enxergar exatamente quais as características que apaixonam e afastam as duas facetas do público. Entre os elementos positivos, é impossível deixar de mencionar a atuação excepcional de Selton Mello. Presente virtualmente em todas as cenas (e autor de uma narração em off que, junto com dezenas de pequenas vinhetas musicais, funcionam como cola para as múltiplas esquetes e cenas soltas que compõem o todo), Mello é o maior responsável por dar profundidade ao protagonista. O pouco de empatia que a produção consegue criar entre Lourenço e a platéia vem do ator. Ele mergulha na mente doente do protagonista e, graças à caracterização correta e à expressão corporal blasé, dela extrai humor. Sem humor, “O Cheiro do Ralo” seria insuportável.

Numa segunda camada de significado, para os mais atentos, é possível questionar a validade deste humor. Para usar um clichê popular: Lourenço não ri com as pessoas, ele ri das pessoas. É um sorriso baixo astral, para baixo. Todo e qualquer contato pessoal que o personagem estabelece – com os clientes, a ex-noiva, os encanadores, o vigia, a empregada – é entabulado no sentido de construir relações de poder em que ele, Lourenço, esteja sempre acima do outro, de modo a poder humilhá-lo – e o público se diverte ao ver os outros se arrastando, literal ou metaforicamente, diante dele. O roteiro de Marçal Aquino é inteligente, e aproveita muitos diálogos pinçados do romance. Isto dota Lourenço de inteligência superior, com raciocínio rápido e tiradas de cinismo impecável. Dependendo da platéia, tudo isso pode ser visto como defeito ou virtude.

Se os diálogos garantem o humor, é a atuação de Selton Mello que ajuda o público a criar alguma empatia com um ser tão desagradável. A estrutura narrativa e a afetação visual não ajudam a capturar a humanidade do personagem, e só é possível vislumbrar nesgas desta humanidade por causa da grande atuação de Selton Mello. Por causa dele, a comédia de humor negro pop-retrô até ameaça, às vezes, virar uma crônica bem-sucedida da solidão de uma metrópole, intento que não é de todo alcançado. Apesar das boas intenções, visíveis na direção tecnicamente meticulosa, na fotografia cuidadosa e na edição veloz (atributos que crescem ainda mais quando se sabe que o filme foi todo produzido de forma independente, sem a ajuda de estúdios e custeado com dinheiro do bolso de diretor, produtores e atores), o resultado final falha em alcançar um patamar superior, já que é prejudicado pela estilização em excesso do universo do protagonista.

Embora a cidade em que a história se passa jamais seja mencionada – aliás, poucos personagens têm nome – é evidente que se trata de São Paulo: os muros e paredes descascados, as pichações nos muros, as tonalidades pastel e acinzentadas, as sombras difusas e a atmosfera urbana são marcas registradas da capital paulista. A partir desses elementos, a direção de arte se esmerou em criar um universo atemporal para Lourenço, com ambientes amplos, sujos e atulhados de quinquilharias, fachadas tingidas de fuligem, ruas sempre vazias. O figurino do misantropo de carteirinha deixa evidente a intenção de apresentá-lo como um ser desconectado da realidade cotidiana: cabelo ensebado, óculos com lentes enormes, calças de brim apertadas na cintura e folgadas embaixo, camisas listradas que não fariam feio numa festinha em 1977.

Tanto esmero na composição do visual, contudo, acaba contribuído para a criação de um cenário exageradamente fake, artificial. Cenários e personagens parecem existir num universo paralelo, um mundo de sonho, mais ou menos como ocorre nos filmes de Wes Anderson (“Os Excêntricos Tenenbaums” vem à mente). O agravante é que lá as histórias quase sempre existem e se encerram satisfatoriamente dentro deste reino de imaginação, sem que seja necessário abrir caminhos entre ele mundo onírico e nossa realidade, do lado de cá da tela. Ao optar por realizar um estudo de personagem, contudo, “O Cheiro do Ralo” supõe a existência de Lourenço como ser humano, e não como mero personagem de ficção. Por isso, depende de sua reinserção no mundo real, uma trajetória que o próprio Lourenço antecipa e tenta evitar através de uma trip enlouquecida, simbolizada pelo cheio do ralo no banheiro do escritório.

O grande pecado do diretor, portanto, é não saber administrar o excesso de efeitos pop (frames congelados, narração em off, direção de arte um tom acima do normal), e isso tudo embaça a visão da platéia e a impede de registrar, em um nível sensorial, este retorno à humanidade de Lourenço. Até o último minuto de projeção o personagem permanece lá, dentro da tela, encapsulado dentro de um mundo cinzento e irreal, sem conseguir se comunicar com ninguém além de um nível meramente superficial. O que resulta de tudo isso é um longa-metragem criativo, inteligente, com ótimos diálogos e boas cenas de humor negro (o olho, o encontro com o militar da II Guerra), mas também um filme frio, artificial, cujos excessos de estilo mantêm a platéia à distância e impedem as emoções de fluírem.

O DVD da Universal traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Nada de extras.

– O Cheiro do Ralo (Brasil, 2007)
Direção: Heitor Dhalia
Elenco: Selton Mello, Paula Braun, Lourenço Mutarelli, Fabiana Gugli
Duração: 105 minutos

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