Chinatown

14/11/2007 | Categoria: Críticas

Subversão dos clássicos noir de Roman Polanski é obra-prima cheia de sutilezas, detalhes e muita complexidade

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Los Angeles, 1933. O marido traído acaba de receber as comprometedoras fotografias de sua esposa com outro homem. O detetive particular J.J. Gittes (Jack Nicholson) o consola. Gittes abre o bar, faz menção de apanhar uma garrafa de scotch de primeira qualidade, mas pensa melhor e pega, no lugar, um bourbon de segunda categoria. O que a cena de abertura de “Chinatown” (EUA, 1974) quer comunicar? Além de apresentar o protagonista de um dos mais intrincados mistérios já levados à tela grande, a seqüência ilustra uma detalhe importante da personalidade do investigador: a capacidade de analisar o ambiente que o cerca e de se misturar a ele. Essa virtude é fundamental para fazer de Gittes o personagem complexo e fascinante que ele é.

O roteiro de Robert Towne, premiado com o Oscar, é um dos melhores textos já transformados em filme dentro de Hollywood – e isso não é pouca coisa. Quando vê os primeiros 10 minutos de projeção, o espectador pensa que vai assistir a um thriller sobre infidelidade conjugal, já que após dispensar o cliente macambúzio, o detetive é contratado por uma certa Evelyn Mulwray para descobrir se ela está sendo traída pelo marido, o chefe do escritório central de tratamento e distribuição de água da cidade. É um truque. O filme, cheio de detalhes e sutilezas que uma platéia desavisada deixa passar sem perceber, não é sobre infidelidade conjugal. Passa longe, muito longe disso. Nada, em “Chinatown”, é exatamente aquilo que parece ser.

Gittes começa a seguir Hollis Mulwray (Darrell Zwerling). Encontra-o em uma audiência pública sobre a necessidade de construção de uma barragem de água na cidade. Visita o leito seco de um rio. Passa horas à beira do oceano, olhando os encanamentos que despejam grandes quantidades de água no mar. Gittes não entende nada – e nem nós, na platéia. Depois de muitas tentativas frustradas, no entanto, finalmente o investigador descobre o sujeito passeando bucolicamente de barco, num lago, com uma adolescente. Ele fotografa a cena. Missão cumprida.

Na manhã seguinte, em seqüência, dois choques. Primeiro, as fotos de Hollis com a menina estão nos jornais. Segundo, uma mulher chiquérrima e coberta de jóias caras aparece no escritório, alega ser a verdadeira Evelyn Mulwray e ameaça processar o detetive. Gittes fica nervoso. Não entende a atitude da mulher, que parece não ter ficado chateada com a traição do marido. O detetive tem certeza de que alguém o enganou para prejudicar os Mulwray. Mas quem? E, mais importante, por quê? Quem tiraria vantagem da propalada infidelidade de Hollis Mulwray? E por que diabos Evelyn não dá a mínima para as puladas de cerca do marido?

A trama que se segue é uma das mais inteligentes e complicadas que um filme já ousou colocar em um script. O texto de Towne evoca os antigos clássicos noir (detetives inescrupulosos, vilões misteriosos, mulheres fatais), mas subverte-os e vai além. Na realidade, Towne se baseou em um caso verídico, passado em 1908, mas reescreveu a história e ambientou-a em 1933 apenas para permitir uma reconstituição refinada da atmosfera de um autêntico noir. O trabalho do fotógrafo John A. Alonzo nessa empreitada é tão impressionante quanto o de Towne; ele não se contenta em emular os contrastes claro/escuro e os ambientes esfumaçados dos noir, mas filma tudo em tons de terra, como se a ação se passasse sempre no meio da tarde, quando as sombras são mais longas e a luz, mais fraca. Funciona: a atmosfera é melancólica, como a de um mundo em decadência.

Tudo, do roteiro à fotografia, deve ser atribuído não apenas aos profissionais de cada setor, mas à excepcional direção de Roman Polanski. O cineasta polonês funciona como um maestro temperamental. Em meio a arroubos de irritação (chegou a quebrar a televisão de Nicholson nos camarins para que o ator não pudesse assistir aos jogos do LA Lakers, passatempo favorito dele), Polanski soube construir um filme meticuloso, cheio de sutilezas e detalhes, sem retirar um milímetro da complexidade do enredo (se puder, assista duas vezes para verificar como tudo vai fazer mais sentido) e, ao mesmo tempo, exigindo esforço da platéia para entender os meandros do caso sem se perder no emaranhado de reviravoltas e pistas falsas que aparecem a todo momento.

Polanski, além de tudo, é um mestre da linguagem cinematográfica. Observe, por exemplo, a brilhante maneira que o detetive encontra para checar a hora exata que Hollis foi embora durante a longa vigília às tubulações de água que deságuam no mar, logo no princípio do longa-metragem. Ou assista à inacreditável seqüência em que Gittes desvenda a peça fundamental do quebra-cabeças, em meio a tapas incrivelmente realistas de Nicholson na estrela Faye Dunaway, imponente e charmosa como nunca no papel da verdadeira e enigmática Evelyn Mulwray. Ou, ainda, tenha calafrios com a famosa cena em que o próprio Polanski, em uma breve aparição, retalha o nariz do assustado Gittes durante uma investigação.

O detetive, sem dúvida, é um dos personagens mais bem acabados do cinema. Presente em virtualmente todas as cenas de “Chinatown”, ele é um homem vulgar – a anedota machista que ele conta aos empregados quando a verdadeira Evelyn Mulwray aparece no escritório pela primeira vez denota isso – que tem consciência disso, e se esforça para parecer ter mais classe do que tem de verdade. “É o meu metiér”, diz ele, se referindo à profissão de escarafunchar a privacidade alheia. Uma palavra dessas não consta do vocabulário tradicional do detetive, mas as coisas são diferentes, se ele está falando com gente como o milionário Noah Cross (John Huston, em uma memorável caracterização vilanesca). Quando toma um banho não previsto durante uma investigação, Gittes não liga para uma possível pneumonia, mas fica furioso por ter perdido um par de sapatos caros. Conculsão: um homem cuja vulnerabilidade é tentar parecer o que não é.

Reza a lenda que Polanski brigou várias vezes com Towne, durante as filmagens, por causa de discordância nos rumos do roteiro. Pelo menos duas das mudanças feitas pelo diretor, no entanto, se mostram fundamentais para a excelência do filme. A primeira é a retirada da narração original em off, o que deixa cada pequena descoberta ressoar com mais força na cabeça do espectador. A outra é o final pessimista, muito mais realista e coerente do que o perfeito happy end imaginado por Towne. Os dois brigaram muito por esse final. A decisão final foi tomada pelo produtor Robert Evans, o lendário bon vivant que supervisionou uma das maiores séries de obras-primas arrojadas feitas no cinema, para a Paramount, em meados dos anos 1970. Evans decidiu com bom senso, e contribuiu decisivamente para transformar um bom policial numa das obras-primas de Hollywood.

A versão regular da Paramount tem o enquadramento preservado (widescreen, na proporção 2.35:1) e trilha de áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1). Como extras, apenas um segmento de entrevistas (13 minutos), legendadas, com os três nomes fundamentais da produção: Polanski, Towne e o produtor Robert Evans. Há ainda um trailer. A edição especial (capa vermelha) inclui uma coleção de featurettes que somam 55 minutos de entrevistas.

- Chinatown (EUA, 1974)
Direção: Roman Polanski
Elenco: Jack Nicholson, Faye Dunaway, John Huston, Perry Lopez
Duração: 131 minutos

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4 comentários
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  1. Com toda certeza, este é um dos melhores filmes de Roman Polanski.

  2. Rodrigo
    Nao podia esquecer de comentar esse filme contigo.Alias isso nao é filme,é qualquer coisa do outro mundo.Meu deus, que perfeicao de roteiro,que filmaco. A Faye Dunaway minha musa desde os tempos de Bonnie and Clyde , Crow o magnifico e Movidos pelo Odio( the Arrangement-1969 Elia Kazan) esta maravilhosa , charmosa , sensual e linda como sempre.Claro que o Jack N. e o John H. tambem estao otimos , mas ela é ela. Nao posso deixar passar a pequena mas antologica cena de Roman P. que antes de cortar o nariz do Jack, esse pergunta , quem e o anao se referindo ao pequeno tamanho de Roman P. Achei genial e deve ter sido por conta do Roman ou do Jack ja que dizem eram amigos e acredito nao estava no roteiro genial do Robert T.Tua analise e critica sobre o filme é uma obra – prima (assim como todas as outras) como tambem é o filme.Meus parabens e vai entender e desossar de filme la na China.Um abraco. Sander

  3. Rodrigo, o que você me diz sobre a continuação de Chinatown dirigida e estrelada por Jack Nicholson, A Chave do Enigma (The Two Jakes, 1990). Não assisti nem ao filme de Roman Polaski nem a esse a qual me referi, mas gostaria de sua avaliação. Sei que foi lançado em DVD aqui no Brasil (pelo menos no site da Livraria Cultura o encontrei).

  4. Sei da existência desse filme, Alberto, mas nunca o vi.

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