Choke – No Sufoco

01/05/2009 | Categoria: Críticas

Novo filme baseado em romance de Chuck Palahniuk revive personagens idiossincráticos e anarquia niilista de “Clube da Luta”

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Órfãos de “Clube da Luta” (1999) tiveram que esperar quase uma década para rever o mesmo espírito anárquico-niilista do longa-metragem de David Fincher em um novo filme. Não por coincidência, “Choke – No Sufoco” (EUA, 2008) também é adaptação cinematográfica de um romance de Chuck Palahniuk, o ex-caminhoneiro dublê de romancista que concebeu a polêmica crítica ao consumismo individualista convertida em imagens pelo diretor de “Zodíaco”. Como filme, “Choke” tenta – e consegue – captar o espírito rebelde e inconformista do trabalho de 1999, só que em um contexto mais intimista, mais centrado no indivíduo (no movimento interior dos personagens) e menos no contexto social que o rodeia. Mal comparando, seria uma espécie de “Clube da Luta” da alma, e não mais do corpo.

Como texto, “Choke” não nega sua origem. As marcas registradas da literatura de Palahniuk estão todas lá: personagens repletos de idiossincrasias que vivem à margem do tecido social, discussões sobre poder e controle social através de imagens de sexo e perversão, clubes de auto-ajuda como cenário de conflito moral, diálogos mordazes e repletos de auto-ironia. Para felicidade dos amantes de “Clube da Luta”, as opções estéticas do filme de David Fincher também foram repetidas aqui – a agilidade nos diálogos, a verborragia da narração em off satírica, a montagem veloz de imagens que vez por outra interrompe o fluxo contínuo da narrativa para comentar a ação (através de flashbacks, no uso de imagens congeladas e em outros truques modernosos de edição).

Para alguns, essa repetição das características estéticas e narrativas pode ser interpretada como virtude. Sob certos aspectos, o filme realmente se beneficia disso, ganhando um senso de humor auto-depreciativo e uma energia cinética palpável, de forma que a narrativa jamais perde a agilidade e/ou a intensidade emocional. Por outro lado, os cacoetes estilísticos deixam evidente a falta de autonomia autoral de Clark Gregg, cineasta que não consegue, pelo menos neste “Choke”, mostrar maturidade e estilo próprio. Até mesmo a repetição intencional de certos elementos exóticos já contidos na obra pregressa de Chuck Palahniuk depõe contra a obra, pois enfatiza aspectos narrativos incomuns, reaproveitados de forma preguiçosa dentro do enredo. É o caso dos citados clubes de auto-ajuda, elemento também presente em livros do inglês Nick Hornby, cujo senso de humor é semelhante, apesar da ausência de uma crítica social mais evidente.

A trama gira em torno de Victor Mancini (Sam Rockwell), homem na faixa dos 30 anos que trabalha como ator em um parque temático sobre a Guerra Civil norte-americana e possui uma compulsão anormal por sexo. A psicologia do personagem é algo banal – a raiz desta disfunção social está n a ausência dos pais, já que ele nunca conheceu o pai e a mãe (Anjelica Huston) está enclausurada numa clínica para portadores do Mal de Alzheimer. Victor a visita diariamente, na tentativa de compensar o problema, mas o fato de ela não o reconhecer só piora as coisas. Até que Victor conhece e se envolve afetivamente com Paige (Kelly Macdonald), médica da mesma clínica. É o relacionamento com ela, entremeado pelo senso do bizarro que marca todos os livros de Chuck Palahniuk, que pode virar a vida morna de Victor de cabeça para baixo.

Um aspecto decididamente positivo em “Choke” é a progressão da ação dramática, que por vezes envereda através de atalhos surpreendentes e impossíveis de prever, algo que mantém a excitação do espectador em alta. Além do mais, o elenco está muito bem – Sam Rockwell é um excelente ator ainda não reconhecido pelo grande público, apesar de ter oferecido belas atuações em filmes pouco vistos (“Os Vigaristas”, “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”), e Anjelica Houston brilha intensamente ao dar vida completamente distinta ao mesmo personagem feminino em duas cronologias distintas.

Embora esteja acima da média no desempenho do elenco, na engrenagem narrativa e sobretudo na inteligência com que o texto capta a atmosfera de inadequação social que ronda uma parte da geração que está na faixa dos 40 anos, neste início de século XXI, “Choke” não chega a desenvolver vida própria em termos cinematográficos. Em nenhum momento o filme abandona o caráter de subproduto de “Clube de Luta”, e mesmo seus personagens mais interessantes (como o amigo de grupo de ajuda de Victor, que se apaixona por uma dançarina de boate) não passam de rascunhos sem vida própria além dos limites estreitos do roteiro. Ainda assim, é o tipo de obra capaz de fazer fãs fervorosos e de provocar estreita empatia com pessoas que compartilham o mesmo senso de inadequação de seus personagens.

Ironicamente, o DVD nacional carrega o selo da Fox (que bancou “Clube da Luta” e, devido ao fracasso de público, demitiu o então presidente do estúdio, Bill Mechanic). Proporção de imagem (widescreen anamórfica) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1) estão intactos. Há comentário em áudio do diretor, cenas cortadas, erros de gravação e um featurette sobre as gravações, completadas em apenas três semanas.

– Choke – No Sufoco (EUA, 2008)
Direção: Clark Gregg
Elenco: Sam Rockwell, Kelly Macdonald, Anjelica Huston
Duração: 92 minutos

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