Chopper – Memórias de um Criminoso

16/01/2008 | Categoria: Críticas

Intrigante estudo de personagem que marcou a estréia de Andrew Dominik na direção borra os limites entre a ficção e a realidade

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Um fascinante poço de contradições. A definição pode parecer clichê, mas encaixa perfeitamente como descrição da personalidade complexa e atormentada de Mark Brandon Read. O sujeito se transformou no mais célebre criminoso australiano dos anos 1990 depois de escrever um livro supostamente autobiográfico, em que relata suas experiências violentas no submundo de Melbourne. Só que “Chopper – Memórias de um Criminoso” (Austrália, 2000), estréia do diretor e roteirista Andrew Dominik, está menos interessado em biografá-lo e mais em examinar, de forma acurada, o modo quase bizarro como Mark distorceu e ampliou a própria história pessoal, no afã de se tornar uma celebridade às avessas, a ponto de perder contato com a realidade.

A pergunta mais importante de “Chopper” parece fácil de responder: quem é Mark Brandon Read? A resposta, porém, está longe de ser simples. De fato, não há resposta para esta pergunta. Graças a uma personalidade exibicionista, que o impeliu de forma compulsiva a um comportamento obsessivo, Brandon Read adquiriu o hábito peculiar de mentir descontroladamente sobre si mesmo. Por isso, nada na autobiografia dele pode ser assumido como verdadeiro. O filme de Andrew Dominik é cuidadosamente construído sobre esta premissa. Trata-se de um fascinante estudo de personagem que explora uma idéia ambiciosa: a verdade sobre uma pessoa não existe. O que existe são relatos que sucessivamente ampliam, distorcem, confirmam, negam e modificam constantemente esta verdade. Ou seja, ela não passa de uma idéia mutante.

Extremamente bem editado, de forma a enfatizar o turbilhão de contradições que foi a vida do protagonista enquanto ele esteve fora da cadeia, “Chopper” conta com um grande trunfo: o ator principal. Eric Bana fazia carreira como comediante na TV australiana quando viu no papel a grande chance da carreira (curiosamente, quem o indicou foi o próprio Mark Brandon Read). Engordou 20 quilos, cultivou um carregadíssimo sotaque norte-australiano e compôs uma personalidade fascinante. “Chopper”, o homem, tinha um pendor para o crime desde a adolescência. Foi preso várias vezes. Na cadeia, ganhou tatuagens, dentes de metal e inimigos. Matou um deles – uma cena extremamente gráfica que pode incomodar os mais sensíveis – e arrancou os lóbulos das próprias orelhas para conquistar a transferência para outro pavilhão.

Por trás de todas essas ações, aparentemente desconexas, estava um objetivo que servia como elo de ligação para tudo o que Brando Read fazia na vida: a idéia obsessiva de se tornar uma celebridade, uma espécie de astro do crime. Não tendo conquistado a fama nem dentro e nem fora da prisão, “Chopper” decidiu que havia ainda uma cartada final. Escreveu um romance – supostamente autobiográfico, mas recheado com recordações duvidosas – e o publicou. O livro acabou mesmo virando best seller, e transformando-o no que sempre sonhou. O que a interpretação visceral de Eric Bana dá conta com perfeição (ele está tão bem no papel que saiu dos sets do filme diretamente para o estrelato em Hollywood, como protagonista em “Hulk” e “Munique”) é justamente o caráter ficcional, romantizado, desta biografia.

Nas cinco ou seis primeiras décadas do cinema, gêneros inteiros – o western, por exemplo – se dedicaram a construir mitos que romantizavam personagens verdadeiros, eliminando as áreas de sombra (o “lado negro”) dessas pessoas para transformá-las em heróis infalíveis. Cinqüenta anos depois, o conceito de “celebridade” tornou-se tão oco e volátil que personalidades atormentadas como Mark Brandon Read passaram a traçar uma jornada no sentido oposto, ampliando a qualidade negativa dos próprios atos criminosos para se tornar uma versão mais assustadora e ameaçadora de si mesmo.

De maneira inteligente, Andrew Dominik sugere que Brandon Read não foi o assassino implacável que desenhou no seu livro, mas um bandidinho pé-de-chinelo que cometeu pequenos delitos e aumentou-os na ficção apenas para ganhar fama. Ou não: no brilhante terceiro ato do filme, quando três pessoas narram versões completamente distintas para um mesmo episódio, não sabemos mais quem está dizendo a verdade, ou se existe mesmo uma verdade. No fim das contas, não importa. A realidade, garante Dominik, é impossível de capturar.

A edição norte-americana em DVD traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica) e áudio (DTS e Dolby Digital 5.1). Há dois comentários em áudio – um com o diretor e outro com o verdadeiro Mark Read –, cenas cortadas e um featurette que documenta o encontro entre o personagem real e sua contraparte ficcional.

– Chopper – Memórias de um Criminoso (Austrália, 2000)
Direção: Andrew Dominik
Elenco: Eric Bana, Vince Colosimo, Simon Lyndon, David Field
Duração: 94 minutos

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